Sem qualquer aviso prévio, conforme hoje exigido pela Polícia Militar, manifestantes fecharam a Avenida Paulista por 48 horas no mês de mar…

Em março, protesto pró-impeachment fechou a Paulista por 48 horas sem repressão

Em março, protesto pró-impeachment fechou a Paulista por 48 horas sem repressãoSem qualquer aviso prévio, conforme hoje exigido pela Polícia Militar, manifestantes fecharam a Avenida Paulista por 48 horas no mês de mar…


Em março, protesto pró-impeachment fechou a Paulista por 48 horas sem repressão

Foto: Fernando DK/Democratize

Sem qualquer aviso prévio, conforme hoje exigido pela Polícia Militar, manifestantes fecharam a Avenida Paulista por 48 horas no mês de março, após o vazamento do áudio entre Lula e Dilma Rousseff. Na época, o então secretário Alexandre de Moraes tentou “dialogar” com os organizadores, sendo expulso da Paulista. Por que a PM e a SSP costumam tratar de forma “diferenciada” tais grupos?


Por Francisco Toledo

Na última sexta-feira (02), uma manifestação convocada por mulheres negras contra o presidente Michel Temer foi impedida de prosseguir, após policiais afirmarem que “sem o devido aviso prévio não seria possível realizar essa manifestação”. Ou seja, segundo a Secretaria de Segurança Pública, é “inconstitucional” protestar sem avisar as autoridades da sua região.

Tal norma já havia sido aplicada anteriormente durante os protestos do Movimento Passe Livre, no mês de janeiro deste ano.

No dia 12 de janeiro, no segundo ato contra o aumento das passagens, a Polícia Militar não permitiu a continuidade da manifestação concentrada na Praça do Ciclista, utilizando o mesmo argumento. O resultado foi uma brutal repressão que resultou em mais de 20 feridos e vários presos.

Mas e quando os protestos são convocados sem aviso prévio por movimentos de direita? Qual o procedimento feito pela Polícia Militar e pela Secretaria de Segurança Pública?

No dia 16 de março, horas após o vazamento do áudio de uma conversa entre o Lula e a então presidente Dilma Rousseff, manifestantes convocaram um protesto através das redes sociais na Avenida Paulista. O ato, que não era encabeçado por qualquer movimento organizado, não foi avisado para a PM ou para a SSP.

Na realidade, a verdadeira “convocação” surgiu dos meios de comunicação. Às 19 horas, poucas centenas de pessoas estavam em frente ao prédio da Fiesp, trancando o trânsito da avenida. Após chamadas ao vivo na Globo e na Globonews, o número aumentou para 10 mil pessoas. Os movimentos organizados, como Vem pra Rua e Movimento Brasil Livre, passaram a compor o grupo.

O policiamento era praticamente inexistente neste dia. Ao contrário das manifestações espontâneas convocadas pelas redes sociais, não vimos qualquer tentativa de reprimir a manifestação com o objetivo de dispersar o ato e liberar o trânsito na região — que por muitas vezes em 2013 foi considerado algo necessário, já que (segundo o próprio governo do estado) existem muitos hospitais na região.

Cerca de 24 horas depois, já no dia 17, a avenida continuava trancada pelos manifestantes.

O empresário e presidente da Fiesp, Paulo Skaf, fazia questão de manter os manifestantes em frente ao prédio da federação, cedendo até mesmo alimentação para os presentes.

A partir dai, pode surgir o argumento do “vandalismo”.

Em teoria, não houve qualquer depredação ou violência contra o patrimônio público ou privado. Mas aconteceu coisa pior. Agressões físicas e ameaças contra pessoas que andavam pela avenida se tornou algo rotineiro. São vários os casos registrados de manifestantes atacando pessoas, simplesmente por discordarem de sua visão política — incluindo um jovem secundarista, que trabalhava na região e foi perseguido por dezenas de manifestantes enfurecidos.

Foto: Felipe Malavasi/Democratize

Mas isso não foi o suficiente para a polícia tentar dispersar a manifestação/ocupação.

O então secretário Alexandre de Moraes, idealizador do que chama de “política constitucional” nas manifestações, foi ao local tentar dialogar com os organizadores. Acabou sendo expulso.

Foi xingado, e até mesmo ameaçado. Mas não, não houve qualquer repressão ou tentativa de conter a violência por parte dos manifestantes. Também não havia editoriais por parte dos grandes meios de comunicação do velho jornalismo, criticando a Paulista fechada por causa de “200 gatos pingados”, ou a violência dos manifestantes.

Apenas no dia seguinte, a PM foi praticamente obrigada a dispersar o grupo — que no dia 18, eram apenas dezenas de pessoas trancando as duas vias da Paulista. A ação ocorreu com jatos de água. E só. Não teve ameaça, não teve prisão, não teve ninguém ferido.

E isso só aconteceu porque naquele dia 18 haveria uma manifestação contra o impeachment de Dilma Rousseff, previamente avisada pelas organizações sindicais e movimentos sociais na semana anterior.

Com isso vem o questionamento: qual o limite de “partidarização” de uma instituição de segurança pública como a Polícia Militar?

Vimos recentemente mais um caso grave nesse sentido. Dezenas de jovens foram presos no domingo (4). A acusação? Portavam objetos que segundo a polícia seriam utilizados para casos de vandalismo no protesto daquele dia. Ou seja, sem qualquer flagrante, policiais “adivinharam” o que aqueles manifestantes fariam.

O mesmo procedimento não foi adotado na semana passada, quando acampados em frente ao prédio da Fiesp agrediram manifestantes anti-Temer na Avenida Paulista, com pedaços de madeira que eram armazenados dentro das próprias barracas. Fizemos o flagrante da ação e registramos. No dia seguinte, terça-feira, mostramos para os policiais presentes na avenida. Eles inspecionaram as barracas, encontraram um verdadeiro arsenal de armas brancas, que foram recolhidas. Porém não houve qualquer prisão. “Não teve flagrante”, disse um dos policiais.

O Comandante do CPC, coronel Dimitrios Fyskatoris, disse durante coletiva de imprensa nesta segunda-feira (5) que os acampados foram conduzidos para a Polícia Judiciária. Porém, não houve qualquer apresentação de documento que comprove tal ação por parte da polícia. Naquele dia, pelo menos, os acampados não foram conduzidos para nenhuma delegacia responsável — continuando acampados em frente ao prédio da Fiesp até hoje.

Afinal de contas, por que o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) protege manifestações que possuem individuos violentos, e persegue outros protestos utilizando a máquina pública de repressão em benefício da ideologia de seu partido político?

Essa é a cara da democracia?


Francisco Toledo é co-fundador e escritor pela Agência Democratize em São Paulo

By Democratize on September 6, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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