A tragédia por trás da foto: os grupos de direita, que colocaram milhões de pessoas ao redor do Brasil nas ruas contra a corrupção, parecem…

Contra a Corrupção?

Contra a Corrupção?A tragédia por trás da foto: os grupos de direita, que colocaram milhões de pessoas ao redor do Brasil nas ruas contra a corrupção, parecem…


Contra a Corrupção?

Foto: Câmara

A tragédia por trás da foto: os grupos de direita, que colocaram milhões de pessoas ao redor do Brasil nas ruas contra a corrupção, parecem ignorar a relevância de ter como principal aliado político no Congresso o congressista que mais tem recebido acusações de corrupção nos últimos meses. A indignação é seletiva, ou tudo isso faz parte da mediocridade que se tornou a politicagem no Brasil?

Imagine só o filme: um grupo de jovens guerreiros, cansados da manipulação e dos saques feitos em suas vilas pelo autoritário Imperador, resolveram cravar uma batalha contra o regime. Conseguem juntar espadas, armas, e contam com o apoio da população. Depois de 12 anos, a maioria do povoado do reino se cansou do Imperador. Mas ainda não é o suficiente. Para conseguir derrubar esse tirano, eles precisam de ajuda de alguém lá de cima, dos nobres e de pessoas com poder.

O problema do enredo começa quando esses jovens guerreiros contam como maior aliado para derrubar o tirano Imperador o nobre Carrasco — alguém com poderes para perturbar o regime atual, mas ao mesmo tempo o maior idealizador de saques ao redor do império.

O quão irracional e estúpido seria tal atitude por parte dos jovens guerreiros? Se aliar contra o Imperador saqueador, justamente com o Carrasco, o idealizador e realizador de saques?

O enredo explica exatamente o que acontece hoje, no Brasil. Grupos de direita, como o Movimento Brasil Livre, que tanto criticam a tradicional politicagem que torna o sistema político brasileiro um mar de corrupção, resolveram por ignorar as acusações contra deputado Eduardo Cunha, seu maior aliado no Congresso na luta pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Dizem: trata-se de derrubar primeiro Dilma, o PT, e depois ver no que dá. Como se a existência de Dilma no Planalto, junto com o seu partido, personificassem o significado de corrupção — quando, na realidade, seu maior aliado tem sido o mais belo exemplo de político sensível com a corrupção nos últimos meses, segundo as manchetes de jornais.

Vamos entender tudo isso em partes.

A corda no pescoço do Carrasco — Parte Um

Eduardo Cunha (PMDB), o presidente da Câmara dos Deputados, já coleciona um verdadeiro livro de acusações sobre casos de corrupção envolvendo o seu nome.

O mais recente, mostra contas atribuídas ao deputado na Suíça que somam quase 5 milhões de dólares. Quem enviou e tornou pública a investigação foi o Ministério Público, da Suíça, que informou a Procuradoria-Geral da República no Brasil. Segundo o jornal Zero Hora, uma auditoria interna do banco que guarda esses valores, cuja identificação não foi divulgada, foi responsável pelo informe que levou à abertura de ação criminal no país europeu por suspeita de lavagem de dinheiro. E continua: a instituição financeira entregou aos procuradores da Suíça, em abril de 2015, um informe em que apontava para as irregularidades e fazia duas constatações: Cunha havia criado uma estrutura para tentar esconder seu nome da conta e a renda movimentada era muito superior ao que o peemedebista havia declaro como salário.

Além disso, o deputado e presidente da Câmara é investigado pela Comissão de Valores Mobiliários por irregularidades num fundo de pensão. Segundo as informações, o esquema teria usado recursos de fundos de investimento. Uma reportagem da “Folha de S.Paulo” diz que relatório sigiloso da CVM, de março deste ano, afirma que Eduardo Cunha obteve um lucro indevido de R$ 900 mil por operações realizadas entre 2003 e 2006.

E mesmo assim, tanto os grupos pró-impeachment / anti-corrupção como os parlamentares defensores de valores morais no Congresso, parecem não se importar tanto com isso. E explicaremos, talvez, os motivos.

A incoerência dos jovens guerreiros pelo impeachment — Parte Dois

Para explicar melhor: grupos como o Movimento Brasil Livre, que acabam de surgir de bases ditas de baixo — não são políticos profissionais e nem viviam disso — acabam por propondo uma nova abordagem com a política. Mesmo defendendo ideias de direita, esse tipo de fórmula se tornou uma unanimidade entre movimentos mais jovens, como o próprio Movimento Passe Livre na esquerda.

