“Pia Mancini e seus colegas querem atualizar a democracia na Argentina e além. Através de sua plataforma de celular, de código aberto, eles…

Hackear a democracia: Da participação à (des)politização

Hackear a democracia: Da participação à (des)politização“Pia Mancini e seus colegas querem atualizar a democracia na Argentina e além. Através de sua plataforma de celular, de código aberto, eles…


Hackear a democracia: Da participação à (des)politização

Protesto do dia 6 de junho de 2013 promovido pelo MPL contra o aumento das tarifas em São Paulo | Foto: Raphael Tsavkko

“Pia Mancini e seus colegas querem atualizar a democracia na Argentina e além. Através de sua plataforma de celular, de código aberto, eles querem inserir os cidadãos no processo legislativo e lançar candidatos que vão ouvir o que eles dizem.”

Por Raphael Tsavkko Garcia

Esta é a introdução de um video do TEDGlobal com a ativista Pia Mancini, em 2014. Recomento que vejam o vídeo, é muito interessante e é possível traçar paralelos com o Podemos espanhol e outros movimentos que pregam uma democracia mais participativa baseados na tese de que a sociedade civil organizada teria o poder de mudar estruturas. Baseiam-se nas teorias de Multidão, da nova esquerda, teorias que pregam ampla participação popular. Mas esbarram em dois problemas: Acreditam que necessariamente as pessoas tem interesse em participar da política e mais, que tem capacidade para tanto.

A Apatia é parte do processo e podemos ver os limites de propostas plebiscitárias e baseadas em “participação popular” ao analisar brevemente a história do espanhol Podemos:

Os “indignados” — como eram chamados os que se manifestavam no 15M e após — nascem de uma profunda crise do sistema político espanhol, além de uma crise de endividamento e de cortes maciços de direitos, com diminuição da renda e desemprego em massa. Nasce de uma situação aparentemente insustentável que legou a uma resposta radicalizada pela via institucional para o problema (pode parecer contraditório o uso de “radicalização” e “via institucional”, mas no fim acabou sendo a realidade).

Em seu primeiro ano de vida o Podemos conseguiu ultrapassar a marca dos 300 mil filiados (ou inscritos), todos com direito a participar dos debates internos e a votar via internet nas políticas e candidatos aos cargos internos do partido. Uma utopia digital se não fosse por um pequeno problema, se o Podemos não fosse vítima do próprio mal que veio combater: A apatia política.

Nas primeiras eleições internas, pouco mais de 50% dos inscritos para votar “compareceram” às urnas virtuais, em outubro de 2014. Apenas 42%votaram, em novembro de 2014 nas eleições que elegeram Pablo Iglesias como Secretário Geral da formação e em dezembro do mesmo ano o número caiu para 34% de votantes na eleição para dirigentes regionais. E é preciso lembrar que o processo de votação se deu por internet, então a proximidade com datas festivas e com uma época de viagens não se justificaria de imediato.

O número de filiados do partido tem crescido, mas a quantidade de eleitores efetivos aparentemente não. Este é um grave problema para o Podemos, pois no fim isto pode acabar se refletindo na votação para as eleições espanholas, que devem acontecer até o fim de 2015. O partido tem crescido nas pesquisas, chegando a ameaçar a hegemonia do PP — e em algumas pesquisas mesmo o ultrapassando -, fazendo com que lideranças do partido cogitem até uma ampla coalizão aos moldes alemães com o PSOE que, apesar de negar, possivelmente comporia tal coalizão visando se aproximar do poder e das benesses da posição. Sem dúvida o partido não tem a intenção de alienar seus eleitores imediatamente e apostam pela tática do estelionato eleitoral.

Um anúncio anterior à eleição da mera possibilidade uma coalizão com o PP poderia resultar numa debandada de eleitores para o Podemos.

O Podemos terá de lidar à medida que se aproximam as eleições, com a apatia interna e com a apatia geral na Espanha, cuja eleição anterior ao parlamento espanhol apresentou uma abstenção de quase 30%.¹

É um erro pensar que apenas por ter a oportunidade/possibilidade de participar as pessoas necessariamente vão fazê-lo. Há uma infinidade de forças atuando para afastar as pessoas do debate político e a mais forte, penso, é a despolitização — que por sua vez se torna um problema real quando deixa a apatia e se envolve em debates políticos sem ter a capacidade ou a bagagem para tal. Por bagagem não falo em título universitário, mas interesse real, compromisso, capacidade de enxergar, analisar e tirar conclusões da realidade para além da criação de espantalhos.

