Causa espanto que uma data tão importante como essa seja pouco valorizada no Brasil, mais precisamente em São Paulo. Enquanto a mídia…

Dia Internacional da Liberdade de Imprensa: o governo Alckmin e sua coleção de arbitrariedades

Dia Internacional da Liberdade de Imprensa: o governo Alckmin e sua coleção de arbitrariedadesCausa espanto que uma data tão importante como essa seja pouco valorizada no Brasil, mais precisamente em São Paulo. Enquanto a mídia…


Dia Internacional da Liberdade de Imprensa: o governo Alckmin e sua coleção de arbitrariedades

O fotojornalista Juliano Vieira, da TVDrone, ferido pela polícia durante protesto em São Paulo neste ano | Foto: Alice V/Democratize

Causa espanto que uma data tão importante como essa seja pouco valorizada no Brasil, mais precisamente em São Paulo. Enquanto a mídia convencional cita a preocupação de ONGs em países como Venezuela, não somos capazes de olhar para o próprio umbigo: o estado de São Paulo se tornou o maior inimigo da liberdade de imprensa do país.

Teoricamente vivemos em um país democrático.

Mas isso é só teoria. Pelo menos no que se refere ao estado de São Paulo.

O próprio Democratize já sofreu isso na pele: nas manifestações deste ano, promovidas pelo Passe Livre, o fotojornalista Francisco Toledo ficou ferido após uma bomba de efeito moral explodir próxima do seu corpo. Ele levou 6 pontos na perna, e ainda ficou com uma “lembrancinha” — um pequeno estilhaço de 2cm, que não foi possível retirar por conta da força do impacto da bomba.

Não foi apenas com Francisco. Outro fotógrafo, Reinaldo Meneguim, também já sofreu na pele as consequências de uma bomba de efeito moral, durante manifestação dos secundaristas no final do ano passado. Por sorte, não resultou em ferimentos graves.

O profissional da comunicação é sujeito a todo tipo de ação repressora em São Paulo, exatamente por ter o poder de denunciar o modo como a Polícia Militar, responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública, trata manifestações populares e a periferia.

Separamos alguns casos graves que ocorreram nos últimos anos.


As manifestações do Passe Livre em 2013 e 2016 e suas consequências contra os profissionais da imprensa

A repórter da Folha de S. Paulo, Giuliana Vallone, ferida propositalmente por um policial com tiro de bala de borracha no olho | Foto: Guilherme Kastner/Brazil Photo Press

Giuliana Vallone, repórter da Folha de S. Paulo, realizava a cobertura de um protesto do Movimento Passe Livre em 2013, na cidade de São Paulo. Em uma rua praticamente sem movimento, resolveu ajudar uma senhora a entrar em um estacionamento. A Tropa de Choque avançava, e com um tiro apontando no rosto de Giuliana, o policial a feriu gravemente no olho com bala de borracha. Esse foi o caso mais conhecido de agressão contra a imprensa nos protestos de 2013, onde diversos outros ocorreram — ainda mais graves.

No mesmo dia, o fotógrafo Sérgio Silva, que então trabalhava pela agência Futura Press, foi internado no hospital Nove de Julho. Ele foi atingido por uma bala de borracha no olho, assim como Giuliana, mas não teve a mesma sorte. Ficou cego.

Naquele dia, 7 repórteres da Folha ficaram feridos e 2 levaram tiro no rosto.

Outro fator interessante de se analisar sobre o autoritarismo do governo do tucano Geraldo Alckmin foram as prisões contra jornalistas durante esses protestos em 2013.

O repórter da revista Carta Capital foi preso no dia 14 de junho, mesma data onde Giuliana e Sérgio ficaram feridos. O motivo: ele portava vinagre. Veja um trecho do relato de Piero Locatelli:

“O ônibus da polícia seguiu por um caminho longo até o 78º DP, nos Jardins. Fomos colocados em fila para a revista. Pedi para colocar a blusa e um policial negou, dizendo que dali a pouco ia “ficar quente”.

Em seguida, finalmente explicaram porque estávamos ali. A delegada dizia que não estávamos presos, estávamos “sob averiguação”. Eu não sei a diferença. Tinham me levado para um departamento policial à força e não me diziam o motivo. Os meus documentos tinham sido retidos pela polícia.”

No final daquele ano, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) analisou as agressões contra a imprensa em 2013. Segundo informou, pelo menos 70 das 113 registradas foram intencionais.

“As 113 ocorrências foram registradas pela Abraji entre 11 junho e outubro de 2013. A partir de novembro, a Abraji tentou entrar em contato com todas as vítimas para verificar se a agressão havia sido deliberada ou não. Em 21 casos não foi possível localizar a vítima da violação ou ela não respondeu. Um dos repórteres localizados não soube dizer se a agressão havia sido deliberada ou não. Excluindo-se esses 22 casos, o universo analisado reduziu-se a 91 agressões, das quais 70 (ou 77%) foram deliberados. A divulgação dos resultados deste levantamento marca os 6 meses do estopim das grandes manifestações: a repressão violenta da PM de São Paulo à marcha contra o aumento das tarifas de ônibus em 13 de junho.

