Foto: Wladimir Raeder/Democratize

Há esquerda para além do PT

Há esquerda para além do PTEm tempos de Fora Temer e/ou Fora Todos é preciso discutir seriamente o papel institucional das esquerdas no país.


Há esquerda para além do PT

Foto: Wladimir Raeder/Democratize

Em tempos de Fora Temer e/ou Fora Todos é preciso discutir seriamente o papel institucional das esquerdas no país.


Por Victor Amatucci

Em primeiro lugar — não, não farei a piada — a honestidade intelectual. Este artigo é escrito por um petista, filiado. Se isso impede vossa senhoria de terminar o texto, que pena, desejo melhoras. Em segundo lugar, não é um petista fanático quem escreve, mas um capaz de avaliar — até onde a isenção me permite — os diversos erros petistas. Siga o texto, quem sabe você não se surpreende?!

Atualmente é consenso — nem poderia deixar de ser assim — criticar o PT pelas alianças com PMDB, PP, PR e outros Ps ainda mais desprezíveis. Críticas até certo ponto justas, posto que a derrota petista se inicia justamente nelas e, mesmo na derrota, não foi capaz de as encerrar. Então por que “até certo ponto”? Porque foram justamente as alianças que permitiram aos governos petistas os avanços realizados até aqui.

É justo que se considere que foram poucos os avanços, que as mesmas alianças não permitem avançar mais e as reformas realmente relevantes são esquecidas. Concordo com essas críticas. Não se pode, no entanto, ignorar que 36 milhões de pessoas saíram da miséria. Não se pode ignorar que graças ao mesmo Bolsa Família 17 milhões de estudantes têm (tinham?) a frequência escolar acompanhada que o programa empondera as mulheres de forma, talvez (sou homem, releve essa parte se for besteira), de forma nunca vista no país pós-Getúlio.

CALMA, EU CHEGO LÁ. UM POUQUINHO MAIS DE PACIÊNCIA.

Qual a desculpa do PT para, pós-golpe, se aliar a figuras como Rodrigo Maia? Não sei, sinceramente, além da ausência de massa encefálica, não vejo motivos, de fato. Também não vejo motivos para cortar um programa de educação anti-homofobia para tentar segurar Palocci e, depois, derrubar Palocci. Eu entendo as críticas. São justas.

Mas é preciso também ver um lado mais complicado de ser visto. O papel das outras esquerdas. A crítica mais comum é também a mais superficial “ah o PT fez alianças, mereceu cair”. O regime presidencialista no qual vivemos impõe a necessidade de maioria na Câmara, isso é certo. Governar com o povo é coisa bonita de se ver, mas qual povo? Eu estava em Brasília, ajudei a organizar 5 ônibus que saíram de São Paulo para pressionar Cunha a não aprovar a redução da maioridade penal. Eu fui, eu vi e nós todos vencemos. Aí, no dia seguinte, o Cunha deu uma de advogado do Fluminense e voltou a colocar a matéria em votação. E foi aprovada.

Foi aprovado porque o PT tem 58 deputados. O PCdoB tem 12. O PSOL 6. A conta não fecha, simplesmente.

A crítica ao PT é justa, mas falta um lado nessa história. Ou bem queremos uma revolução — eu, pessoalmente, topo essa — e começamos a armar a população que também quer (e antes disso, descobrir quem é que quer) ou então só nos resta a via institucional. Nesse último caso não se pode cobrar alianças só à esquerda do PT — sim, com todas as críticas já feitas aos exageros do tipo Rodrigo Maia — porque a esquerda não soma na vida prática mais do que 100 votos. São 512. Para aprovar uma PEC é preciso 2/3 ou seja 342 votos.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

A reforma política mais do que o Fora Temer é que deveria unir a população e os partidos. É ela quem permite que esquerdas menos pragmáticas tenham maior acesso ao parlamento. Mas a reforma política, assinada por 8 milhões de cidadãos, não foi para frente. Nem com apoio enorme da população e, vá lá, um ou outro comentário na grande imprensa.

É preciso criticar o PT na questão das alianças — me chama que eu sei coisas ótimas a respeito — mas pode-se e deve-se criticar os demais partidos de esquerda. Afinal, se resolveram ser partidos é porque não apostam na revolução. E, sendo assim, podem até cobrar o PT mas pode haver um pouco de autocrítica também.

Haddad deveria ser apoiado pela Erundina em São Paulo. Freixo deveria ser apoiado pela Jandira no Rio de Janeiro. Enquanto a esquerda brincar de fazer política, perderá espaço. E sem força nas ruas para qualquer resistência mais radical, restará, quando muito, migalhas.

Eu topo falar mal do Lula indo abraçar Carmén Lúcia — sua futura algoz — e topo xingar o Rui Falcão quando ele direciona que o PT não deve proibir, mas ‘apenas não recomendar’, as alianças com partidos que apoiaram o golpe. E topo falar mal da comunicação petista — quando ela existir, no caso.

Mas seria bom se as esquerdas institucionalizadas fizessem o mesmo. Se a bancada de esquerda somasse 250 votos e não 100, a gente batia junto nas fotos com Maluf. Mas enquanto a regra do jogo exigir votos e as esquerdas não o tiverem, vamos ter que engolir algum nível de aliança.

Ah, sim, é bom lembrar, a opinião deste repórter não representa o Democratize como um todo. Pode continuar nos lendo.


Victor Amatucci é repórter e jornalista pela Agência Democratize em São Paulo; blogueiro pelo ImprenÇa

By Democratize on September 14, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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