Triste ironia do destino: na mesma semana em que um museu promovido pela Fundação Roberto Marinho é aberto no Rio com amplo apoio público e…

Holofotes no Museu do Amanhã e fogo no Museu do Passado

Holofotes no Museu do Amanhã e fogo no Museu do PassadoTriste ironia do destino: na mesma semana em que um museu promovido pela Fundação Roberto Marinho é aberto no Rio com amplo apoio público e…


Holofotes no Museu do Amanhã e fogo no Museu do Passado

Foto: G1

Triste ironia do destino: na mesma semana em que um museu promovido pela Fundação Roberto Marinho é aberto no Rio com amplo apoio público e com um gasto exorbitante, o Museu da Língua Portuguesa é alvo de um incêndio verdadeiramente criminoso pela falta de atenção do Estado com o patrimônio público e histórico.

Chamar um museu como o da Língua Portuguesa em São Paulo como “do passado” pode ser um tanto errado e até desrespeitoso. Mas, infelizmente, é assim como parte da sociedade civil, além do poder público e privado o enxergam. Em uma época onde privatizar o nosso patrimônio público e histórico virou praxe pelo Estado, é impossível não associar o que aconteceu ontem (21) no Museu da Língua Portuguesa com uma possível prática criminosa de irresponsabilidade do poder público.

Mais lamentável ainda: tudo isso ocorre dias após a abertura do completo oposto representado pelo Museu da Língua Portuguesa em São Paulo — o tal Museu do Amanhã, encabeçado com o apoio direto da Fundação Roberto Marinho e pela prefeitura do Rio de Janeiro.

Nos últimos anos, dezenas de comunidades foram arrancadas de seu lugar para dar espaço para a “gourmetização” do Rio de Janeiro, em prol da Copa do Mundo em 2014 e principalmente dos Jogos Olímpicos em 2016. Enquanto o Estado não conseguia espaço para construir moradia popular para os desabrigados e expulsos de suas comunidades, sobrou terreno para uma mega-construção espetacular com apoio dos Marinho.

Importante salientar: a arquitetura por trás do Museu do Amanhã, desenhado pelo espanhol Santiago Calatrava, é exuberante. A proposta em si também. Construir um museu que dialogue com a sociedade sobre a mudança climática e a responsabilidade do cidadão com o meio ambiente é essencial para construir um futuro contra o aquecimento global.

O problema aparece quando analisamos de fato a construção e o que ela representa para o Rio de Janeiro dos dias de hoje.

Foto: Reprodução/Flickr

Ao mesmo tempo em que a Fundação Roberto Marinho apoia e faz parte de uma iniciativa como a do Museu do Amanhã, ela acaba representando através do seu braço midiático um amplo apoio ao agronegócio e também com empresas e corporações como a Vale do Rio Doce e a Samarco, responsáveis diretas pelo desastre em Mariana neste ano.

São os Marinho que ganham com o nome de Katia Abreu no Ministério da Agricultura, visando o lucro e benefício de seus parceiros comerciais que sustentam de fato o seu veículo de comunicação.

Além disso, o Museu do Amanhã também representa não a modernização do Rio de Janeiro, e sim a exclusão. Como foi dito acima, nos últimos anos milhares de famílias perderam sua moradia por conta das Olimpíadas de 2016. Foram expulsas e até agredidas com o braço armado do Estado, e até hoje não possuem uma condição digna oferecida pelo poder público em troca de ser obrigado a abrir mão de seu pedaço de terra. É impossível não lamentar que, ao mesmo tempo em que isso ocorre, uma iniciativa glamourosa como a do Museu do Amanhã ocorra. E pior: com a presença não só dos Marinho, como também de Eduardo Paes (prefeito do Rio) e da presidenta Dilma Rousseff, que em plena crise política preferiu se colocar do lado daqueles que possivelmente querem a sua queda, ao invés de se solidarizar com as famílias de trabalhadores e trabalhadoras que perderam suas casas nos últimos anos.

E lamentavelmente, esse fato acaba se encontrando no caminho com o incêndio no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Trata-se de um dos museus mais visitados do país e da América Latina, onde mais de um milhão e meio de pessoas já passaram.

E, com objetivo de comparação, a inércia do poder público com sua gestão e segurança beiram a incompetência e irresponsabilidade. Segundo a prefeitura de São Paulo, o museu não tinha auto de vistoria dos Bombeiros, além do alvará de funcionamento. Mas para o secretário estadual de Cultura, Marcelo Mattos Araujo, isso não é um problema: “A questão do alvará é complexa porque o museu está em um prédio histórico e compartilhado com a Estação da Luz. O alvará é único para esse grupo, estação e museu. Na parte do museu não existe alvará, mas existem projetos que foram apresentados para os Bombeiros e foram implantados”.

Lamentável como o processo de modernização da cultura e da arte vem sido aplicado no Brasil. Ao invés de impulsionar a inclusão dos setores mais distantes dentro deste circulo, o que ocorre é o oposto.

Não existe outra palavra para definir o que aconteceu além de criminoso. Talvez irresponsável. Mas criminoso, definitivamente.

Enquanto fazemos de conta que “discutimos o amanhã”, vamos apagando o nosso passado pouco-a-pouco, até o momento em que tudo não passará de figuras dentro de livro de história — se permitirem que eles existem até lá.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on December 22, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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