Repressão policial na manifestação do MPL, no dia 6 de junho de 2013 | Foto: Raphael Tsavkko

A despolitização se apresenta de várias formas, e em sua pior versão desemboca num fascismo torpe que gera apoio, por exemplo, a seres irracionais como Bolsonaros e Felicianos (este, no entanto, ainda tem a seu favor, por assim dizer, o fanatismo religioso, outro traço preocupante) — o que não quer dizer que todo despolitizado acabe votando em Bolsonaro ou que todo eleitor do Bolsonaro seja despolitizado, é importante deixar claro. É a incapacidade de compreender o funcionamento da própria democracia, e dessa forma partir para discursos simples e simplistas, muitas vezes carregados de ódio contra tudo e todos, muito aos moldes do que é a religião (ou do que era, por exemplo, o catolicismo na idade média). O medo — de perder posses, status, de perder “direitos” — cria reações em geral irrefletidas e doentias e o despolitizado em geral é movido por medo, por ignorância.

Quando digo que alguns não tem a capacidade de participar da política não me refiro a alguma característica inata, biológica, e sim a um conjunto de elementos, que vão do desinteresse, passando pela falta de vontade de ir além do óbvio, chegando mesmo ao fanatismo (religioso, ideológico) que impede que se enxergue adiante e a negação do exercício do diálogo e da alteridade.

Despolitização pressupõe ignorância (no sentido de se ignorar o que está além, mas não apenas), logo funciona como uma esponja para discursos fáceis, e nada mais fácil do que o discurso de ódio da direita contra tudo e todos em que sempre há um inimigo fantasioso a se combater: “os comunistas estão chegando” e coisas do tipo. À esquerda — que por muito tempo exigia alguma politização, leitura de certos livros e mínima base teórica ou ao menos uma experiência real, por exemplo, em luta sindical, estudantil, etc — a despolitização se manifesta em militâncias e militantes fanatizados incapazes de pensar para além das cartilhas de seus partidos e movimentos e em “ativistas” conhecidos como Social Justice Warriors (guerreiros da justiça social), hordas defensoras de pautas de minorias sem capacidade para tal, apenas baseando-se em uma suposta “vivência” e soltando frases feitas e termos vazios, chegando ao ponto de negar o pensamento científico e a própria realidade, destilando ódio no achismo de que assim combaterão o ódio do outro lado.

Apenas facilitar uma participação irrefletida de despolitizados nas decisões políticas me parece algo que merece mais debate. É uma situação difícil de resolver e, penso, impossível através apenas do hackeamento da democracia ou de suas ferramentas, como propõe Pia Mancini e seu grupo no vídeo que abre a postagem. É preciso ir além e alterar completamente o modelo de democracia vigente em que grassa a despolitização e a incapacidade de refletir sobre política. No Brasil, um país que odeia mesmo a academia e acadêmicos, em que “estudar” é sinônimo de ser vagabundo e em que professores em greve são espancados pela polícia, se limitar a promover de forma irrefletida a participação dos despolitizados nos processos decisórios me parece ser o mesmo que abrir as portas para uma tomada fascista. Não se trata, que fique claro, de propor barreiras para a participação política, o que seria, também, fascismo, mas sim buscar formas de politizar a multidão.

Protesto do dia 17 de junho de 2013 em São Paulo: desta vez, as ruas estavam cheias, mas e a mobilização, continuava a mesma? | Foto: Raphael Tsavkko

A aproximação da massa, da “multidão” à política é necessária, mas deve ser mais do que só isso, deve ser um processo profundo de transformação social. Não basta criticar o sistema político, é preciso encontrar formas de transformar a sociedade. E, quando falamos em “multidão” temos de falar também de processos de organização social, de formação de coletivos amplos (não falo aqui de movimentos identitários pós-modernos excludentes) que promovam participação política e, acima de tudo, politização. Coletivos amplos por um lado, mas também um processo de formação de micro-movimentos, de movimentos locais, de aproximação ao local ao próximo, de soluções locais e de discussões sobre problemáticas locais.

