O prédio ocupado está em uma região bastante valorizada, no centro. Foto: Francisco Toledo/ Democratize.

E se seus vizinhos fossem moradores de um prédio ocupado?

Você conhece seus vizinhos? É capaz de  julgar da janela de sua casa se eles possuem boa índole ou oferecem perigo à sua região? E se eles forem do movimento sem-teto, você vai se sentir tranquilo? A Agência Democratize caminhou pela vizinhança do prédio ocupado recentemente pela FLM, na Avenida 9 de Julho, para saber as impressões dos moradores da região sobre a volta das famílias ao local, que já foi ocupado pelo mesmo movimento, no final da década de 90.

Na madrugada do dia 31 de outubro, a Frente de Luta por Moradia (FLM) ocupou um antigo prédio do INSS, localizado na Avenida 9 de Julho e abandonado há 19 anos. Famílias do mesmo movimento sem-teto já viveram no prédio outras vezes; o período mais longo foi em 1997, quando permaneceram no local por oito anos. No entanto, durante a gestão de Marta Suplicy, saíram com a promessa de que o edifício se tornaria moradia popular no ano seguinte. Mas, quase duas décadas depois, pouco se avançou nas negociações e o prédio (que no período em que foi ocupado pela FLM estava em boas condições) agora se encontra depredado, oferecendo riscos de saúde e segurança à população do entorno.

Entre os motivos do edifício de 16 andares estar em condições degradantes estão as intempéries do tempo em que ficou abandonado e sem função social, assim como grupos marginalizados que passaram pelo local depois que a FLM foi retirada. Por este motivo, a Agência Democratize andou pela vizinhança, para saber o que os moradores de prédios vizinhos pensam sobre a volta do movimento ao imóvel.

O vizinho delegado

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo
“Me aproximei dos meninos e isto me fez criar um vínculo maior com o movimento. Querendo ou não, aquela é a casa deles.” Foto: Francisco Toledo/ Democratize.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo. Atualmente, lidera o Conselho Editorial da Revista Artigo 5º. Mudou-se para São Paulo em 1977 e ficou até 82, quando morava na 9 de Julho, próximo ao prédio do INSS, que estava em funcionamento normal. Dois anos depois, voltou à capital paulista e, então, morou por mais de 30 anos na Rua Martins Fontes, com varanda cuja sala e quarto davam visibilidade ao antigo prédio do INSS. Lá, acompanhou a degradação do edifício por abandono. E viu, também, a ocupação da FLM desde os seus primeiros movimentos na década de 90, tornando-se um apoiador.

Durante sua aproximação com a ocupação, passou a colaborar com as crianças que viviam no prédio, sendo o responsável pelo primeiro emprego de cinco garotos, que passaram a fazer a distribuição das revistas do Sindicato de Delegados da Polícia Federal da época. “Quando vi aquelas crianças na zona de risco, onde, se passar um padre, leva, se passar um pastor, leva, se passar um traficante, leva… eu resolvi levar. Me aproximei dos meninos e isto me fez criar um vínculo maior com o movimento. Querendo ou  não, aquela é a casa deles”, relembra.

Ao todo, há 39 crianças morando na ocupação, atualmente. Todas frequentam a escola regularmente. Foto: Francisco Toledo/ Democratize
Ao todo, há 39 crianças morando na ocupação atualmente. Todas frequentam a escola regularmente. Foto: Francisco Toledo/ Democratize

O ex-delegado salienta que não integra o movimento sem-teto, mas isto não o impede de apoiá-lo de forma objetiva. “Acho um cúmulo ver aquele prédio naquelas condições, um prédio que poderia ter outras destinações, estar lá entregue. Um imóvel desocupado e nessas condições não é só foco de dengue, ele pode ser foco de tudo que você possa imaginar. Porque da mesma forma que pode ser ocupado por um movimento sério, como este que está agora, você também pode ter uma ocupação feita por movimentos marginais, existem muitos movimentos movimento sem-teto marginais. Estes são espaços em que a saúde é um ponto de muitos: dengue, lixo, rato, mas também uma questão de ameaça à segurança pública”, reforça.

Ainda para Dr. Armando, que agora vive em um prédio próximo ao local, além dos entraves burocráticos, a ocupação possui um inimigo invisível, que é o elitismo de quem tem interesses na região e, por isto, causa resistência social e política, dificultando a chegada dos novos vizinhos. “Essa vizinhança não é simpática à ideia. Quem comprou aquele terreno do lado, que fez aquela construção, não tem o menor interesse de ter como vizinhança aquelas pessoas da ocupação. Você também tem próximo, por exemplo, o grupo Mancini, que se apropriou de toda a rua, andou pintando, fazendo jardins para todo lado, conseguiram até deixar mão e contra-mão para atender seus interesses durante um tempo. Tem, ainda, um hotel próximo e outros prédios construídos, na vizinhança, ou outros, como na rua Avanhandava, que foram reformados e estão prontos para venda. Ou seja, é um inimigo invisível, uma grande corporadora que possa estar de olho ali, obviamente vai criar entraves pelos meios políticos e oficiais”, acredita.

