“Se estivesse em casa estudando, nada disso teria acontecido”. “Se o policial atirou é porque ele estava fazendo alguma coisa errada”. Esse…

Eles batem panela mas aplaudem a morte de crianças nas mãos da PM e GCM

Eles batem panela mas aplaudem a morte de crianças nas mãos da PM e GCM“Se estivesse em casa estudando, nada disso teria acontecido”. “Se o policial atirou é porque ele estava fazendo alguma coisa errada”. Esse…


Eles batem panela mas aplaudem a morte de crianças nas mãos da PM e GCM

Foto: Alice V/Democratize

“Se estivesse em casa estudando, nada disso teria acontecido”. “Se o policial atirou é porque ele estava fazendo alguma coisa errada”. Esse é o tipo de comentário que encontramos nas redes sociais em notícias relacionadas ao caso do garoto Waldik, assassinado por um guarda municipal em São Paulo. Ele tinha apenas 11 anos.


Quando uma onda de assassinatos contra negros nos Estados Unidos ocorreu a partir de 2014, com ações violentas da polícia norte-americana, a população não se calou. Movimentos de direitos humanos se posicionaram, e a sociedade civil entendeu o recado dado nos protestos em Ferguson e Baltimore.

Não por acaso, a violência contra a população negra e periférica é um dos assuntos principais nas eleições presidenciais dos Estados Unidos neste ano. Os dois pré-candidatos do Partido Democrata, Bernie Sanders e Hillary Clinton, focaram no tema para buscar apoio da comunidade negra, cada vez mais isolada e vítima das desigualdades produzidas pelo sistema econômico daquele país.

É uma realidade pouco diferente da que encontramos aqui no Brasil.

Mas, talvez a diferença primordial, seja a reação da população como um todo, além da própria classe política.

Reprodução/Facebook

Enquanto nos Estados Unidos esse tema se tornou manchete e pauta principal em uma eleição presidencial, por aqui podemos chegar de rotina. Mas uma rotina daquelas que não costumam gerar debate, e sim preconceitos.

A morte de jovens negros e da periferia são assunto na mídia brasileira, mas em telejornais sensacionalistas, baseados na lógica da criminalização dessa parcela da população. Uma espécie de amor descontrolado e irracional com a instituição militar e policial, e um tom de agressividade e péssimo jornalismo fazem parte dessa composição. O brasileiro toma uma bela dose de sensacionalismo todos os dias, nos finais de tarde, com programas similares em canais da rede aberta.

Aqui, se a polícia atira contra um jovem negro, é porque ele estava fazendo alguma coisa errada. Ponto final.

Não existe espaço para questionamentos e muito menos para debater o que gera esse tipo de criminalidade em comunidades mais pobres. É claro. A classe política não quer perder tempo debatendo um tabu, e a mídia não quer abrir mão do seu ibope. Por que questionar e debater se podemos exibir em tempo real o assassinato de um jovem negro de 16 anos nas mãos de um policial?

Nas últimas eleições presidenciais, a desmilitarização da polícia e a violência contra a população da periferia passou longe dos debates. Ninguém quer perder eleitor, e consequentemente, ninguém se mostra disposto a educar e gerar uma discussão positiva sobre o tema. “Deixemos como está”, dizem.

A própria população brasileira não se demonstra disposta a dialogar sobre o assunto.

Muito pelo contrário. A mesma classe média que batia panela contra a corrupção, não entende que o sistema que gera esse tipo de comportamento corrupto na classe política é o mesmo que sustenta a pobreza dos setores mais periféricos da sociedade, principalmente da população negra. E por não entenderem isso, acabam aplaudindo a ação dos policiais, e da própria Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, que atirou contra um jovem menino de 11 anos nos últimos dias, o Waldik.

Dizem:

“Se estivesse em casa estudando, nada disso teria acontecido”;

Ou “A culpa é da mãe e do pai que não educam”;

Indo disso pra pior: “Vitimismo esquerdista, o policial deveria receber uma medalha. Um bandido a menos no mundo”.

Esses comentários não foram inventados. Foram retirados de postagens nas redes sociais, em canais de mídia tradicional que reportaram sobre o tema. São pessoas que não entendem a realidade da periferia e da população negra, e consequentemente, não fazem ideia do que estão falando. Repetem aquilo que lhes foi ensinado em noticiários sensacionalistas, ou até mesmo na fala de políticos oportunistas que tentam ganhar voto com a idiotização do brasileiro.

A reprodução do discurso de ódio não é uma exclusividade brasileira. A possibilidade de Donald Trump ser o novo presidente dos Estados Unidos é prova disso.

Mas o brasileiro precisa fazer uma auto-crítica. Somos um povo que se mostra indignado com a roubalheira, com o terrorismo, com a fome. Moradores de rua morreram após ações da mesma GCM, e o que mais existiu foi solidariedade. Pessoas doando cobertores, denunciando a prefeitura de São Paulo. O mesmo sistema que deixa o povo de rua passar frio no inverno, é quem cria as condições de vida desfavoráveis para essas crianças da periferia.

Quando ambos os lados apertam o gatilho, nós também apertamos.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador da Agência Democratize

By Democratize on June 29, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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