As agressões incluem intimidação, violência física, tentativa de atropelamento, ataque de cães policiais, furto ou dano de equipamentos (não incluídos carros de reportagem ou sedes de empresas de comunicação) e prisão.”

Em 2014 não foi muito diferente.

Na realidade, a falta de liberdade de imprensa em São Paulo acabou atingindo níveis internacionais.

A produtora Barbara Arvanitidis, da CNN, foi atingida por estilhaços de bomba no braço, durante protesto contra a Copa do Mundo em São Paulo, no dia de abertura no Itaquerão.

Vale ressaltar que não foi apenas São Paulo. Na final da Copa do Mundo, no Rio de Janeiro, pelo menos 15 jornalistas ficaram feridos por conta da repressão policial. As informações são do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro.

Entre esses jornalistas, pelo menos 3 eram estrangeiros. O documentarista canadense Jason O’Hara, o fotógrafo peruano Boris Mercado e o jornalista italiano Luigi Spera. Jason chegou a ser levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar para tratar dos ferimentos.

Outros feridos foram: Mauro Pimentel, fotógrafo do Portal Terra, que foi agredido por policiais quando tentava passar por uma barreira policial para registrar um princípio de confronto. Três policiais o acertaram com cassetetes no rosto e na perna. Ele chegou a cair no chão e teve a máscara de gás e a lente de sua câmera quebradas por policiais.

Em 2015 a situação não mudou muito.

Pelo menos 5 casos graves de atentado contra a imprensa ocorreram durante protestos do Movimento Passe Livre, no começo daquele ano. O repórter da TV Estadão, Fernando Otto, foi atingido por uma bala de borracha enquanto filmava o confronto entre manifestantes e policiais na estação Faria Lima. Também do Estadão, Edgar Maciel havia sido ferido no protesto anterior, por bala de borracha na perna. Antes dele foram o fotógrafo da Vice, Felipe Larozza, atacado a golpes de cassetete por policiais; o fotógrafo Matheus José Maria, o jornalista Thomas Dreux Miranda, entre outros, segundo a ABRAJI.

Neste ano, a situação ficou ainda mais grave em São Paulo.

Em protesto do Passe Livre no dia 12 de janeiro, pelo menos 9 profissionais de imprensa foram feridos por policiais militares. Fernanda Azevedo, da TV Gazeta, Pedro Belo da equipe de vídeo da Veja São Paulo, Márcio Neves que é videorepórter do UOL, Alice Vergueiro, fotógrafa da Folhapress e do Democratize, Francisco Toledo que é fotojornalista do Democratize, Camila Salmazio que é repórter da Rede Brasil Atual, Felipe Larozza da Vice, Raul Dória freelancer, Alex Falcão da Futurapress e Caio Cestari, autônomo. As informações são da ABRAJI.

Mesmo com o nível da gravidade da repressão policial, isso acabaria se repetindo dias depois.

No dia 22 de janeiro, em novo protesto do Passe Livre, mais 7 jornalistas ficaram feridos em São Paulo, incluindo o fotojornalista Juliano Vieira, da TVDrone.

Não estamos contando com diversos outros casos notórios ocorridos antes de 2013. E ainda existem outros exemplos da brutalidade contra a imprensa em São Paulo, que não foram especificados na matéria.

Em meados de 2013, jornalistas e fotógrafos chegaram a ser até perseguidos pelo governo estadual, através de ações de espionagem da Polícia Civil. Esse tipo de ação persistiu até a Copa do Mundo, em 2014. O fotógrafo Vinicius Oliveira, então do coletivo Guerrilha GRR, chegou a ser levado para o DP enquanto andava de metrô, após ser abordado por policiais sem farda.

A repressão do Estado contra a imprensa em São Paulo é tanta que a cada momento surgem novos exemplos.

No mesmo dia em que o fotojornalista Juliano da TVDrone ficou ferido junto com outros 6 colegas, jornalistas da Folha de S. Paulo acompanhavam o momento em que alguns jovens eram detidos — e mesmo se apresentando com crachás, eles também acabaram sendo abordados por policiais.

É algo preocupante.

Porém, praticamente ignorado pela grande mídia — que faz seus próprios funcionários sofrerem por isso na pele.

Neste Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, o governador Geraldo Alckmin é um dos maiores responsáveis pela falta de liberdade em seu próprio estado. Mas, provavelmente, se a sociedade civil não se mobilizar sobre esse assunto, nada deve ocorrer — assim como nada ocorreu com os policiais envolvidos nos casos de agressão contra a imprensa desde 2013 em São Paulo.

By Democratize on May 3, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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