A indicação do militar Hideo Augusto Dendini para a assessoria especial no Ministério das Relações Exteriores mostra a verdadeira face do…

Indicação de militar envolvido no massacre do Carandiru mostra a cara do PSDB

Indicação de militar envolvido no massacre do Carandiru mostra a cara do PSDBA indicação do militar Hideo Augusto Dendini para a assessoria especial no Ministério das Relações Exteriores mostra a verdadeira face do…


Indicação de militar envolvido no massacre do Carandiru mostra a cara do PSDB

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

A indicação do militar Hideo Augusto Dendini para a assessoria especial no Ministério das Relações Exteriores mostra a verdadeira face do PSDB, que enquanto dá destaque para figuras como um dos réus do chamado “Massacre do Carandiru”, precariza a Segurança Pública e a condição de trabalho de policiais militares.


Por Francisco Toledo

O PSDB usa a Polícia Militar do Estado de São Paulo como uma polícia política. Mas isso não é novidade.

Pelo menos não pra mim, que já sofri violência policial. Nem para os meus colegas, que também sofreram. Também não é novidade para a Dona Zilda, mãe de Fernando, vítima da violência no ano passado, quando oficiais da PM assassinaram cerca de 19 pessoas nas cidades da Grande São Paulo.

A “novidade” agora é que o PSDB mostra, enfim, a sua verdadeira face, como partido que utiliza da máquina de repressão para auto-promoção.

O primeiro passo foi a indicação do ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, para comandar o Ministério da Justiça, sob governo interino de Michel Temer (PMDB). Alexandre é visto como uma das figuras mais “promissoras” do partido, e já planeja sua campanha para o governo do estado em 2018, para substituir Geraldo Alckmin.

Sob o comando de Alexandre, a PM de São Paulo não só manteve como também aprimorou sua técnica repressiva, além de atuar claramente com objetivos políticos. Enquanto reprimia e pisava na Constituição Federal contra os jovens do Movimento Passe Livre neste ano, a PM utilizava do seu arsenal como auto-promoção eleitoral nas manifestações pró-impeachment na Avenida Paulista. Não era apenas o seu “público alvo” que frequentava tais manifestações — eram eleitores do partido do secretário, do partido do governador.

Em nossa primeira reportagem, mostramos Alexandre caminhando pela Avenida Paulista no dia 16 de agosto do ano passado. Tirava selfies, trocava abraços e elogios, inspecionava o arsenal militar durante a manifestação anti-Dilma. No mesmo dia, longe dali, moradores e familiares se manifestavam contra a violência no Jardim Munhoz Junior, palco da chacina que matou o filho de Dona Zilda, apenas três dias antes daquela data.

Então havia o questionamento: onde deveria estar Alexandre?

Três dias após a chacina, Moraes tira foto com manifestantes pró-impeachment na Paulista | Foto: Wesley Passos/Democratize

E agora, até mesmo no Ministério das Relações Exteriores, o ex-governador José Serra (PSDB) dá mais um passo para a “militarização do PSDB”.

O cargo para o qual Dendini foi nomeado é de nível DAS 5, considerado de alta confiança e descrição. Ou seja, Serra colocou nas mãos de um dos responsáveis por um dos maiores massacres da história de São Paulo o poder de decidir assuntos estratégicos da segurança nacional.

Dendini foi um dos 73 policiais militares envolvidos no massacre do Carandiru, e um dos acusados por lesão grave, ainda que posteriormente absolvido. O crime de que foi acusado refere-se ao momento final em que os detidos já tinham se rendido e, ainda assim, foram violentamente espancados.

Alckmin já havia dado um passo para a promoção de Dendini em 2014, quando foi promovido para capitão da PM. Enquanto Serra era senador, Dendini subiu mais uma vez, ocupando o cargo de assistente parlamentar sênior.

O partido que antes de gabava por defender a ideia de um país social-democrático, de bem estar social e igualdade, rasga de vez qualquer característica keynesiana que havia restado em sua sigla.

Mas, de fato, essa bandeira social-democrata sempre foi uma cortina de fumaça para esconder a atuação repressiva e neoliberal dos tucanos.

Em 1995, a Anistia Internacional criticou a gestão de Mário Covas em São Paulo, questionando o processo e o afastamento dos policiais envolvidos no massacre do Carandiru. A organização internacional de Direitos Humanos chegou a enviar uma carta para o então governador.

A Anistia nem imaginava que mais de 20 anos depois, um dos maiores responsáveis pelo crime ganharia um cargo de extrema importância no governo federal.

Mas trata-se de uma tática do PSDB, que ganhou espaço justamente em São Paulo.

Foto: Alice V/Democratize

É simples: o partido e seus políticos abraçam de forma populista a bandeira de segurança pública, com viés totalmente conservador. Com isso, ganham a confiança da classe média. Com a classe policial, promovem personalidades dentro da instituição. É como o caso de Dendini: daremos para você um futuro político e, em troca, queremos que você promova o nosso partido dentro da instituição e nas associações de policiais militares.

Por outro lado, trata-se do mesmo partido que nos últimos 20 anos precarizou o trabalho dos policiais militares, e ainda por cima gerou conflitos entre a PM e a Polícia Civil — conflitos que puderam ser claramente observados durante as investigações da chacina de Osasco, no ano passado, quando Moraes interferiu diretamente no trabalho da Polícia Civil, com o objetivo de “poupar” a instituição militar.

Não é de hoje que PMs reclamam de má condição de trabalho e a falta de aumento salarial. Em 2013, um mês antes de estourar os protestos contra a tarifa, entidades da Polícia Civil e Militar criticaram o “bônus” que Alckmin havia pretendido pagar para aqueles que “conseguirem reduzir os índices de criminalidade em suas áreas de atuação”. Eles queriam aumento salarial, e não bônus. Claro, o governador desconversou.

Um ano depois, cerca de 17 associações que representam soldados, cabos e oficiais da PM se manifestaram por reajuste salarial — no ano, Alckmin deu 0% de aumento para a categoria. A possibilidade de uma “greve geral” na instituição chegou a ser levantada. Não aconteceu. O lobby dos tucanos dentro da instituição foi o suficiente para causar medo entre os soldados.

Vale lembrar que a PM, por ser uma instituição militar, não pode decretar greve e nem se sindicalizar, dependendo do apoio de familiares e colegas para se organizar “por fora”, através de associações que não possuem muito poder de negociação.

Apesar de ser o estado mais populoso do país, a PM de São Paulo tem apenas o 9º maior salário da categoria — R$2.242 — , perdendo para Rondônia (7º), Espírito Santo (5º), Tocantins (4º que recebe R$3 mil), Sergipe (3º), e no Distrito Federal, onde a base salarial é de R$4.700.

E desta forma, de pouco em pouco, a PM de São Paulo vai se tornando uma organização armada partidária, de uma sigla que promove o militarismo autoritário, que consegue o poder através de políticas que exaltam o medo na sociedade, além de formas questionáveis de chegar ao poder — como foi o caso do impeachment de Dilma Rousseff.


Francisco Toledo é co-fundador e fotojornalista pela Agência Democratize em São Paulo

By Democratize on August 19, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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