Foto: The Presidential Press and Information Office.

Fidel, o último herói

Por Luiz Carlos Checchia

O desaparecimento físico de Fidel Alejandro Castro Ruz, ocorrido no último dia 25 de novembro, marca o fim de uma era: a dos grandes heróis revolucionários. Iniciada com a figura de Lênin, essa longa era teve figuras como Che, Trotsky, Rosa, Mao e Chaves, e outros mais ainda. Dentre todos esses heróis, Fidel era o único que ainda vivia, tranquilamente, em sua casa, nos arredores de Santiago de Cuba. Por herói, entendemos aqui, a personalidade que se torna pelos seus feitos e exemplos a representação de uma aspiração coletiva. Carregada de erros e acertos, o herói é aquele ou aquela capaz de aglutinar confiança, força e credibilidade suficientes para inspirar e motivar a ação coletiva. Fidel era um esses heróis.

A morte de Fidel, justamente pela sua condição de herói, pode significar muito no cenário geopolítico, ainda que ele estivesse afastado do Poder desde 2008, quando problemas em sua saúde o fizeram renunciar ao sem cargo de presidente do Conselho de Estado (relativo à presidência). Não é que concordemos que o comandante cubano  continuasse a “dar as cartas” como afirmam os veículos de comunicação da chamada grande mídia, embora, evidentemente, suas opiniões tivessem grande valor. Mas Fidel representava, ainda, a resistência dura ao bloco imperialista capitaneado pelos Estado Unidos da América, justamente a maior experiência imperialista após a Segunda Grande Guerra. Por carregar essa representação, as fotos do presidente venezuelano Nicolás Maduro e do presidente boliviano Evo Morales ao lado de um Fidel já encurvado pela idade mas ainda lúcido e motivado, não são apenas lembranças de viagem a Cuba, mas reafirmações de um alinhamento político com tudo o que ele representava. E mesmo envelhecido e fora do governo, Fidel continuava a ser um símbolo forte.

Mas os heróis e o que eles representam não estão descolados da trama histórica, aliás, surgem e somem por fazerem parte dela. Talvez em outro momento a morte de Fidel representasse o momento do “passo a frente” da Revolução Cubana, ou seja, um golpe triste da fortuna, mas que conclamasse o povo avançar a revolução. No entanto, os tempos são sombrios para a esquerda em nível global e o desaparecimento de Fidel ocorre em meio à uma conjuntura em que o Brasil passa por um golpe que atende aos interesses do imperialismo estadunidense, a eleição de Donald Trump, nos EUA, o avanço da direita na Venezuela, e o fim do ciclo da família Kirchner na argentina.

Tentemos entender cada uma dessas situações.

Durante os governos petistas intensificaram-se as parcerias entre Brasil e Cuba, sendo as mais notórias de suas iniciativas a contratação de médicos e médicas cubanas através do Programa Mais Médicos e a construção do Porto de Mariel, cuja primeira fase foi concluída em janeiro de 2014, construída pela empresa Odebrecht e com recursos do BNDES. Na inauguração do porto, a então presidenta Dilma Rousseff afirmou que os investimentos em Mariel significavam “a amizade duradoura entre os povos do Brasil e de Cuba” é preciso destacar que Cuba fica em uma estratégica posição geográfica, e a abertura do Porto de Mariel faria da ilha um ponto de parada de diversas embarcações comerciais que transitam pelo Atlântico.

No entanto, o espírito anti-comunista que anima o governo Temer constrói dificuldades ou mesmo empecilhos às relações diplomáticas e comerciais entre os dois países. Mesmo a embaixada cubana no Brasil tem evitado manifestar-se a respeito.

Já no tocante à eleição de Trump, é muito cedo para se tecer afirmações, mas há alguns bons indícios que ajudam a vislumbrar o que pode vir pela frente: o magnata-presidente centrou sua campanha numa agenda doméstica, deixando as grandes discussões geopolíticas para sua oponente, Hillary Clinton. Essa estratégia foi acertada, garantindo-lhe a maioria dos votos do colégio eleitoral, ainda que Clinton obtivesse a maioria dos votos absolutos. Se seguir sua própria agenda, é provável que Trump ocupe-se menos com as relações internacionais, mas Cuba ocupa um singular e contraditório espaço no imaginário popular dos conservadores estadunidenses: a ilha e “os irmãos Castro” representam o perigo vermelho, o inimigo incondicional que impedem a realização plena do Destino Manifesto dos EUA, que significa o controle político, econômico e ideológico sobre a América Latina. Assim, se Cuba pode vir a não interessar a administração Trump no que tange às relações geopolíticas de fato, os EUA podem reiniciar a campanha anti-Cuba, inclusive intensificando o desumano bloqueio que impõem sobre a ilha, que foi, e fato, umas das promessas de campanha feita por ele. Um dos mais evidentes indícios que apontam essa direção é a forma pouco respeitosa como a qual Trump se referiu a Fidel após seu desaparecimento, chamando-o de “um ditador brutal que oprimiu seu próprio povo por quase seis décadas”, nada mal para quem quer começar uma briga…

Após o fim da União das Repúblicas Soviéticas, Cuba passou por um longo período de penúria. A URSS era sua principal parceira comercial, e cerca de 85% dos recursos que chegavam à ilha vinham dessa parceria. Da noite para o dia o dinheiro simplesmente sumiu de Cuba, dando início ao longo processo que ficou conhecido como Período Especial. Cuba encontrou na Venezuela um grande parceiro comercial e político após a eleição de Hugo Chaves para a presidência daquele país, em 1998. Chaves passou a garantir a entrega de petróleo e seus derivados à ilha, além de estabelecer outros importantes negócios com a ilha. Para isso, Chaves contava com o favorável preço do petróleo no mercado mundial, que garantia à Venezuela os recursos necessários para tanto.

