Por algum motivo, o portal UOL abriu espaço para o general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, que escreveu nesta quarta-feira (01…

Em coluna no UOL, general nega totalitarismo da Ditadura Militar e chama PT de “comunista”

Em coluna no UOL, general nega totalitarismo da Ditadura Militar e chama PT de “comunista”Por algum motivo, o portal UOL abriu espaço para o general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, que escreveu nesta quarta-feira (01…


Em coluna no UOL, general nega totalitarismo da Ditadura Militar e chama PT de “comunista”

Foto: Reprodução/Google

Por algum motivo, o portal UOL abriu espaço para o general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, que escreveu nesta quarta-feira (01) afirmando ter “acabado o fosso ideológico que sepava governo e Forças Armadas”. O general ainda acusou o Partido dos Trabalhadores de querer “implantar uma ditadura comunista” no Brasil, e negou o totalitarismo da ditadura nos anos 60 e 70.


Algumas vezes, a mídia tradicional parece ir além daquilo pelo qual ela é criticada.

Desta vez, foi o portal UOL que deu uma bela bola fora.

Em “Opinião”, o site de notícias abriu espaço para o general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva.

Até ai tudo bem. Não existe o menor problema de militares colocarem a sua opinião em prática. Afinal, vivemos em um regime democrático com uma considerável liberdade de expressão e de imprensa.

O problema começa quando o general da reserva decide chamar a experiência da Ditadura Militar (1964–1985) de “não-totalitária”.

Começando seu artigo, o general cita a Constituição Federal em sua Art. 142: “as Forças Armadas (FA) são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República”.

O general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, na Câmara dos Deputados

A partir dai ele começa a exaltar os valores da ordem e da moralidade, afirmando que hierarquia e disciplina “são princípios essenciais”.

A coisa começa a ficar realmente feia no texto quando ele cita a criação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1922: “A impatriótica submissão a país estrangeiro e à ideologia socialista antidemocrática incompatibilizou o PCB com as FA”.

Mas piora: “Hoje, o PT, os partidos aliados e suas lideranças são declaradamente socialistas, internacionalistas e filiados ao Foro de São paulo, organização internacional que lidera a implantação desse regime na América Latina”.

O militar peca na falta de fontes e principalmente na inexistência de informações reais na sua escrita — como dizer que o PT é um partido com objetivos comunistas se durante sua gestão de 12 anos quem mais lucrou foi justamente a iniciativa privada, lideradas sob o front de bancos e multinacionais? Mais lamentável ainda, para uma pessoa que é general das Forças Armadas, é desconhecer o verdadeiro significado do Foro de São Paulo, que não passa de uma simples instituição de esquerda — mas não necessariamente comunista — , assim como outras entidades estrangeiras, como a Students for Liberty, que de caráter liberal, propaga e financia movimentos e políticos de direita ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

Mas o mais lamentável ainda nem começou.

“ E o regime militar? Questionariam alguns. Era, sim, um regime de exceção, como reconheciam os presidentes militares, que sempre manifestaram o propósito de redemocratização. Autoritário, por limitar liberdades democráticas, mas não totalitário, que as eliminaria. A redemocratização uniu a nação e foi conduzida pelo próprio governo militar de forma gradual e sem retrocessos, após neutralizar a esquerda revolucionária que buscava implantar a ditadura socialista como a de Cuba e China, ainda hoje totalitárias.” — escreveu o general da reserva.

Aqui, Luiz Eduardo comete o seu principal pecado.

Ele afirma que a experiência da ditadura militar no Brasil não foi totalitário, pois apenas limitou as liberdades democráticos, mas não as eliminou. Praticando a desinformação massiva, o general ainda defende que a redemocratização do país foi “guiada pelos próprios militares” — como se fosse algo feito na simples boa vontade, por determinação dos próprios generais. Na realidade foi o oposto. A pressão da sociedade civil com movimentos legítimos e pacíficos conseguiu anistiar os exilados, e começar um processo nas ruas por eleições diretas, pressionando a classe política e militar. Além do mais, nos anos 80, a fragilidade das ditaduras militares na América Latina já vivia seu momento mais crítico, quando países democráticos do Ocidente começavam a se posicionar com mais clareza contra esses regimes autoritários e totalitários.

O general ignora a participação da sociedade civil na desconstrução daquilo que os militares colocaram como imposição: um regime militar anti-democrático, que perseguiu, prendeu, torturou e assassinou milhares de pessoas ao redor do país.

A nossa democracia, fragilizada, é desta forma principalmente por conta da sociedade civil não ter buscado justiça contra os ditadores e torturadores — como foi o caso da Argentina, Uruguai e Chile.

Diante de um cenário político caótico pelo qual o Brasil vive, um portal de grande alcance como o UOL publicar tal texto é uma afronta à democracia brasileira e principalmente com a nossa história, tão frágil e questionada por revisionistas que tentam ao máximo induzir na sociedade civil de que a ditadura militar foi “necessária”.

O deputado Eduardo Bolsonaro e o Padre José Eduardo, em seminário na Comissão de Seguridade Social e Família para criminalizar o pensamento marxista | Foto: Lucio Bernardo Junior

Com um impeachment completamente questionável no sentido legal contra uma presidente petista, a situação continua piorando.

Mais recentemente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC), filho de Jair Bolsonaro — defendor do regime militar — , apresentou ao público seu Projeto de Lei que visa a proibição dos partidos comunistas e alinhados ao marxismo no Brasil, além de colocar na clandestinidade os símbolos da ideologia, como é o caso da foice e do martelo.

O projeto, que dificilmente deve ser aprovado no Congresso, deve ser barrado de qualquer forma no Supremo Tribunal Federal (o STF), por conter características anticonstitucionais e anti-democráticas, que limitam a ideologia e o pensamento em uma sociedade livre.

Porém, já podemos considerar ambos os fatos como sinais de alerta.

A imprensa, em momento algum, pode colaborar com isso.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on June 1, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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