O Dia Internacional de Luta das Mulheres é uma data importante para os movimentos feministas, que levam diversas pautas para as ruas e…

Discordância, agressões e ruptura marcam Oito de Março em São Paulo

Discordância, agressões e ruptura marcam Oito de Março em São PauloO Dia Internacional de Luta das Mulheres é uma data importante para os movimentos feministas, que levam diversas pautas para as ruas e…


Discordância, agressões e ruptura marcam Oito de Março em São Paulo

Foto: Gabriel Soares/Democratize

O Dia Internacional de Luta das Mulheres é uma data importante para os movimentos feministas, que levam diversas pautas para as ruas e exigem seus direitos. Mas, este ano, foi marcado por atritos entre mulheres e homens.

Em São Paulo, a manifestação do Oito de Março ganhou destaque no país pelas confusões que resultaram na divisão do ato. A princípio, as pautas propostas pelas organizadoras eram mulheres nas ruas por liberdade e autonomia, basta de violência, pela legalização do aborto, contra o ajuste fiscal e reforma da previdência. Nas últimas reuniões, que já contavam com debates acalorados, foi acrescentado o tema “democracia para lutar”.

A situação esquentou ainda mais na última sexta-feira (04), quando a Polícia Federal conduziu o ex-presidente Lula (PT) para depor na nova fase da Operação Lava Jato. Impulsionadas pelo ocorrido, setores governistas que participaram da organização do ato ressaltaram que seus blocos teriam mensagens de apoio ao ex-presidente e Dilma Rousseff. O clima se agravou com a divulgação do calendário de lutas da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que identificou o protesto de Oito de Março como “Mulheres com Lula”, gerando preocupação nos grupos feministas contrários ao governo.

Apesar das discordâncias e rumores do rompimento do ato, a concentração do protesto foi tranquila. Grupos pró e contra a gestão petista chegaram ao vão livre do Masp e ali permaneceram sem maiores problemas por mais de uma hora. Enquanto isso, representantes dos movimentos presentes subiam ao carro de som para discursar.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Militantes pró-governo ditaram palavras de ordem contra o golpe e em defesa de Lula e Dilma sem enfrentar resistência. A dissidência ocorreu quando Silvia Ferraro, integrante do Movimento Mulheres em Luta, criticou o governo por se mostrar indiferente às pautas feministas. “Enquanto eu falava, uma companheira do PCdoB tentou puxar o microfone da minha mão, eu virei e continuei minha fala. A partir disso ficou claro que esse ato não era para nós”, declarou.

A confusão resultou na divisão do ato em dois: o bloco puxado por militantes governistas levou 3 mil pessoas pelo trajeto definido nas reuniões, seguindo pela avenida Paulista, descendo a rua Augusta e terminando na praça da República. Já o Bloco de Esquerda (grupo de militantes contrário ao governo), com cerca de 400 pessoas, caminhou no sentido oposto e concluiu o ato na praça Oswaldo Cruz, região do Paraíso. Durante o percurso, as militantes defenderam as pautas iniciais do Oito de Março e repudiaram a ação violenta do outro grupo.

De acordo com Fernanda Estima da Marcha Mundial das Mulheres, o Oito de Março é um dia de construção das várias formas de encarar a luta. “Atrapalha quando os homens quererem impor pautas num ato e uma organização da qual eles não fazem parte.Sempre trabalhamos com posições contrárias, mas a gente construía a unidade sem violência. O feminismo para frente e o machismo para trás”, destacou.

Para Carol Lopes, do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, o que era para ser um ato unificado dos movimentos feministas foi sequestrado por setores do governo, em defesa da Dilma. “Elas racharam o ato e a organização feminista. O PT e PCdoB foram coniventes com as agressões físicas por mulheres e homens governistas, além de trair a classe de mulheres trabalhadoras”, lamentou.

“Fora Dilma, fora Lula, fora Alckmin, fora todos!”

A frase, proferida por Silvia no final de sua fala, foi o estopim para a confusão. O fim do discurso foi abafado por vaias e gritos de “não vai ter golpe!”, puxados pela maioria governista presente no ato. Silvia, Carol Lopes e outras mulheres do Bloco de Esquerda não puderam descer do carro de som devido a ameças de outras militantes que estavam no chão.

Após muita pressão, conseguiram deixar o veículo com a ajuda de um cordão de isolamento formado por outras feministas. A passagem ocorreu em meio a xingamentos, empurrões e tapas por parte de mulheres e homens pró-governo.

Lary Carvalho, do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, presenciou uma ativista do movimento Vamos à Luta apanhando. “Eu puxei ela e ouvi uma jovem do PT fazer ameaças, dizendo que se as militantes descessem, já sabiam o que ia acontecer. Elas não conseguem aceitar uma militância feminista independente de um governo que tem uma mulher à frente, mas não faz uma política que nos representa”, relatou.

Já Fernanda Estima afirma que o Oito de Março é o momento de reafirmar que o machismo é algo difícil de vencer. “Tivemos muitos problemas com a saída da passeata. Muitos homens presentes achando que podiam mandar no ato que é nosso. É ruim ter violência de qualquer parte que seja”, disse.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Segundo Isadora Szklo do Rua — Juventude Anticapitalista, todos os anos a construção da passeata é complicada e cheia de confusão, com discussões extensas sobre os temas a serem abordados na marcha. “As governistas não só sequestraram a pauta como fecharam o cerco para qualquer disputa política do ato na base da porrada e do silenciamento. Isso é uma amostra bastante significativa da conjuntura e do que vem por aí”, alertou.

Fizeram parte da organização da passeata militantes dos partidos PT, PCdoB, PSOL, PCB, PSTU, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a CSP-Conlutas e organizações feministas como Coletivo Classista Ana Montenegro, Movimento Mulheres em Luta, Juntas, Insurgência, Marcha Mundial das Mulheres, UJS, entre outras. Militantes autônomas também marcaram presença.


Reportagem por Carol Nogueira, jornalista e colaboradora da Agência Democratize

By Democratize on March 10, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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