Todavia, a queda constante do preço do barril de petróleo tem provocado imensos problemas ao atual presidente venezuelano Nicolás Maduro, ao que se soma a intensa campanha de desestabilização de seu governo empreendida pela direita daquele país, provavelmente financiada pelos EUA. Embora Maduro mantenha-se na cadeira presidencial, a sua situação não é das melhores, sobretudo após a direita ter obtido a maioria das cadeiras do parlamento, após as eleições de 06 e dezembro de 2015, essa maioria já se movimenta no sentido de fazer com Maduro o que fizeram com Dilma, apeá-lo do governo em uma espécie de golpe parlamentar. Essa situação coloca em cheque a garantia de parceria entre os dois países nos anos que virão.

Embora a derrota de Daniel Scioli, candidato apoiado por Cristina Kirchner à presidência argentina, em 2015, para o candidato Mauricio Macri, possa não parecer um problema imediato, o fato é que todo o arranjo ideológico latino- americano sofre um revés com suas duas principais nações – Brasil e Argentina – nas mãos de políticos assumidamente neoliberais. Esse arranjo negativo regional passa também a pesar contra Cuba, já que inviabiliza a plena integração da América Latina e Caribe.

Em linhas mais que gerais e um tanto esquemáticas, esse é o cenário geopolítico em que ocorre o desaparecimento de Fidel. Cuba não mais poderá contar com a figura desse herói e a sua capacidade de aglutinar ao seu entorno pessoas e agrupamentos políticos das mais variadas origens e idades. Visto o cenário descrito acima, certamente um mal momento para se perder tal figura de tamanha potência e importância.

No entanto erra quem acha que haverá um caos de cubanos correndo pelas ruas; a Revolução Cubana logrou imensos sucessos no que tange a formação de uma consciência revolucionária em seu povo. Se afirmamos que Fidel é um herói nacional enquanto representação do que significa a Revolução Cubana, o fato é que a revolução é mantida por aqueles e aquelas que o comandante representa: justamente o povo cubano. Fidel só existe enquanto representação à medida que cada cidadão e cidadã cubana permanecerem lutando pela Revolução, hasta la victoria. É certo que nem todos cubanos ou cubanas sejam socialistas, mas sabem que têm muito a perder com uma possível derrocada da transição socialista na ilha e é pouco provável que a morte de Fidel lhes tire tamanha consciência.

Deve-se destacar também que Raul Castro já sinalizou que não concorrerá às próximas eleições, o que promoverá uma renovação nos quadros dirigentes do país, renovação que será benéfica a todo o processo revolucionário e que acontece em um preciso momento de consolidação da revolução combinada com as reformas econômicas que ocorrem por lá.

Assim, trata-se de um momento difícil para Cuba, mas não de um momento pior que os já vividos na ilha. As experiências de luta pela revolução certamente alimentaram a resistência cubana aos açoites ou aos espelhinhos distribuídos indiscriminadamente pelo imperialismo.

Sobre Cuba e nós, esquerda brasileira

 No entanto, apesar do cenário adverso, inicia-se um novo ciclo para a esquerda em que não bastam as promessas de “reinventar-se”, como querem alguns, ou de inventar uma “nova esquerda”, como querem outros. É preciso que a esquerda busque em sua história e constituição o ponto em que ela não mais conseguiu manter-se firme no embate contra o imperialismo, essa fase superior do capitalismo. E Cuba é, e fato, um manancial de exemplos para toda a esquerda latino-americana.

A resistência cubana se dá justamente porque sua estratégia revolucionária nunca foi traída, apenas de equívocos cometidos. Nunca houve, no desenrolar do processo revolucionário em Cuba, um só momento de conciliação ou capitulação frente ao imperialismo. Essa postura provocou sim momentos difíceis, mas também ajudou a conscientizar o povo sobre seus reais inimigos. No Brasil, infelizmente, a conciliação entre setores da centro-esquerda com as mais conservadoras frações da direita criaram as condições para o golpe desferido pelo grupo que atualmente governa o país, e com muito apoio de setores da casse trabalhadora.

Somente com um mergulho em si mesma, em sua história, recuperando o sentido da revolução socialista é que a esquerda brasileira poderá se reerguer. Nesse processo, Cuba ainda continua sendo o melhor exemplo.

 

Luiz C. Checchia é Mestre em Ciências Humanas pela USP, Historiador, e Diretor Teatral, atualmente integrando a Cia Teatro dos Ventos.

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