Depois do vazamento do áudio de uma reunião entre funcionários do governo do estado, ações suspeitas tem ocorrido em escolas ocupadas. Em…

Estado Islâmico? Não, a guerra de Alckmin é contra estudantes

Estado Islâmico? Não, a guerra de Alckmin é contra estudantesDepois do vazamento do áudio de uma reunião entre funcionários do governo do estado, ações suspeitas tem ocorrido em escolas ocupadas. Em…


Estado Islâmico? Não, a guerra de Alckmin é contra estudantes

Foto: Reinado Meneguim/Democratize

Depois do vazamento do áudio de uma reunião entre funcionários do governo do estado, ações suspeitas tem ocorrido em escolas ocupadas. Em Osasco, uma delas foi invadida por homens mascarados, que colocaram fogo em uma das salas — resultando na invasão da PM e desocupação do prédio. Na Lapa, ameaças de bomba. Tudo ocorre depois da promessa de “guerra” do governo estadual contra os estudantes.

Estamos em guerra. Mas o nosso inimigo não é estrangeiro. Também não é terrorista. Muito menos radical religioso. Não, não é a Rússia. Estamos em guerra contra adolescentes de 15 e 16 anos que resolveram peitar o nosso governo, ocupando mais de 200 escolas contra um projeto que chamamos de reorganização do ensino, mas na realidade não passa de uma manobra para economizar no caixa, mesmo que isso resulte em queda na qualidade da educação do estado.

O parágrafo acima deveria ser a introdução da declaração de guerra feita pela equipe do governo estadual de São Paulo. A tal “guerra” foi declarada durante uma reunião fechada neste último fim de semana, que só pôde se tornar pública após vazamento de um áudio pelo coletivo Jornalistas Livres, acontece contra a série de ocupações feitas em escolas estaduais desde o começo de novembro, quando alunos secundaristas resolveram se posicionar contra o projeto de reorganização do ensino defendido pelo governo, e proposto pelo secretário da Educação, Herman Voorwald.

Não por acaso, após o chamado pelo confronto, algumas coisas estranhas acabaram acontecendo nesta segunda-feira nas escolas ocupadas do estado — mais necessariamente na periferia e fora dos holofotes da grande mídia.

No vídeo acima, gravado no final da tarde desta segunda-feira (30), alunas denunciam a invasão da Polícia Militar na Escola Estadual Coronel Antonio Paiva, na região de Quitauna, cidade de Osasco. Segundo informações, um grupo de homens mascarados teriam invadido a escola, ameaçado estudantes, colocado fogo em uma das salas e vandalizado todos os materiais e equipamentos do prédio. Alguns alunos ainda afirmam que, mesmo com a invasão desses homens suspeitos, eles tentaram realizar uma assembleia no pátio do colégio para decidir qual postura a ocupação deveria tomar diante do acontecimento, quando a PM invadiu a escola.

Os policiais militares no local alegaram que “receberam uma denúncia partindo de um vizinho da escola que uma TV havia sido roubada pelos estudantes”. Ainda consegui conversar com um tenente que estava na frente do colégio após o ocorrido, que fez questão de me mostrar as fotos de dentro da escola, com todos os materiais e equipamentos revirados. O objetivo ali foi claro: denunciar os alunos que ocupavam a escola como vândalos. Uma velha tática já adotada anteriormente em junho de 2013.

Interior da E.E. Coronel Antonio Paiva, após invasão da PM | Foto: O Mal Educado/Facebook

Ao mesmo tempo, segundo informações de jornalistas e fotógrafos, uma escola na Lapa teria recebido ameaças de bomba por parte de “pessoas suspeitas” que começaram a circular nos arredores do prédio.

Outro caso grave ocorreu na escola Guiomar Camolesi Souza, na cidade de Sorocaba, no domingo. Homens encapuzados invadiram o prédio com armas de fogo, e ameaçaram os estudantes. Após o caso, de tão traumático e grave que foi, os ocupantes resolveram por sair da escola.

Já nas escolas localizadas na região mais central da capital, a situação tem sido menos agressiva, porém também preocupante. Uma aluna da E.E. Maria José, na região da Bela Vista, denunciou ao Democratize que a direção do colégio armou uma reunião com moradores e pais de alunos, na tentativa de desmobilizar a ocupação. Segundo a aluna, nenhum dos estudantes da escola foram sequer convidados para a reunião. Um dos pais dos alunos que ocupam o colégio teria sido agredido fisicamente por membros da direção da escola, após defender a ocupação.

Agora, nesta terça-feira (1), a situação deve ainda piorar. Trata-se do “Dia D” dado pelo governo do estado para desarticular de vez as ocupações contra a reorganização do ensino. O objetivo do governo tucano é que membros da Secretaria da Educação visitem cada uma das mais de 200 escolas ocupadas ao redor do estado, com o objetivo de “explicar melhor” do que se trata o projeto, e “pedir aos alunos suas exigências e contra-propostas” ao plano do governo estadual.

Ou seja, são duas táticas distintas adotadas pelo governo Alckmin: na periferia e em locais mais afastados dos olhos da mídia, “grupos armados” suspeitos atacam escolas com o objetivo de intimidar os alunos e terminar com as ocupações. Nos bairros mais de Centro, se usa a tática de desarticular a ocupação pelas costas, com reuniões secretas com comunidade e parentes, isolando as escolas e deixando os alunos cada vez mais inseguros.

É claro que os secundaristas não ficariam quietos diante do avanço agressivo do governo Alckmin. Já na manhã desta segunda-feira, estudantes da E.E. Fernão Dias Paes, em Pinheiros, trancaram o trânsito de uma das avenidas mais movimentadas da região, a Faria Lima. Colocaram cadeiras de sala de aula no asfalto e sentaram. Foi o suficiente para a PM agir de forma truculenta. Mas não adiantou: mais tarde, no começo da noite do mesmo dia, alunos trancaram a Marginal Tietê.

Acredito que, de forma irresponsável, o governo tucano inflamou uma possível radicalização do movimento — algo com o qual talvez não contasse. Não existe nenhuma prova concreta de que os grupos armados e encapuzados que invadiram escolas em Sorocaba e Osasco são de fato capangas contratados pelo governo estadual. Mas caso isso seja verdade, não existe espaço para uma gestão criminosa como esta em um estado como São Paulo: é motivo de impeachment e prisão.

Colocar em risco a vida de adolescentes apenas para manter os cofres do governo no verde é mais irresponsável que “pedaladas fiscais”. E não pode ficar barato, caso realmente tenha algum dedo do governo estadual nisso.

Enquanto isso, os secundaristas dão uma aula de radicalização pacífica ao governador e futuro pré-candidato para a presidência pelo PSDB. Talvez todo esse movimento esteja apenas no começo. Algo maior está por vir — espero.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on December 1, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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