É preciso ter em mente, também, que o processo coletivo de tomada de decisões ou mesmo a formação de coletivos não pressupõe o fim da individualidade ou da tomada individual de decisões — um problema comum em certos campos da esquerda que costuma buscar diminuir ou mesmo neutralizar indivíduos em prol de um coletivo amorfo. É uma dicotomia deveras complicada de lidar. Movimentos tendem a amalgamar indivíduos ao ponto de anular sua individualidade, suas diferenças, ao passo que o indivíduo tende a desprezar soluções coletivas e busca de consenso. À direita o efeito é o da individualidade passar por cima do coletivo ao ponto de negá-lo, promovendo o egoísmo e a competição desenfreada e, na política, isso se reflete numa bancada política de achacadores interessados unicamente em ganhos pessoais.

É uma situação complicada em que a democracia — felizmente — pressupõe a participação de todos (e no Brasil inclusive por força de lei através do voto obrigatório, mas esta é outra discussão), mas onde uma grande parte desse todo não tem o menor interesse em efetivamente entender como funciona o processo ou mesmo participar ativamente. E não me refiro apenas ao que grita “fora Foro de São Paulo” achando que há uma conspiração mundial, ou ao Stalinista que continua defendendo “paredão” para os inimigos, muito menos ao governista que acredita que o golpe virá da “direita” e não do próprio governo estelionatário eleitoral, mas do que acredita piamente em hoax de Whatsapp ou do Facebook e se coloca como cidadão de bem se (des)informando pelo Jornal Nacional ou Veja por um lado, e pelo Brasil 247 (carinhosamente chamado de Brasil 171) ou pelos diversos blogs da rede governista BlogProg.

Pensar exige compromisso, fazer política exige o pensar. Não preciso nem comentar os efeitos da (momentânea) saída da apatia de setores despolitizados que resolvem, por exemplo, protestar ou tentar fazer textão no Facebook. São milhares tomando as ruas com bandeiras do Brasil sem saber efetivamente contra o que ou contra quem protestam (contra tudo que está aí, mas ao lado do Cunha, Bolsonaro, militares, etc), acreditando se tratar de uma festa, com discursos que beiram ou mesmo ultrapassam o ridículo. Protestos em que de um lado rola uma balada com fortões e “gostosas” na avenida lotada e do outro viúvas da Ditadura disputam espaço com gente que grita contra PT os chamando de “comunistas” — fazendo coro, ainda que por razões diferentes, com certos fanáticos do lado petista que pensam que o partido também é ou nos levará ao comunismo ou algo semelhante.

Em resumo, se por um lado a ideia de aproximar o eleitor, o cidadão da política institucional é muito boa e necessária (a democracia ampla é sempre um objetivo a ser alcançado), por outro esbarra numa possível falta de interesse e, pior, esbarra no próprio sucesso do modelo quando traz o despolitizado para participar sem qualquer tipo de processo de politização. A imagem de que o coletivo, a multidão, seria necessariamente progressista é irreal. A ideia de que ela seria necessariamente politizada ou ao menos QUER ser politizada é igualmente irreal. A multidão, ou a massa, não é e em muitos casos não quer se politizar ou pensar. É mais simples gritar que “bandido bom é bandido morto” do que raciocinar mais além. Isso não quer dizer, porém, que precisamos formar conselhos de iluminados para contrabalancear a “multidão” ou mesmo desistir da ampla democracia por um modelo de supostos experts.

É preciso reinventar a política, ir além dos mecanismos de participação. Buscar ativamente trabalhar em processos de politização das massas, da multidão, oferecendo alternativas à mesmice cotidiana e apresentando as possibilidades do futuro através do engajamento. É necessário, enfim, buscar ferramentas para a inclusão de todos nos processos decisórios mostrando que política não é apenas apertar um botão e escolher um candidato, mas é parte da vida, é um processo de (re)construção e (re)configuração diária que nao apenas pode como influi diretamente nas vidas de todos e nas relações entre todos.

E um adendo, a (des)politização não tem relação alguma com classe, cor, status social, diploma ou renda, é algo que transcende e ultrapassa estes elementos e características, é sempre bom deixar claro.


Texto por Raphael Tsavkko Garcia, jornalista, ativista e doutorando em direitos humanos (Universidad de Deusto) e autor do Global Voices Online

By Democratize on November 13, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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