O policial civil Marcelo Thadeu Penha Cardoso, sacou sua arma durante uma manifestação encabeçada por mulheres negras em Brasília, e deu…

Essa é a cara do fascismo

Essa é a cara do fascismoO policial civil Marcelo Thadeu Penha Cardoso, sacou sua arma durante uma manifestação encabeçada por mulheres negras em Brasília, e deu…


Essa é a cara do fascismo

Foto: Reprodução/Facebook

O policial civil Marcelo Thadeu Penha Cardoso, sacou sua arma durante uma manifestação encabeçada por mulheres negras em Brasília, e deu cerca de quatro tiros com a arma de fogo. Thadeu fazia parte do acampamento pró-intervenção militar na capital. Essa é a cara do fascismo no Brasil.

A banda Engenheiros do Hawaii tem uma música que diz: “O fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante e fascinada”. Mas é preciso ir além desse pensamento. Os roqueiros acertam em cheio quando dizem que o fascismo é fascinante. E de fato é.

O fascismo, como ideologia, é a mais humana de todas. Ela faz parte do senso comum generalizado, dos achismos, da tradição secular do não pensar e do apenas agir. O fascismo penetra mentes e desmente a realidade de tal forma que agora, parece apenas existir uma única verdade no mundo, a sua. A verdade verdadeira, que existe para manter valores que se retirados da face da Terra resultaria no caos, na insegurança, no fim da rotina. Fascismo é isso, é rotina, é o velho tradicionalismo impenetrado em valores “do bem”: famílias de bem, homens de bem, trabalhadores do bem, que vivem apenas para proteger suas vidas, suas tradições, suas crenças e temem qualquer tipo de ação vinda de fora que possa mudar tudo isso. Não importa que mude pra melhor: o não pensar não permite o raciocínio para distinguir.

Mais importante: o fascismo vai além do conflito de classes. Como ideologia, é uma das únicas que conseguem esvaziar mentes de classe média, nobre ou pobre. Pois não se concentra em justiça e igualdade social, mas sim em valores sociais e religiosos. Talvez essa seja sua característica mais perigosa, e talvez por isso se deve ligar o sinal de ALERTA quando o fascismo mostra sua cara no Brasil. E ontem ele mostrou.

Nesta quarta-feira aconteceu a Marcha das Mulheres Negras em Brasília. Mais de 15 mil pessoas participaram. Trata-se da primeira marcha que reivindica os direitos da população negra no Brasil, desde 1995. É importante registrar que, ao contrário do que muitos veículos tradicionais informaram, não se trata de uma marcha promovida pela CUT — o fato de ter balões do sindicato durante o protesto sinaliza apenas o apoio, mas a organização em si vai bem além da CUT ou qualquer outro movimento social/sindical específico.

Durante a marcha, surge o fascismo. Um policial civil que estava acampado junto aos pró-intervenção militar em Brasília saca a sua arma. Seu nome é Marcelo Thadeu. Ele já havia sido preso na última semana por portar uma pistola automática no acampamento. Vendo a marcha prosseguindo, Thadeu resolve de forma impensável dar quatro tiros para o alto, com o objetivo de espantar os manifestantes e dispersar a marcha.

Antes de qualquer conclusão, é importante destacar: o acampamento pró-intervenção não é o mesmo acampamento pró-impeachment. Movimentos como o Vem pra Rua e MBL fazem parte de outro grupo que está acampado em Brasília — apesar disso, se utilizaram do mesmo artifício de mídias governistas para “justificar” qualquer ação violenta partindo dos intervencionistas contra os manifestantes da marcha das mulheres negras.

Mais importante ainda é ver como o fascismo consegue agir de forma impensável, desordenada e caótica, quando sua ideia central é na realidade promover uma ordem autoritária.

O fascismo cresce a partir do momento em que a esquerda, consolidada teoricamente — e apenas em teoria — no poder, já não consegue mais estabelecer um governo estável e que consiga atrair as massas para seu discurso e suas políticas públicas. Depois de vermos um militante pró-intervenção atacar psicologicamente um imigrante haitiano no sul do Brasil, que trabalhava em um posto de gasolina, foi a vez de um policial civil pró-intervenção tomar uma atitude ainda mais drástica, que poderia ferir gravemente os civis que passavam por ali. Trata-se de uma escalada da violência política que a nossa geração não tinha visto até hoje.

