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Eu odeio dizer isso, mas tudo que temos é um ao outro

Ao ouvir a música Pure Comedy, do novo álbum do excêntrico Father John Misty, fica impossível não relacionar a letra de sua canção (e basicamente toda a narrativa que acompanha seu disco) com a atual situação política do Brasil – e claro, do mundo como um todo.

“A comédia do homem começa assim”, anuncia Father John Misty:

Através de uma perspectiva pessimista, porém realista, o compositor questiona a condição de moralidade estagnada na sociedade ocidental como um pedestal que precisa ser quebrado. Afinal, do seu ponto de vista, esse moralismo representa justamente o que corrompe e torna o mundo um lugar tenebroso de se viver. Preconceitos, corrupção, conflitos étnicos e religiosos, nacionalismo, endeusamento de indivíduos, entre outros. Apesar de acolher um discurso cristão, de amor ao próximo como premissa que justifique sua existência, a moralidade nada mais é do que um quadro bonito dentro de uma sala pegando fogo.

Trata-se de uma utopia, que carrega em seu seio diversas outras teses falaciosas que predominam, principalmente no campo político atual, o debate dentro da sociedade.

Uma dessas “mini-utopias” é a existência do “cidadão de bem”, além dos “valores da família”. Ambos são apresentados como fórmulas de pacificação, que representam a condição para um mundo ideal. Esses falsos valores não nasceram hoje, e muito menos do capitalismo pós mundo industrial – apesar de ser usado como uma bandeira de defesa do mesmo na atualidade, inclusive no Brasil. Em Pure Comedy, Father John Misty responde o papel dessas mini-utopias dentro do quadro geral da moralidade:

“Suas religiões são as melhores. Eles adoram a si próprios mas são completamente obcecados com zumbis, virgens celestiais, truques de mágica, estes trajes inacreditáveis. E eles ficam muito chateados quando você questiona seus textos sagrados, escrito por epilépticos que odeiam mulheres”.

Os valores defendidos hoje por conservadores predominam na sociedade ocidental e cristã desde sua existência, e apesar de ser apresentado como uma fórmula de mundo ideal e pacífico, refletiu desde então gerações de violência extrema e de ódio descontrolado. Apesar do “fim do mundo” parecer chegar agora – ou muito em breve -, esse cenário de esgotamento e de caos social e político não é novo. Talvez use novos trajes na atualidade, porém faz parte da História que nos acompanha e, junto dela, tais valores compreendidos por conservadores como essenciais para manter a ordem.

Falemos do cenário de violência apresentado em Brasília no dia 24 deste mês: as imagens de prédios públicos pegando fogo foram imediatamente julgadas como atos de vandalismo por parte de “facções terroristas”, e não de manifestantes ou cidadãos revoltados com a atual ordem política do nosso país. Esse julgamento, que parte justamente dos conservadores moralistas que tanto criticam a classe política, serve como base de sustentação da lógica apresentada acima: ao invés de apoiar os manifestantes que decidiram colocar fogo nos prédios que representam a ordem política e econômica atual – corrupta, repleta de escândalos e injustiças -, os defensores da moralidade apontam essa violência como uma afronta ao estado de ordem pública, um mero ato de vandalismo que torna justificável a violência física contra os manifestantes, apoiando o uso de armas de fogo por parte de policiais contra a população que estava no protesto.

Resumindo – criticam o sistema, mas acreditam que a ordem das coisas deve prevalecer. E como mudar o país? Os moralistas acreditam nas instituições da própria ordem como fórmula de mudança. A Polícia Militar, as Forças Armadas, e agora individuos como Sérgio Moro.

“Onde eles encontram esses tontos que elegem para governá-los? O que torna estes palhaços que idolatram tão notáveis? Estes mamíferos são obcecados em formar novos deuses para que assim eles possam continuar a ser animais sem deus”, continua em sua canção Father John Misty.

É pura comédia. Como diz a canção: sua ideia de ser livre é uma prisão de crenças. Para os conservadores moralistas, liberdade é meritocrático. Para ter, você deve merecer. E para merecer, você deve seguir regras muito bem estabelecidas de convivência social, que não afete diretamente aquilo que ele considera uma sociedade ideal. Ou seja: você pode ser livre. Você pode existir como parte de sua comunidade, contanto que não seja gay. Se for, não assuma. Se você nascer negro, não deve se importar com o passado de sua família que foi escravizada e portanto não teve as mesmas oportunidades de crescimento na sociedade como uma família branca. Se você for mulher, saiba que seu papel dentro de uma sociedade cristã já foi traçado. Se você não acreditar na ordem pública, vá embora, não é bem vindo.

“É difícil não se apaixonar por algo tão impotente”, pondera Father John Misty em sua canção. Aqui, tenta desmontar a ideia de que vivemos no completo fim do mundo. Quer dizer, podemos sim estar vivendo nosso triste e horroso final – porém a beleza que existe ao nosso redor não deve ser esquecida. Seja ela um beijo de um casal escondido no beco, as mãos dadas por baixo da mesa de jantar, ou até mesmo um prédio pegando fogo. Não devemos temer a ordem e sim continuar a questionar a sua existência como única verdade possível. Seremos julgados, escrachados, perseguidos, ridicularizados e talvez algo ainda pior. Mas cada detalhe que torna esse mundo o melhor lugar para se viver não deve ser esquecido. O ato de se apaixonar de forma ingênua e insegura, acompanhada pelo receio e temor do que virá pela frente. Sentir calafrios, um abraço. Segurar sua filha e ela dormir em seu colo. Ouvir e dizer “eu te amo”.

Porque como Pure Comedy lamenta em sua última frase: “Eu odeio dizer isso, mas tudo que temos é um ao outro”. O meu final também será o teu. Quem sabe com a destruição completa da nossa sociedade como conhecemos hoje, o que existir pela frente conseguirá dar mais valor para a vida do que para pedaços de vidro e de concreto vandalizados.

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