Foto: Wagner Maia/Democratize

Freixo perdeu nas urnas – mas venceu nas ruas

É possível perder nas urnas, mas vencer nas ruas? Marcelo Freixo mostrou que sim. Não existe contradição na afirmação. Enquanto Crivella celebrava o resultado das urnas em um local fechado, com pouco mais de 100 apoiadores e colegas de partido e igreja, Freixo ocupava as ruas do centro com milhares de pessoas. Não parecia uma derrota.

No segundo turno da eleição para prefeito do Rio de Janeiro, a direita conservadora venceu. O candidato do PRB, Marcelo Crivella, alcançou 59,36% dos votos contra 40,64% de Marcelo Freixo (PSOL), candidato que tinha nas mãos a esperança de um respiro para a esquerda brasileira neste ano.

A vitória não veio. O respiro não chegou.

Será?

É difícil imaginar como seria o resultado dessa eleição em outra circunstância. Imaginem um cenário onde o anti-petismo não tenha sido tão radical ao ponto de colocar o PSOL no mesmo quadro político que o PT. Ambos que se auto-identificam como esquerda, mas com ideias e programas diferentes. Será que Crivella teria vencido?

Vamos ir além de imaginar. Vamos analisar. Na prática, Freixo era o único candidato que de fato não havia se ligado diretamente ao governo petista de Dilma Rousseff. Afinal, Marcelo Crivella foi ministro da ex-presidente. Portanto não vemos aqui necessariamente um anti-petismo, e sim um anti-esquerdismo. Não importa que Crivella tenha trabalhado com Dilma Rousseff, ou que seu partido tenha crescido com base na política de governabilidade promovida pelo ex-presidente Lula, principal líder do PT. Crivella e o PRB não levantam bandeiras de esquerda – pelo contrário, isso quem faz é o PSOL e Freixo. “Defender bandido”, “acabar com os costumes da família brasileira”, e tantas outras asneiras populistas utilizadas como discurso para massa de manobra.

Isso nos leva a crer que não existe apenas uma onda anti-petista no Brasil, mas sim de fato uma mobilização inteira contra qualquer núcleo partidário e social que defenda ideias progressistas, socialistas ou até mesmo social-democratas. O impeachment, a crise econômica e social não afetaram apenas a imagem do PT. Como também a do PSOL e de outras siglas de esquerda. Isso é – agora – inegável.

Mas estamos falando das urnas. Porém, qual o papel das ruas nisso?

A forma como Freixo conseguiu lotar as ruas por onde passou nesta campanha foi inacreditável. Prova disso foi o que aconteceu neste domingo (30), quando mesmo após a confirmação da vitória de Crivella, milhares de pessoas permaneceram na Cinelândia para comemorar os votos de Freixo e apoiar seu candidato. Isso enquanto Crivella se fechava em um local privado, cercado de amigos pessoais e partidários, que não chegavam nem a 100 pessoas – entre eles, claro, o ícone da extrema-direita das redes sociais, o pastor Silas Malafaia.

Foto: Wagner Maia/Democratize
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Com Freixo, foi diferente. Eram estudantes secundaristas, universitários, professores, trabalhadores, sindicalistas, pessoas que simplesmente quiseram estar lá – sem qualquer ligação política com organizações, movimentos sociais ou partidos.

Pessoas que fizeram parte da campanha como um coletivo – conforme o próprio Freixo disse em seu discurso. Todo o seu programa político seguiu a mesma linha. Não foi feito por pessoas de terno e gravata, dentro de um escritório fechado. Foi uma construção aberta, participativa. A chamada horizontalidade dos protestos de 2013 e do movimento secundarista se tornava uma inspiração para a campanha política, feita para as urnas. Das ruas para as urnas.

E das urnas para as ruas.

O candidato do PSOL deixou claro: haverá oposição, e ela será dentro da Câmara mas principalmente nas ruas, como aquela multidão que acompanhava seu discurso.

A esquerda perdeu nas urnas – e não foi só no Rio de Janeiro. Foram derrotas amargas em São Paulo, Porto Alegre, e tantas outras capitais e até mesmo cidades metropolitanas. Mas isso abriu espaço para ocupar novamente a rua – local que, nos dois últimos anos, se tornou uma espécie de centro de experimentos sociais, com dancinhas pró-impeachment e até mesmo fascistas desfilando defendendo a intervenção militar.

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Porém, essa direita em ascensão agora sai das ruas para ocupar as urnas. Os cargos públicos. Toda a máquina de austeridade e repressão. Na esquerda, sobrou o que eles deixaram: um povo confuso, descrente com a política, que precisará se organizar para impedir o avanço de reformas impopulares, como a Previdência e a Trabalhista, além da própria PEC 241.

E isso, historicamente falando, sempre foi papel da esquerda. Dos sindicatos, dos estudantes organizados e autônomos, dos partidos políticos.

A primeira batalha foi perdida. E foi feio.

Mas é só o começo de uma longa caminhada, que não deve acabar em 2018, muito menos em 2020 – como disse Freixo neste domingo. Virão outras derrotas, mas em determinado momento as ruas estarão lotadas novamente, celebrando não a perda – mas sim, enfim, a vitória.

Milhares Acompanham Votação Com Freixo No Rio

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