Porém ambos — tanto o policial civil quanto o militante que agrediu o rapaz haitiano — não representam necessariamente a já tradicional “elite”, tão criticada pela esquerda e pelo governo petista. São dois homens de classe média, com trabalhos médios e renda média. Provavelmente passaram a adquirir uma noção política — mesmo que a mais mesquinha possível — durante o governo de Dilma Rousseff. Não devem possuir qualquer conhecimento teórico sobre o que é o marxismo ou o liberalismo, ou até mesmo do que se trata o fascismo. Mas são fascistas. Se radicalizaram na crença de que o governo petista tem como objetivo instalar uma política que “tire a ordem”, reverta conceitos e acabe com a estabilidade do tradicional, da “vida dos homens de bem”. Dito isto, não importa o quão irracional é a ideia central defendida por certos grupos de extrema-direita, eles se apoiam de tal forma que sua postura já não é mais pensada e equilibrada. Se torna impensada, e de certa forma burra. Se torna fascista.

Cartaz das brigadas internacionais contra os militares de Francisco Franco, durante a Guerra Civil na Espanha no fim dos anos 30. A mensagem contra o fascismo: “Se você tolerar isto, sua criança será a próxima”.

O filósofo esloveno Slavoj Zizek diz que a consequência da similaridade do programa econômico dos grandes partidos de direita e de esquerda e da dificuldade da esquerda radical dialogar com a classe trabalhadora é permitir que a principal oposição seja a direita social fascista, como ocorre na França. Ele resgata uma frase do Benjamin perfeita para a conjuntura atual: “por trás de todo fascismo, há uma revolução de esquerda fracassada”.

E é isso que ocorre no Brasil.

O fracasso do governo de Dilma Rousseff, que passa a adotar políticas econômicas de austeridade contra a classe trabalhadora — não tocando num dedo sequer dos banqueiros e das multinacionais — acaba se tornando a cereja do bolo para que salvadores da pátria e ideias sem qualquer base profunda acabem surgindo.

Claro, não basta culpar Dilma e o PT. É preciso culpar a nós mesmos. Assistimos as Jornadas de Junho em 2013, quando milhões saíram nas ruas defendendo bandeiras tradicionalmente defendidas pela esquerda, e o que fizemos? Nos dividimos. E na divisão, acabamos por nos auto-criminalizando: os governistas atacaram os autônomos e o Black Bloc; os partidários de esquerda radical atacaram o governo e os autônomos/Black Bloc; e os autônomos atacaram os “pelegos” — governo e sua base de militância — , os partidos de esquerda radical e uns aos outros. Na divisão surge a falta de resposta para o grito da rua. A revolução baseada em ideais de esquerda fracassa pela própria ineficácia da esquerda em responder demandas que, em teoria são o seu sonho, mas na prática são impossibilitadas pela própria desorganização interna.

Aberto esse espaço, ficam os órfãos. Os liberais já não conseguem mais atrair a partir de uma proposta historicamente marginalizada na América Latina, que é o Estado mínimo. Apesar de movimentos como o MBL, assumidamente liberais, colocar milhões nas ruas em 2015, não foi por sua ideologia e sim pela sua proposta central, que é o impeachment. Mesmo que surja o Partido Novo para promover de alguma forma na prática tal ideologia, teria de ser de forma disfarçada para conseguir o mínimo êxito eleitoral possível.

Surge então a extrema-direita. Os homens que não toleram o capital a partir do momento em que o capitalismo não tem preconceitos — desejam vender e gerar lucro com qualquer que seja a sua cor de pele, orientação sexual ou etnia. Os homens que não toleram a esquerda por questões históricas, por não acreditarem numa sociedade igualitária.

O alerta foi dado. E até o ano de 2018, tem muito chão pela frente. É hora de arrancar o fascismo, aquele elefante branco na sala.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on November 19, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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