Ironias da vida: seu objetivo político desde o começo foi instigar a queda de uma presidente mulher. Mas no final das contas, o chamado…

Ele queria derrubar uma mulher, mas elas juntas o derrubaram

Ele queria derrubar uma mulher, mas elas juntas o derrubaramIronias da vida: seu objetivo político desde o começo foi instigar a queda de uma presidente mulher. Mas no final das contas, o chamado…


Ele queria derrubar uma mulher, mas elas juntas o derrubaram

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Ironias da vida: seu objetivo político desde o começo foi instigar a queda de uma presidente mulher. Mas no final das contas, o chamado “golpe fatal” envolvendo a sua própria queda partiu de dezenas de milhares de mulheres, que ocupando as ruas na última semana, mostraram ao Brasil inteiro que a insatisfação da população com o presidente da Câmara dos Deputados não tem mais como aguentar.

Eduardo Cunha pode ser o que é graças ao seu criador. E quando falo de criador não falo de Deus, de jeito nenhum. Seu criador, seu pai, seu Santo Divino é o próprio Partido dos Trabalhadores. Afinal de contas, um homem como ele só poderia estar onde está graças às alianças políticas em prol da “governabilidade” defendidas desde o governo Lula. Cunha é o que é graças ao seu criador, mas achou que poderia ser ainda mais. Então, Cunha pecou.

Pecou quando começou a se achar invencível. Conseguiu, graças a instabilidade política gerada pela própria base a qual fazia parte, se eleger Presidente da Câmara dos Deputados em 2015. A partir dai, observando as ondas de fora, que gritavam contra o governo, resolveu atacar seu próprio criador. Isso só aconteceu, também, por alguns fatores chave, como por exemplo o fato de que, pelo PT e pelo governo, ali seria o nível máximo onde ele conseguiria estar. Quer ser presidente da Câmara? Ok, seja. Mas sua carreira política vai até ai, nada mais. Cunha foi ganancioso, egocêntrico e acreditou demais na ideia de que a insatisfação com o PT não significa propriamente insatisfação com a classe política. Errou feio.

Bastou o seu manto cair e as acusações surgirem para que então Cunha percebesse que, afinal de contas, seu criador estava certo. Ninguém em uma guerra é a prova de balas, da mesma forma como ninguém em Brasília é a prova de acusações. Cinco milhões na Suíça, desvio de verbas públicas, participação em esquemas de corrupção na Petrobrás, e por ai vai. A cria logo percebeu que, então, estava na hora de voltar correndo para os braços do seu criador. Pedir perdão. Não dá mais.

Cunha se esforçou tanto para se tornar o mártir da oposição de direita, aquela insatisfeita seletivamente, que se esqueceu que a oposição de direita não significa propriamente a oposição ao governo Dilma, a começar pela seletividade. O brasileiro comum, trabalhador que paga impostos, odeia ligar a TV e ouvir sobre corrupção. Nos últimos 12 anos ele teve uma verdadeira overdose dessa palavra nos telejornais dos grandes meios de comunicação. Claro que, com tanta informação assim, ele acabou associando tal palavra com uma sigla que a seguia em quase todas as oportunidades: PT.

Mas a oposição de direita peca, assim como Cunha pecou, em achar que o brasileiro comum é burro. Cunha acreditava que sairia impune por ser o líder dos indignados, o homem capaz de quebrar o maior esquema de corrupção “da história do nosso país”, dizem eles. Mesmo se aparecessem acusações, tais seriam rechaçadas e a população correria em sua defesa. Enganou-se. Bastaram algumas notícias que em poucos dias sua imagem virou pó. Para sua surpresa, aquela oposição de direita que o tratava como herói, o apunhalou pelas costas. A ganância destruiu o pecador.

E tudo que ele queria, era derrubar uma mulher.

Uma mulher que, de fato, tem dado motivo para tanta indignação por parte de mais da metade da população brasileira. Corrupção massiva indefensável, alianças da pior espécie com políticos do pior nível, políticas de cunho conservador e privatizante, ataques contra a classe trabalhadora, os mais pobres, cortes na educação, na carteira de trabalho, nos empregos. Mas quem disse que Cunha se levantou contra essa mulher por causa disso?

Cunha se levantou contra ela por achar que Dilma, representando a imagem de sua criadora, não fez o suficiente por ele. Ignorou o fato de que, bem na realidade, Dilma fez muita coisa por pessoas como ele nesses cinco anos, e quase nada por pessoas como nós, simples cidadãos.

As mulheres que derrubaram Cunha | Foto: Gabriel Soares/Democratize

E nós, cidadãos comuns, nos sentimos representados pelas dezenas de milhares de mulheres que ocuparam as ruas, defendendo suas pautas contra um projeto de lei assinado por, adivinha quem? O próprio Eduardo Cunha. Um projeto de lei tão conservador e nefasto que, só poderia partir de alguém que fizesse parte da base de um governo como esse. Ou que pelo menos já fez parte…

De qualquer forma, foi um alívio assistir essas mulheres corajosas mostrando sua indignação, e o alívio foi ainda maior quando vi com meus próprios olhos as pessoas respondendo positivamente aos seus gritos contra Eduardo Cunha. Foi ali que senti e vi o momento da queda da cria, que tentava derrubar seu criador.

É uma ironia ou não? Eduardo Cunha queria tanto derrubar uma mulher, representada na imagem de Dilma Rousseff, que no final das contas ele acabou caindo nas mãos de dezenas de milhares de mulheres, como um verdadeiro “golpe final simbólico”, um fatality.

É o fim de jogo para a cria. Ele traiu, pecou e caiu. Se as coisas continuarem do jeito que estão, capaz que a criadora também caia. Ela mentiu e traiu. Os dois podem cair, mas o jogo nunca vai terminar. E dessa troca de crias e criadores nós já estamos cansados. Mas isso, já é outro assunto…


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on November 3, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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