A esquerda vive um problema muito parecido com os setores de direita: acreditar que, com a saída de Eduardo Cunha, o conservadorismo perder…

Cunha vai com Deus

Cunha vai com DeusA esquerda vive um problema muito parecido com os setores de direita: acreditar que, com a saída de Eduardo Cunha, o conservadorismo perder…


Cunha vai com Deus

Foto: Fabio Rodrigues/Agência Brasil

A esquerda vive um problema muito parecido com os setores de direita: acreditar que, com a saída de Eduardo Cunha, o conservadorismo perderá e o avanço progressista retornará. A direita também peca nesse aspecto, acreditando que tirando Dilma Rousseff da presidência, a corrupção sumirá como um passe de mágica. Mas mesmo assim, é muito bom dizer em claro e bom tom: Cunha, vai com Deus.

É preciso deixar bem claro: o problema não é Cunha — ou pelo menos não apenas ele — e sim a própria sociedade brasileira. Não se trata de generalização. Vivemos em um país claramente conservador e religioso (pelo menos em teoria). E dito isto, é preciso não cair na armadilha de pensar que apenas a elite é conservadora — muito pelo contrário, se você visitar uma comunidade periférica na Zona Sul, Leste ou Norte de São Paulo, verá que boa parte dos votos da bancada evangélica surge de lá.

E como sociedade conservadora, temos hoje o perfeito reflexo do que somos no Congresso: a bancada evangélica em ascensão, assim como os deputados da bancada da bala, e até mesmo do agronegócio. Eles representam setores majoritários da sociedade, que realmente acreditam que a presença desses deputados no Congresso é necessária.

Mas é preciso ser esperto. O fato da sociedade brasileira ser historicamente conservadora, não significa que é necessariamente politizada. Vale lembrar que tivemos em nossa história governos de esquerda com ampla base popular — de Jango até Lula, que apesar do último não ser de esquerda de fato, aplicou medidas progressistas que na teoria tais setores conservadores desaprovariam. Mas não desaprovaram.

Outros exemplos: as Jornadas de Junho em 2013, levando milhões de brasileiros para a rua em defesa de bandeiras que são sim de esquerda: um sistema de saúde e educação universal, gratuito e de qualidade; a redução de passagens e a adoção da tarifa zero no transporte público; um gigante NÃO para instituições estrangeiras como a FIFA; e outros. Por último, o fato de que na última década, partidos como o PSDB e PMDB fizeram o máximo possível para fugir da fama “de direita” conquistada pela sua gestão nos anos 90, com privatizações e quase nenhum programa social.

Isso nos leva a crer que temos então um espaço de atuação muito objetivo — que é de defender tais bandeiras que fazem parte do senso comum da sociedade no geral. Bandeiras que são historicamente nossas.

Protesto de junho de 2013, em Belém | Foto: Thiago Gomes

Sendo assim, temos a obrigação moral de levantar essas bandeiras nos próximos anos, com o objetivo de barrar o avanço conservador no Congresso — que também atua da mesma forma. Afinal, a direita conseguiu espaço defendendo pautas de senso comum da ampla maioria da sociedade, como a redução da maioridade penal, Um em cada dois candidatos para deputado federal em 2014, utilizou dos termos “família” e “cidadão de bem” em seus programas eleitorais. Enquanto isso, candidatos de esquerda pregavam contra o avanço conservador — como o fazem até hoje — mas não deixavam claro a sua proposta, a sua contra-partida, o que poderíamos enfim oferecer para a sociedade como solução dos nossos problemas. O resultado está ai.

Talvez, a saída de Eduardo Cunha seja de fato uma vitória. Mas não pela sua queda. Afinal, 8 dos 11 deputados que podem ocupar o seu cargo respondem a processos ou têm condenações na Justiça. Quem os elegeu foi a própria sociedade brasileira. Escolheram tais nomes através de crenças particulares e do senso comum, acreditando cegamente que o conservadorismo significa de alguma forma uma espécie de moralismo religioso que conta com uma capa protetora contra a imoralidade representada na imagem da corrupção. Erraram. Erraram feio.

Porém, eles podem — e devem — aprender com o erro. A queda de Cunha e o fato de alguém ainda pior do que ele ocupar seu cargo pode significar o karma que o Brasil tanto precisa. Não ganhamos absolutamente nada com Eduardo Cunha caindo hoje do seu pedestal no Congresso — o resultado positivo virá depois, em 2018. Isso, claro, se a esquerda e setores progressistas souberem se articular, e principalmente abandonarem o barco no qual a imagem do Partido dos Trabalhadores ocupa hoje. Pois a estagnação de setores de esquerda como sindicatos e movimentos sociais específicos é apenas um reflexo da rejeição da sociedade à imagem do PT. E a partir do momento em que a CUT, um dos maiores sindicatos do Brasil; ou a UNE, o maior movimento estudantil da nossa história, andam de mãos dadas com o governismo e prometem defender a gestão de Dilma Rousseff, trata-se de um tiro no pé deles — e no nosso, que pertencemos a movimentos, partidos e sindicatos de esquerda e de oposição, mas também sofremos com tal estagnação.

Manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff | Foto: Gabriel Soares/Democratize

Não vai ser fácil. Vai ser doloroso. Serão três anos de sofrimento e desgaste.

Mas, pelo menos, temos uma vitória simbólica com um gostinho de podemos mais: dizer para Eduardo Cunha, enfim, vai com Deus!


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on October 23, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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