A síndica indignada

Maria José Assunção Cunha mora no prédio vizinho há 45 anos e chegou a trabalhar no edifício do INSS, antes dele ser abandonado
Maria José Assunção Cunha mora no prédio vizinho há 45 anos e chegou a trabalhar no edifício do INSS, antes dele ser abandonado. Foto: Daniel Fuentes/ Democratize

Não raras vezes, o desconhecimento de quem são as pessoas que integram as ocupações da FLM causa medo na vizinhança, até porque, reconhece-se que nem todos os movimentos de moradia são éticos e organizados. No entanto, até mesmo quem não apoia o movimento, reclama dos problemas que o edifício abandonado causa para a região.

Maria José Assunção Cunha é um exemplo. Síndica do prédio vizinho, ela também tem longa história de vida no local.  Mora no mesmo edifício há 45 anos e chegou a trabalhar no prédio do INSS como funcionária do Ministério da Saúde, que utilizava alguns dos andares. Relembra o quão luxuosa era a construção, que acima do sexto andar, servia também de moradia para os funcionários.

Mas o glamour do prédio construído em art decó na década de 40 já não existe mais. Restaram poças com água, focos de dengue, baratas, ratos, cupins e sérios riscos à saúde da vizinhança, que também enfrenta outros problemas, como as infiltrações causadas pelo imóvel desabitado. “Estamos com um vazamento do 9º até o 3º andar, porque o prédio da Previdência cedeu e ficou um vão, e nesse vão, quando chove, enche de água. Mas, fomos proibidos de entrar lá para consertar o nosso prédio”, afirma.

A síndica comenta que tem enviado cartas oficiais ao Governo Federal, entre outras medidas burocráticas, mas  nenhuma resposta é dada. Na realidade, uma tela de proteção foi colocada na fachada do prédio que fica na 9 de Julho, mas, para Maria José, a atitude serviu apenas para “fingir” que começariam alguma reforma. “Há um ano atrás, pedi ao INSS para retirar uma árvore, porque se ela cair, por causa de sua raiz podre e sua determinada altura, vai arrebentar a parte lateral dos fundos. O patrimônio tomou alguma providência? Nenhuma, nenhuma”, conta com indignação.

Ela também diz que, há alguns anos atrás, uma faculdade do Paraná tentou comprar o prédio, mas como o valor era abaixo do que o INSS queria, a negociação não se concretizou. Agora, restam as traças e os riscos para a saúde e segurança dos moradores do prédio ao lado, que está sob sua responsabilidade. “O patrimônio do INSS é relapso, irresponsável e não se interessa em tomar alguma providência. É foco de dengue, é poço com água, é rato, percevejo, animais que prejudicam a saúde da população”, complementa.

Mas Maria José escorrega no juízo de valor que faz de seus “novos” vizinhos. Mesmo sofrendo com o abandono do prédio que dá vista para a janela de sua casa e tendo inúmeras dores de cabeça no imóvel com quase 20 andares que administra, para ela, a maioria dos que “tomam” os prédios tem casa na periferia para alugar e não é necessário que o local se torne moradia popular para este movimento. “Não são pessoas politizadas, eles não sabem o limite de horário, das 10h às 22h, a gente acompanha da janela e vê, ninguém está de sandália velha, roupa rasgada”, afirma. “Mas não pode falar favela, tem que falar comunidade”, conta com riso de canto. “Eu sou irônica porque tem que ser, não aguento mais essa raça”, complementa.

A formação cidadã e política é uma das prioridades da Frente de Luta por Moradia. Na foto, crianças dentro da ocupação da 9 de Julho, descobrindo onde ficam os países em que seus companheiros da casa “nova” vieram refugiados. Foto: Francisco Toledo/ Democratize.
A formação política e cidadã é uma das prioridades da Frente de Luta por Moradia. Na foto, crianças dentro da ocupação da 9 de Julho, descobrindo onde ficam os países em que seus companheiros da casa nova vieram refugiados. Foto: Francisco Toledo/ Democratize.

A vizinha sem medo

Carmen Ferreira é uma das lideranças da Frente de Luta por moradia. Morou de 97 a 2003 no prédio do INSS, na primeira vez em que o movimento ocupou o local. Foto: Fernando DK/ Democratize.
Carmen Ferreira é uma das lideranças da FLM. Morou de 97 a 2003 no prédio do INSS, na primeira vez em que o movimento ocupou o local. Foto: Fernando DK/ Democratize.

Desde que foi ocupado há 10 dias, o prédio que não está cumprindo a sua destinação social, prevista na Constituição Federal, já começou a receber seus primeiros reparos, feitos pelos próprios moradores. Toneladas de lixo já foram retiradas e todas as terças e quintas-feiras, um caminhão tem retirado os entulhos; o veículo passará até que o imóvel esteja completamente limpo.

Por isto, para Carmen Ferreira, que morou de 97 a 2003 no local, não é um prédio bonito que faz a índole e o caráter da pessoa, mas sua capacidade de organizar. “Temos horário de entrada e saída e não entra qualquer um, para entrar na ocupação todas as pessoas tem seus nomes cadastrados. Som alto não é permitido e barulho somente até às 22h, que é o horário permitido por lei. Carmen salienta, ainda, que quando moravam no prédio, ele estava melhor preservado. “O prédio era limpo, organizado, não era assim, agora isso aqui está todo abandonado”, relembra.

Quando a Frente de Luta por Moradia ocupa um prédio, ele ganha função social, como moradia para crianças, jovens, adultos e idosos, entre brasileiros, imigrantes e refugiados. São feitos mutirões de limpeza, pintura e elétrica, além de outras atividades de inclusão social como oficinas de teatro, capoeira, fotografia, audiovisual, leitura e escrita, e comunicação.

Carmen salienta a importância que os moradores tenham um comportamento exemplar na ocupação e pontua que, há anos, a vizinhança os discrimina, ainda que os verdadeiros marginais sejam os governantes, que não cumprem seu papel. “Não queremos nada de graça. O pai de família, assalariado, que ganha R$ 940,00, se tem que pagar aluguel não come, não tem condições de vestir, de comprar um livro para seu filho. Se ele deixa de pagar aluguel, a vida dele muda, ele se transforma, a qualidade de vida é notória. Quando deixa de pagar aluguel, o filho, que muitas vezes só come a merenda da escola, passa a comer três vezes por dia. Deixou de pagar aluguel, economiza, pode pagar educação para seu filho, saúde para seu filho.”

Para finalizar, Carmen faz um chamado amistoso aos moradores do bairro. “Vizinhos, não tenham medo de nós, somos todos trabalhadores que tiveram a coragem de denunciar a falta de política pública. E deixo aqui um convite, venha nos conhecer, porque aqui está a sua empregada, faxineira, a pessoa que lhe serve, manicure, cabeleireira, enfermeira, motorista de táxi, então somos iguais, as mesmas pessoas que lidam com vocês no dia a dia, só que tivemos a coragem de denunciar a falta de política pública”, finaliza.

Negão: o vizinho famoso

Negão é sucesso da ocupação, querido por moradores e vizinhos das redondezas. Foto: Victor Amatucci/ Democratize.
Negão na primeira noite em que o prédio foi ocupado. O cachorro é sucesso na ocupação, querido por moradores e vizinhos das redondezas. Foto: Victor Amatucci/ Democratize.

Durante a reportagem feita por Democratize, tanto na madrugada da ocupação como nos dias seguintes, notamos a presença de um cão que parecia bem à vontade, ao lado das pessoas que frequentavam o prédio recém ocupado. Mais tarde, a explicação para a simpatia mútua foi dada durante uma assembleia convocada pelo movimento, para manter organizadas as tarefas dos moradores. “Quando a gente entra, a gente resiste. Até o Negão, que tá com a gente desde o começo sabe disso”, comentou um dos integrantes da reunião.

Negão é o cachorro que tem sido cuidado pelos moradores da ocupação. Ele também morou no edifício nos anos 2000, junto com o mesmo movimento de moradia, por isso já é conhecido por alguns. Mas, como as famílias foram colocadas para fora em 2003, não puderam mais mantê-lo. A melhor opção foi deixar Negão no local, sendo cuidado pelos seguranças do prédio contratados pelo INSS.

Às vezes desconfiado, às vezes mais amoroso, ele é a alegria especialmente das crianças. O movimento sem-teto tem dado ração adequada e na mesma tarde em que Democratize estava no local, um “amigo de Negão”, ou Tod, como ele também o chamava, bateu à porta da ocupação, para ver em quais condições o cão estava. “Eu cuido dele desde 2004. Me ligaram avisando que a empresa de segurança estava mudando e que colocariam ele para fora. Como eu gosto desses bichinhos assumi. Aí vim para cá, né Negão?”

O misterioso cuidador também comentou estar tranquilo com a saúde de Negão e confirmou que ele está com todas as vacinas em dia. “Fiquei tão feliz de saber que você está bem cuidado! Está até mais feliz. Olha para ele, é muito amor, né?”, sorri e conversa com o bichano, ao sair da ocupação.

Posts Relacionados

On Top
error: Para reproduzir o conteúdo do Democratize, entre em contato pelo formulário.
%d blogueiros gostam disto: