Já são dois dias que a Escola Estadual Fernão Dias Paes, na região de Pinheiros em São Paulo, segue ocupada por dezenas de alunos contra a…

Estudantes ocupam escola e resistem contra projeto de Alckmin

Estudantes ocupam escola e resistem contra projeto de AlckminJá são dois dias que a Escola Estadual Fernão Dias Paes, na região de Pinheiros em São Paulo, segue ocupada por dezenas de alunos contra a…


Estudantes ocupam escola e resistem contra projeto de Alckmin

Foto: Francisco Toledo/Democratize

Já são dois dias que a Escola Estadual Fernão Dias Paes, na região de Pinheiros em São Paulo, segue ocupada por dezenas de alunos contra a reformulação do ensino no estado, projeto da gestão tucana de Geraldo Alckmin. Mesmo com um cerco digno de Hollywood spray de pimenta contra os estudantes, a ocupação segue.

Estive na manhã desta quarta-feira em frente à escola Fernão Dias Paes, na região oeste de São Paulo. Parecia, sinceramente, cena de cinema: do lado de fora, algumas barracas e pessoas acampadas, cerca de 100 pessoas protestavam em apoio aos 40 alunos que estão trancados do lado de dentro, contra o fechamento dessa escola. São crianças, adolescentes, mas com uma maturidade incrível. E talvez por conta dessa maturidade, o governador Geraldo Alckmin e seu secretário de segurança Alexandre de Moraes, destacaram centenas de policiais para ficar do lado de fora.

Não é brincadeira: o prédio foi cercado. A escola ocupa praticamente um quarteirão inteiro. Na parte de trás, policiais de moto observavam a movimentação e ficavam de olho para ver se alguém tentava entrar no prédio. Nas laterais, as ruas ficaram fechadas. Sim, a PM bloqueou o acesso. Moradores precisavam se identificar e ficar cerca de 5 minutos argumentando que moravam por ali para então, enfim, poder entrar. Já na frente, no portão principal, dezenas de policiais faziam um cordão humano para impedir a entrada de alunos, e também qualquer diálogo entre parentes, professores e manifestantes do lado de fora com eles.

A água foi cortada para enfraquecer a mobilização, logo ontem a noite. A ocupação começou nesta terça (10) logo cedo, quando os alunos chegaram um pouco mais cedo para ocupar a escola. Uma jogada genial.

O governo tucano fez de tudo para enfraquecer a revolta estudantil contra seu projeto de reorganização do ensino, que fechará várias escolas pelo estado, e colocará os alunos de tais escolas em outras separadas por período. Um dos principais problemas do projeto é que boa parte das escolas nas quais os alunos serão colocados fica a mais de 2km de distância de suas casas. Recentemente, o governo de Alckmin começou a veicular uma propaganda (paga pelo contribuinte) para justificar o plano de reorganização do ensino, nas TVs e rádios. Na peça, é claro, um professor feliz questionava se continuaria com seu emprego, enquanto uma mãe aliviada perguntava se a escola iria fechar. A resposta: vai fechar, mas calma, vai ser utilizada para outros fins educacionais, então não vai fechar, apesar de que ela vai deixar de existir. Entende?

Rua lateral da escola Fernão Dias, completamente fechada pela PM | Foto: Francisco Toledo/Democratize

Do lado de fora, logo que cheguei, os alunos protestavam contra o policial Feitosa. Demorei pra entender quem raios era Feitosa e o que ele tinha feito, até perceber que um dos tenentes no cordão logo em frente ao portão principal tinha o mesmo nome. Feitosa, segundo os estudantes, havia jogado spray de pimenta no rosto de uma adolescente após um pequeno tumulto. A garota acabou desmaiando. Os manifestantes denunciavam que naquela hora, não havia nenhum policial filmando a situação. O argumento é válido: naquele momento após o tumulto, não havia só um policial com uma câmera profissional filmando cada passo dos manifestantes, como também uma tenente com seu celular filmando a situação em frente ao cordão policial. Onde eles estavam na hora em que o Ten. Feitosa agrediu a aluna?

Encontrei o Deputado Estadual do PSOL, Carlos Gianazi, que compareceu para apoiar a luta dos alunos da Fernão Dias. Tentei junto a ele entrar na escola. Dialogamos com vários policiais, falamos com os responsáveis, mas o máximo que o deputado conseguiu foi ter a “permissão” de conversar com alguns alunos do outro lado da grade, em uma das ruas laterais da escola. Eu, claro, com a câmera, não consegui acompanhar o deputado.

Deputado Carlos Gianazi conversa com alunos que ocuparam a escola | Foto: Francisco Toledo/Democratize

Em entrevista para o Democratize, Gianazi diz que é preciso não apenas apoiar a mobilização dos alunos da Fernão Dias, como também convocar outros setores da sociedade para demonstrar seu apoio e solidariedade, além de mobilizar novas ocupações em escolas que serão fechadas pelo governo do estado. Além da ocupação na Fernão Dias, uma escola na cidade de Diadema (Grande SP) também foi ocupada nos últimos dias por alunos e funcionários.

Os alunos também receberam o apoio de outros setores que marcaram presença nesta manhã: militantes do MTST e da Frente Povo Sem Medo compareceram para ajudar a mobilização dos estudantes, e principalmente evitar qualquer tipo de ação fora do padrão contra os adolescentes partindo das forças de segurança. Representantes dos metroviários também marcaram presença, como o presidente do seu sindicato, Altino.

Mas talvez o apoio mais inusitado tenha partido de alguém vindo da classe artística. O ator Pascoal da Conceição esteve em frente à escola nesta manhã, e discursou para os alunos que estavam do lado de fora e de dentro. Citou seu personagem histórico no Castelo Rá-Tim-Bum, o Doutor Abobrinha, e fez uma genial comparação entre a vida real e a série: enquanto o governo tenta fechar a escola e remover os alunos, com o objetivo de “utilizar o prédio para outros fins ainda não determinados oficialmente”, o Doutor Abobrinha tinha como sonho ter em suas mãos o castelo, para transformá-lo em um gigante shopping de cem andares. Uma lógica que visa sempre o lucro, seja lá sobre o que precise passar por cima.

O ator Pascoal da Conceição, o eterno Doutor Abobrinha, em apoio aos estudantes | Foto: Francisco Toledo/Democratize

Cheguei lá preocupado. Temendo o que o governo e seu aparato de segurança pudesse fazer com aquelas dezenas de jovens, que possuem em média 15 ou 16 anos. Mas, apenas três horas depois, sai de lá aliviado. Eles não precisam da nossa preocupação. Conseguiram, em apenas dois dias, colocar de volta na mídia e nas ruas uma pauta que parecia estar perdendo o fôlego, e conquistaram o apoio de seus ídolos, quem diria, além de nomes renomados na luta sindical e de movimentos sociais.

Saca só o vídeo produzido pelo Democratize, com imagens feitas por mim na manhã de hoje, e por Fernando DK na manhã de ontem, em protesto realizado em frente ao Palácio dos Bandeirantes pela Apeoesp, contra a reorganização do ensino.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on November 11, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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