Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Das ruas para os comícios: MBL panfleta para garantir cargos em prefeituras

O antes “apartidário” Movimento Brasil Livre agora saiu das ruas para ocupar os comícios. Segundo fontes que faziam parte do grupo e foram expulsas, grupo fez acordos com candidatos para conseguir cargos nas eventuais administrações municipais.

O Movimento Brasil Livre, um dos principais protagonistas do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), abandonou as ruas e partiu para os comícios.

Mas a realidade vai muito além daquilo já divulgado pelo próprio grupo nas redes sociais.

Para contar essa história, é preciso verificar alguns fatos.

Por exemplo, a Justiça Eleitoral proibiu recentemente que o MBL veicule propagandas eleitorais em seu site e canal no Youtube. Mesmo auto-declarado “apartidário”, o MBL faz uma campanha para pelo menos 45 candidatos a vereador em todo o país, de diferentes partidos: DEM, PSDB, PSC, PP, PTB, PV, Novo, PHS, PRB, PEN, PTN, PMDB, PROS e até mesmo o de centro-esquerda PSB, e o sindicalista Solidariedade (de Paulinho da Força).

A ação foi feita pelo candidato a vereador pelo PSOL em São Paulo, Todd Tomorrow.

É claro, o MBL não gostou nada disso. Mas as candidaturas de membros do grupo para vereador é só o começo.

Em várias capitais, o grupo apoia abertamente vários candidatos de partidos como PSDB e PMDB para a prefeitura. E apoiar vai muito além de gravar vídeos ao lado dos candidatos e postar memes em sua página no Facebook.

Durante esta semana, um dos líderes do movimento, Kim Kataguiri, foi flagrado panfletando em defesa de um candidato — em Porto Alegre. No dia 27 de setembro, militantes da RAiZ (partido que Luiza Erundina e outras lideranças tentam lançar) divulgavam seu material de campanha na PUC de Porto Alegre. No mesmo local, era possível ver um grupo de 8 pessoas com bandeiras e panfletos do candidato a prefeito Nelson Marchezan, do PSDB.

O então apartidário Kim Kataguiri, em pessoa, distribuia panfletos do tucano na universidade. De forma provocativa, acompanhado por um dos integrantes do grupo que comanda o canal ‘Mamaefalei’ (que tem como simples objetivo ridicularizar manifestações de esquerda), houve troca de ofensas entre os grupos.

Foto: Reprodução/Facebook
Foto: Reprodução/Facebook

A presença de Kataguiri e dos demais integrantes do MBL foi divulgada na própria página do grupo. Porém, não falou necessariamente sobre a panfletagem, tratando a ação como uma intervenção na universidade contra os candidatos de esquerda na capital gaúcha, que estão se consolidando no segundo turno — tanto Raul Pont (PT) quanto Luciana Genro (PSOL) possuem chances reais de ficar em segundo lugar.

Mas a situação piora ainda mais quando ex-integrantes do Movimento Brasil Livre decidem contar como funciona o modo de operação do grupo.

Ex-coordenador do MBL na cidade de Caxias do Sul (RS), um empresário que preferiu não se identificar foi expulso do grupo após se filiar a um partido político não alinhado segundo a “cartilha” do MBL. No caso, ele havia se filiado ao PSL (Partido Social Liberal), sendo que o MBL apoiava um candidato a vereador pelo DEM, e o candidato para prefeito na chapa PDT/PMDB.

Segundo o empresário, apesar de não ter sido uma decisão tomada pelos coordenadores nacionais do MBL, o fato do grupo ser alinhado nacionalmente ao PMDB e ao DEM influenciou diretamente na escolha dos coordenadores do grupo em Caxias do Sul. “Assim que me filiei ao PSL fui “convidado” a deixar o MBL por não concordar com o vínculo com o PMDB”, disse o ex-coordenador, que teve a decisão de sua expulsão tomada pelos próprios coordenadores nacionais do MBL. “Assim que disse que pretendia concorrer nas eleições municipais como prefeito pelo PSL, acabaram me retirando do MBL”, nos contou o empresário.

“Na época falei diretamente com o Coordenador Nacional do MBL, Renan Santos, e ele disse que já tinham candidato na cidade acertado. Mas ninguém do MBL daqui tinha decidido sobre isso”, disse. Para quem não se lembra, Renan Santos esteve envolvido em diversas polêmicas e hoje atua nos bastidores do grupo, principalmente após ter negociado apoio financeiro de partidos como o PMDB para as manifestações contra a ex-presidente Dilma neste ano.

Foto: RBS
Foto: RBS

Quando questionado sobre a possibilidade de integrantes do MBL apoiarem e fazer campanha em defesa de candidatos para prefeito, com o objetivo de ocupar cargos públicos, o empresário diz que não tem como afirmar tal fato: “mas acredito que pode acontecer”, disse.

Ele foi um dos primeiros membros do MBL em Caxias do Sul, integrando o grupo desde a primeira grande manifestação em 2015. Na cidade, para organizar as manifestações, a célula nunca recebeu qualquer tipo de apoio financeiro da coordenação nacional: “Do nacional só vinham as ordens”, disse. Só em 2015, o Estudantes pela Liberdade (grupo fundador do MBL no Brasil) recebeu mais de R$300 mil da Students for Liberty, organização norte-americana que tem como objetivo “espalhar” ideais liberais ao redor do mundo, principalmente em países do terceiro mundo.

Mesmo com tanto dinheiro, o MBL vai muito além na parceria com candidatos para prefeito, com o simples objetivo de conseguir cargos políticos.

É o caso da relação entre o candidato tucano João Doria e os integrantes do MBL em São Paulo.

Mais um ex-integrante, desta vez de São Paulo, nos contou sobre como funciona o apoio dado a João Doria na capital paulista. Sem se identificar, o jovem afirma que foi expulso do grupo após questionar a forma como o MBL tem dado apoio ao candidato tucano nas redes sociais e nas ruas, participando de panfletagens e de encontros públicos. “Eu cheguei a panfletar de graça para o Doria por duas sextas seguidas, uma semana atrás da outra. Eram ordens do pessoal de cima. Íamos em portas de universidades e ficávamos lá, das seis da tarde até as onze da noite”, nos contou.

 Foto: Reprodução/Youtube
Foto: Reprodução/Youtube

O jovem então resolveu conversar com integrantes do grupo sobre o apoio dado ao Doria. “Parecia um exagero fazer tudo isso pra eleger uma pessoa que tecnicamente não nos daria nada em troca”, disse. Foi ai que descobriu sobre a possibilidade de ganhar cargos políticos na prefeitura após uma eventual vitória do candidato tucano nas eleições para São Paulo. “Se o Doria ganhasse, teríamos gente nossa na prefeitura, me contaram. Primeiro fiquei entusiasmado, mas depois fui descobrindo que essas pessoas já estavam acertadas com o próprio candidato, não seria algo debatido em grupo, só peixe grande participaria”, diz o jovem, que após discutir com integrantes, acabou saindo.

Tentamos entrar em contato com o MBL em Caxias do Sul e o MBL em São Paulo, mas não obtivemos retorno.

A campanha do candidato João Doria afirma desconhecer qualquer ligação política com o MBL.

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