“Não sou petista. Não preciso ser petista para defender a democracia e para levantar uma análise crítica sobre o que está acontecendo no…

Impeachment: o que está em jogo para as jovens brasileiras

Impeachment: o que está em jogo para as jovens brasileiras“Não sou petista. Não preciso ser petista para defender a democracia e para levantar uma análise crítica sobre o que está acontecendo no…


Impeachment: o que está em jogo para as jovens brasileiras

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Não sou petista. Não preciso ser petista para defender a democracia e para levantar uma análise crítica sobre o que está acontecendo no Brasil”.

A fala é de Adriana Silva, 26, moradora de Sobradinho (Distrito Federal), uma das primeiras vozes entrevistadas ao chegar em Brasília na tarde deste sábado, 16, para acompanhar a votação do Impeachment neste domingo. Adriana faz parte de uma geração de jovens mulheres empoderadas, economicamente ativas e que nos últimos 12 anos, viu avanços na política brasileira que fizeram a vida de sua família mudar.

“No governo Fernando Henrique, eu lembro que minha mãe trabalhava por 150 reais, para dormir na casa do patrão e não poder cuidar dos filhos. E lembro que quando a gente sentia fome, comia farinha com açúcar. Mas submeter-se a esse trabalho escravo, por 150 reais, por pouco dinheiro, acabou. Acabaram os privilégios da burguesia e a burguesia quer conquistar isso de novo, por isso é pró impeachment”, complementa.

Como Adriana, milhares de jovens brasileiras cresceram em um cenário que lhes motivou a tomar mais decisões em seus lares e postos de trabalho. Além disso, espaços de formação, como escolas, universidades e a própria voz das ruas têm, cada vez mais, colocado suas pautas como prioritárias, fazendo urgente a reflexão sobre o que está em jogo em nosso país neste momento político em que há uma avançada machista e conservadora, que põe em risco direitos garantidos às brasileiras que buscam melhores perspectivas de futuro, em especial as mais jovens e que estão nas camadas mais vulneráveis da sociedade.

Entre os principais avanços políticos dos últimos anos estão a criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, em 2013, a aprovação da Lei Maria da Penha, em 2006 (ambas durante a gestão do presidente Lula), e a Lei do Feminicídio sancionada em 2015 (durante a gestão da presidenta Dilma).

Para a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), com o Impeachment, princípios basilares da democracia seriam atingidos e vivenciaríamos um período de sérias restrições. Segundo a deputada, com Dilma ainda é possível agir para a redução de danos e escutar o que dizem os movimentos sociais.

“Quais seriam as perdas [com o impeachment]? Nossas meninas perderiam a possibilidade de um futuro livre de preconceitos, um futuro com avanços na luta contra as desigualdades de gênero. Na ruptura democrática são as minorias sociais as primeiras a serem atingidas, como mulheres, negros e população LGBT. Neste Parlamento altamente conservador já predomina a visão machista e misógina do mundo, imagine então num governo formado majoritariamente por líderes desses grupos reacionários? Pautas como criminalização do aborto legal, redução da maioridade penal, restrição de direitos das mulheres e o avanço das desigualdades no mercado de trabalho serão facilmente aprovadas.”

Foto: Felipe Malavasi/Democratize

Um dos exemplos mais significativos de conquistas que estão em risco é o Bolsa Família, o qual das 14 milhões de famílias beneficiadas pelo Programa, 92% dos titulares são mulheres. Mas, antes de falar de que maneira o programa impacta da vida de nossas jovens, é preciso derrubar a noção preconceituosa de que mulheres mais pobres estão engravidando para receber o benefício e não ter que trabalhar. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a queda do número de filhos por família é maior entre beneficiários do Bolsa-família. Para se ter uma ideia, entre 2003 e 2013, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), do IBGE, o número de filhos de até 14 anos caiu 10,7% no Brasil. No recorte das famílias 20% mais pobres do país, a queda foi de 15,7%. E é justamente esse estrato social que inclui os quase 15 milhões de beneficiários do Bolsa Família.

Em termos de políticas públicas, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) reforça que a prioridade do pagamento para as mulheres e as condicionantes para sua continuidade vai além, pois colabora para que elas mantenham o calendário de vacinação em dia e garante que as crianças estejam nas escolas, entre outros fatores fundamentais para assegurar direitos básicos para nossas jovens brasileiras. Assim, enquanto ao redor do mundo mais de 60 milhões de meninas não vão à escola, no Brasil elas deixam de ser impedidas de estudar em função do trabalho infantil, inclusive doméstico, e ampliam as oportunidades de mais acesso à educação e melhores postos de trabalho.

Indo além de alguns exemplos de políticas públicas que beneficiam nossas meninas e poderiam ser revertidas em um governo sem legitimidade democrática e caráter popular, Maria do Rosário também defende que nossas jovens perderiam — e muito — em termos de referencial simbólico.

“A presidenta Dilma, ainda enquanto candidata em 2010 afirmou: “A partir da minha eleição, as meninas deste país terão os mesmos sonhos dos meninos, elas poderão querer ser presidente da República”. A partir de sua deposição, a posição já sedimentada em nosso imaginário, de que nem todo espaço, em especial os de poder, podem ser ocupados pelas mulheres, será reforçada. Estaremos passando a triste imagem de que a primeira mulher eleita presidenta do Brasil poder ser arrancada de seu posto antes do fim do seu mandato sem que nenhum crime tenha cometido. Esse fato, conjugado com a persistente sub-representação no Congresso Nacional, passará a imagem de que a política não é lugar para nós.”

Maria do Rosário reforça, ainda, que graças a uma infância com mais garantias e às oportunidades propiciadas pela ampliação das vagas nas universidades, no ensino superior, as mulheres já conformam a maioria das estudantes, em que pese, em média tenha renda 24,6% menor do a masculina, indicando avanços e desafios neste campo.

Isto porque, o cenário conservador afeta, de modo geral, a geração que ocupou cadeiras universitárias e agora quer mais, porque teve melhores condições de emprego e renda e, em fase de formação, começa a quebrar paradoxos sociais e conquistar espaços menos desiguais. No Prouni, por exemplo, neste ano, os 1.599.808 inscritos puderam escolher duas opções entre mais de 30 mil cursos e disputar as 203.602 bolsas de estudos ofertadas. Cerca de 65% dos inscritos tem até 22 anos e 59,5% são mulheres. Além disso, com as cotas sociais e raciais nas universidades federais, mais mulheres negras e pobres têm tido acesso ao ensino superior.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Esta ampliação de perspectivas de futuro para jovens que passaram a ocupar cadeiras universitárias fez melhorar seus postos de trabalho e facilitou sua inserção no programa Minha Casa, Minha Vida, que também prioriza mulheres como titulares, estando 94% delas entre os beneficiários das residências. Fatores que ampliam o acesso à saúde pública e informação, dando capacidade de tomar decisões no espaço doméstico, não se sujeitar a relações violentas com seus parceiros e acessar mais os métodos contraceptivos.

Quanto à saúde, vale reforçar que, hoje, as brasileiras podem acessar vacinas gratuitamente, tal como a de prevenção ao HPV, que lhes confere mais proteção contra o câncer de colo do útero, que tanto atinge mulheres de todas as idades. No entanto, do outro lado do muro, entre os que defendem o impeachment há fundamentalistas religiosos que lutam contra a autonomia das mulheres e seus corpos, como Eduardo Cunha (PMDB-RJ), autor do projeto de lei 5069, em tramitação na Câmara dos Deputados.

O PL tem brechas que poderiam dificultar o acesso à pílula do dia seguinte mesmo em caso de estupro, tirando do profissional de saúde ou instituição a obrigação de “aconselhar, receitar ou administrar procedimento ou medicamento que considere abortivo”, uma vez que não há consenso em toda a comunidade científica em considerar a pílula do dia seguinte como profilaxia da gravidez, e não como medicamento abortivo. Para a deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), isto representa um ataque ao empoderamento e à representatividade das mulheres.

“Não é por acaso que a turma que hoje lidera o golpe contra a nossa presidenta, recusando-se a aceitar o resultado das urnas, é a mesma que tem se empenhado contra os direitos das mulheres. Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, que aceitou o processo de Impeachment da presidenta, tem imposto uma clara agenda de restrição aos direitos das mulheres, sobretudo os sexuais e reprodutivos. Principal figura do conservadorismo brasileiro, Cunha gerou uma ofensiva para que não tenhamos autonomia sobre os nossos corpos, restrições a conquistas importantes, como é o caso do PL 5069, que limita o atendimento as vítimas de estupro, por exemplo. Esse projeto derruba a lei de 1941, que dá direito ao aborto em casos de vítimas de estupro, como também dificulta a venda da pílula do dia seguinte. Chegamos ao ponto de correr o risco de retroceder avanços da década de quarenta! O Congresso é o mais conservador desde 1964, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).”

Assim, se tudo isso não lhe convenceu de que o Impeachment representa um retrocesso ao futuro — e presente — de nossas jovens brasileiras, uma rápida olhada nas lideranças que propõem o impedimento mostrará o mesmo que os argumentos aqui colocados: a completa ausência de uma voz que não seja masculina na oposição.


Texto e reportagem por Tatiana Oliveira, blogueira do A Ultima Crônica e jornalista do Democratize, direto de Brasília

By Democratize on April 17, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

Posts Relacionados

On Top
error: Para reproduzir o conteúdo do Democratize, entre em contato pelo formulário.
%d blogueiros gostam disto: