Impeachment e ajuste fiscal? Não. Chegou a hora da sociedade brasileira entender que não existirá uma mudança drástica e necessária na…

Duas sugestões para sair da crise pensando fora da caixinha

Duas sugestões para sair da crise pensando fora da caixinhaImpeachment e ajuste fiscal? Não. Chegou a hora da sociedade brasileira entender que não existirá uma mudança drástica e necessária na…


Duas sugestões para sair da crise pensando fora da caixinha

Foto: Agência Senado

Impeachment e ajuste fiscal? Não. Chegou a hora da sociedade brasileira entender que não existirá uma mudança drástica e necessária na economia e política se continuarmos pensando moderadamente. Para conseguirmos tornar a política mais democrática e a economia mais igualitária, são outros dois passos que devemos tomar.

É completamente compreensível quando vemos um trabalhador de classe C apoiando o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) — e amigos, isso existe, parem com ilusões partidárias e comecem a enxergar a realidade, por favor.

Afinal de contas, em menos de um ano o governo federal fez cortes radicais no bolso do trabalhador, apoiando e legitimando o ajuste fiscal, o pacote de ampliação da terceirização, cortes em programas sociais como Minha Casa Minha Vida, mexendo em direitos como o seguro desemprego — e até citando a possibilidade de modificar aspectos importantes do Bolsa Família, fato que acabou não ocorrendo.

Adicione tudo isso ao fato de que o cidadão comum é bombardeado incansavelmente com notícias envolvendo corrupção e Brasília, seja no Planalto ou no Congresso. Dinheiro na cueca, contas na Suíça, pedaladas fiscais, desvios na Petrobrás, o caso jamais solucionado de cartéis no metrô e CPTM em São Paulo, entre outros. E pior, o trabalhador ainda é obrigado a ligar a TV e assistir no telejornal que bancos como Bradesco e Itaú obtiveram lucros recorde, mesmo em época de crise.

Ou seja, fica a impressão de que todos estão saindo ganhando, menos ele. Como não ficar, com o perdão da palavra, puto com tudo isso? É impossível. É compreensível e mais do que tolerável o cidadão comum jogar toda a carga de raiva em torno da imagem da que deveria ser a pessoa mais poderosa do país — no caso, a presidenta Dilma. Sim, ela não é, longe disso. Mas os telejornais, os sites de notícia e as conversas no boteco passam essa mensagem. Na realidade nem é preciso.

Seja em momentos de crise ou em momentos de êxtase social e econômico, a América Latina sempre precisou de alguém ali no topo representando a situação. Se Lula foi o ‘pai do povo’ por um bom tempo porque tirou milhões da pobreza e conciliou isso com o crescimento da economia, Dilma tem sido a principal inimiga pois não conseguiu dar continuidade, tendo de cortar no bolso do trabalhador e da classe média. Mas, é bom destacar: nem Lula e nem Dilma foram os únicos responsáveis, seja pelo crescimento ou pela crise. A personificação de heróis e vilões é tradicional na política latino-americana, e isso precisa mudar.

Agora, é preciso colocar toda essa insatisfação do cidadão comum em objetivos concretos que possam mudar de fato a situação na economia e na política brasileira. E com o caminho apresentado pela oposição e governo — impeachment e ajuste fiscal respectivamente — isso nunca será conquistado. Porque com o impeachment, não se alterá o jogo político e sim os personagens, que aliás, um dia podem voltar. E com o ajuste fiscal não é possível conciliar um crescimento econômico e de renda do trabalhador, acelerando apenas a desigualdade social entre as classes.

Dois passos importantes para sair da crise na economia e na política acabam escondidos pela mídia, pelos atores políticos e pela mão invisível do mercado. Talvez não sejam de fato soluções a curto prazo, mas funcionariam como um caminho a ser seguido a longo prazo.

1. Auditoria Cidadã da Dívida Pública

Como já foi publicado no Democratize neste ano, a dívida pública da União é um dos maiores casos de corrupção de nossa história — e talvez nunca divulgado como deveria ser.