Quando falamos de nova abordagem com a política, isso se traduz no cansaço e desgaste do modelo tradicional existente desde a redemocratização. Isto é: partidos políticos como são hoje (siglas não mais guiadas por ideias e sim pelo jogo político), a forma como um governo é administrado (de alianças partidárias por interesse e/ou controle até a forma como as campanhas eleitorais são tratadas e guiadas), entre outros. Teoricamente, quando um movimento como o MBL, que se propõe a construir uma nova forma de abordar política, tem como bandeira principal o combate contra a corrupção em órgãos públicos, essa batalha deveria ser travada independente de siglas partidárias ou de interesses secundários.

Mas não é bem assim.

Os movimentos pró-impeachment / anti-corrupção se mostraram vítimas do próprio discurso. Apoiados em uma indignação seletiva, eles caíram na politicagem na qual não deveriam, teoricamente, cair. O argumento mais utilizado é de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo, o que torna esse debate cada vez mais infantil e demagogo. Aliás, outra característica de tais movimentos que se contradiz com sua proposta: a demagogia e o populismo moralista, salvador da pátria e limpo de qualquer acusação.

Quando milhões de brasileiros foram para as ruas neste 2015, exigindo não só o impeachment de Dilma Rousseff como também o fim do descalabro que se tornou os órgãos públicos em relação com a corrupção, eles não pediam apenas o fim da corrupção de um partido. Claro, falo aqui da maioria dos manifestantes, e não de grupos isolados que parecem temer perder o iate ou a casa em Miami por conta da crise. A partir do momento em que esses jovens guerreiros pelo impeachment caem na politicagem, e se isolam no silêncio em relação ao seu maior aliado até então, que é Eduardo Cunha, eles mostram a incoerência e talvez até mesmo a má índole de seus movimentos. Como se, derrubando a presidenta e colocando o PT na ilegalidade a corrupção fosse se auto-destruir. Muito pelo contrário: tais movimentos não enxergam que a facilidade de se corromper em cargos públicos e de gestão no Brasil se encontra no próprio sistema existente, do começo ao fim. Seja no financiamento privado de campanhas, ou até no modelo democrático burguês ocidental, que tem se mostrado em uma crise perpétua em vários países ao redor do mundo desde o fim da década passada.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Antes de começar a terceira e parte final do nosso filme fictício baseado em fatos reais, é preciso alertar sobre o esvaziamento e falência de tais movimentos nos próximos meses ou anos. A prova disso é a possibilidade de alguns membros desses grupos tentarem se eleger para cargos como vereador em 2016, como por exemplo, o estudante Fernando Holiday, que deve concorrer a uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo pelo DEM. Ao invés de consolidar como uma força de oposição ao regime — e tudo que o cerca, inclusive a corrupção — ele acaba se integrando ao sistema vigente. Esse fator, aliado ao possível descontentamento de parte da sua massa seguidora que foi para as ruas em 2015 pelo cansaço com a corrupção no sistema político, pode demonstrar uma forte queda de influência desses movimentos nos próximos anos, ou até mesmo meses.

Portanto…

A queda dos jovens guerreiros, do Carrasco e do Imperador — Parte Final

Neste jogo político atual, todos caem. O motivo é que nenhum deles representa de fato o anseio da população: seja o Carrasco, na figura de Eduardo Cunha; o Imperador, na figura da presidenta Dilma Rousseff e do Partido dos Trabalhadores; e até mesmo os jovens guerreiros, que são os idealizadores dos movimentos de direita pelo impeachment.

No final das contas, tudo não passa de uma peça teatral onde a queda do próximo representa a sua ascensão. O problema é que não existe mais espaço para aproveitadores ou oportunistas. O desgaste do sistema político que existe hoje não se resolve com reformas ou substituição de siglas partidárias no poder. Isso tudo seria apostar em um ciclo vicioso sadomasoquista, onde trocamos o pior pelo pior, acreditando em uma mudança imaginária que em pouco tempo vai se desconstruindo automaticamente.

E assim caminha o enredo. Se existirá uma sequência, isso podemos ter certeza. Talvez, com outros atores.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on October 5, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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