Um mês após uma das mais violentas chacinas dos últimos anos no Brasil, poucas explicações e nenhuma justiça. A inércia da Secretaria de…

“Essa cultura de que o pobre é descartável”

“Essa cultura de que o pobre é descartável”Um mês após uma das mais violentas chacinas dos últimos anos no Brasil, poucas explicações e nenhuma justiça. A inércia da Secretaria de…


Foto: Gabriel Soares/Democratize

“Essa cultura de que o pobre é descartável”

Um mês após uma das mais violentas chacinas dos últimos anos no Brasil, poucas explicações e nenhuma justiça. A inércia da Secretaria de Segurança do estado, além da intervenção da Polícia Militar nas investigações, mostram o quanto a vida da classe mais pobre do país é descartável.

O primeiro trabalho do Democratize foi exatamente sobre a chacina ocorrida no dia 13 de agosto, na Zona Oeste da Grande São Paulo.

Três dias após o massacre, moradores, movimentos sociais e estudantis, acabaram por organizando uma manifestação no bairro do Jardim Munhoz, um dos locais onde a chacina ocorreu. Para o mesmo dia, estava programada a grande manifestação pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, na Avenida Paulista. Além do paralelo construído para mostrar o quão irracional parece ser a nossa noção de prioridade, o secretário de segurança Alexandre de Moraes, preferiu visitar suas tropas na Paulista do que dialogar com a comunidade em Osasco.

Mais bizarro que isso, foi tratado como celebridade pelos manifestantes. Do outro lado da ponte, dezenas de pessoas clamavam por justiça, apenas três dias após a chacina. De lá pra cá, quase nada mudou.

As investigações conduzidas pela Polícia Civil sofrem com a interferência da PM — que conta com o suporte e apoio do secretário, e também do próprio governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).

Um policial militar foi preso — o que muitos suspeitam que não passaria de um disfarce, um contra-tempo planejado pelos policiais para que o resto do bando criminoso não fosse descoberto pelas investigações. Enquanto isso, a mídia já não parece ser interessar mais pelo caso. Eis um grande problema dos meios de comunicação convencionais: eles fazem o seu papel, de denunciar e informar (boa parte das vezes se êxito), mas esquecem do principal — que é apurar, seguir a notícia, investigar, fazer jornalismo afinal.

O paparicado secretário de segurança do Estado, Alexandre de Moraes, na manifestação pelo impeachment de Dilma (16) — Foto: Wesley Passos/Democratize

Tendo em vista o esquecimento da mídia e principalmente a blindagem e distorção das investigações, o grupo Rio da Paz decidiu promover atos simbólicos, cobrando justiça sobre o caso da chacina.

O local para os atos não poderia ser mais apropriado: a Avenida Paulista, ponto de encontro dos atos pelo impeachment de Dilma neste ano. Ali, um mês atrás, estavam muitos manifestantes que nem faziam ideia de que uma chacina brutal havia sido cometida três dias antes. Outros, sabiam do ocorrido, mas acreditavam que entre os mortos só haviam bandidos. A outra parte, sabia do fato e esperava justiça — confiando na máquina de segurança conduzida pelo governador tucano. Ingenuidade, má vontade, ou simplesmente ignorância?

A periferia é quem mais tem sofrido nos últimos anos em São Paulo. Falamos sobre a periferia de fato. Os bairros mais afastados do Centro, onde transporte público consegue ser luxo. Essas famílias sim, possuem motivos apropriados para exigir justiça, pois são eles que acabam pagando pelos pecados alheio.

Trata-se, de fato, de uma cultura entre as classes mais favorecidas de que a vida do pobre é descartável. Se as vítimas da chacina morassem em Perdizes, e pertencessem a uma família nobre, ou até mesmo de classe média baixa, seria diferente. Se fossem policiais envolvidos no crime, não sobraria um. Afinal, trata-se da maior parte do eleitorado deste que governa o estado por mais de dez anos. E também, claro, trata-se de vidas que importam. Mas e a do pobre da periferia, não importa?

By Democratize on September 16, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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