A máquina do Estado gasta em seu orçamento anual mais de 40% de todo o seu caixa para pagamento de dívida com bancos e agentes financeiros. Enquanto isso, áreas importantes da sociedade como Educação e Saúde contam com menos de 1/4 desse valor investido anualmente pela União.

Gastos que poderiam ser utilizados para construção de universidades públicas, repasse para os estados com o objetivo de melhoria nos transportes e infra-estrutura, tudo isso é usado para pagar dívidas que talvez existam por décadas com bancos estrangeiros e organizações financeiras que visam apenas o lucro e não a qualidade de vida da população.

Um exemplo a ser seguido é o do presidente do Equador, Rafael Correa, que com uma auditoria pública da dívida conseguiu bater de frente com especuladores e agentes financeiros, driblando o mercado e eliminando cerca de 70% da dívida pública do Estado equatoriano, que desde 2007 tem visto um crescimento econômico significativo aliado com uma forte queda da desigualdade social e aumento de qualidade de vida com a população.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

2. Assembleia Constituinte Popular e Democrática

O sistema político atual, seguindo um modelo representativo através de partidos políticos específicos e com regras específicas, já não funciona mais. Essa mensagem já havia sido dita pela população nos protestos de junho de 2013, e desde lá parece que nossos congressistas parecem não terem entendido o recado.

Quando falamos em Reforma Política, não se trata de mudar aspectos do modelo já existente, e sim de mudar radicalmente o próprio modelo. E nenhuma reforma conseguirá sucesso e terá eficiência na participação do cidadão nas decisões políticas caso elas acabem sendo tomadas pelos principais protagonistas do cenário de hoje — ou seja, aqueles que estão no poder.

Resumindo o óbvio: a política conseguirá mudar de fato quando a população passar a tomar as decisões, participando do processo político não apenas com o voto a cada dois anos, como também articulando e debatendo projetos e ideias — seja no bairro onde você mora ou no seu estado. E cá entre nós, quem disse que o Congresso que hoje está no poder quer isso? Abrir mão de regalias e poderes, pra quê? A reforma política apresentada pelo Congresso neste ano beira a vergonha.

Apenas uma Assembleia Constituinte popular e democrática poderá mudar de fato os rumos da política nacional. É preciso construir debates em torno de ideias e mudanças radicais na constituição, principalmente quando o assunto é o jogo político. O financiamento privado e empresarial para campanhas nas eleições é o maior símbolo representativo da corrupção que manobra o Brasil nos dias de hoje — e os deputados deixaram bem claro que não querem abrir mão disso tão facilmente. E quem pode determinar se isso vale ou não? Nós, a população.

Parece até radical demais, mas não é. Na realidade, uma assembleia constituinte popular e democrática não é a solução, mas abre um caminho para uma jornada de mudanças essenciais na política, visando maior participação da população nas decisões do dia-a-dia, transformando a democracia em algo mais participativo e horizontal, eliminando aos poucos a necessidade de que os partidos políticos sejam os atores protagonistas, passando a tocha para a população, a sociedade civil.

Alunos dentro de uma escola ocupada em São Paulo, dando uma lição do que pode acontecer quando a população se torna protagonista das decisões políticas e não o Estado | Foto: Wesley Passos/Democratize

A mobilização dos estudantes secundaristas em São Paulo é a prova de que estamos preparados para que algo assim aconteça. Mais de 200 escolas ocupadas, centenas de alunos envolvidos e participando ativamente das decisões — que não possuem um núcleo central de articulação, tornando mais horizontal possível a atuação dos alunos. Juntos, conseguiram barrar o projeto do governador Geraldo Alckmin (PSDB) de reorganização escolar, mais conhecida como ‘corte de gastos com embalagem falsa’.

Tomemos como exemplo a nossa juventude.

Ainda faltará muita coisa, é claro. Mas são dois passos importantes e muito mais eficazes do que os apresentados pela grande mídia e pelos atores políticos. E lembrem-se disso: se o que queremos é uma mudança radical, nunca acreditem nas propostas e vias de quem está no poder hoje, seja como oposição ou governo. Afinal, eles não abrirão mão do que possuem — ou do que podem possuir daqui a 4 anos.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on December 10, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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