Consciência Negra: os negros resistem todos os dias

“É um tempo de guerra, é um tempo sem sol. Sem sol, sem sol, sem dó”. Mais do que celebrar a memória de Dandara e Zumbi, que são figuras importantes do Quilombo Palmares, o 20 de novembro, reafirma a resistência do povo negro, denuncia o racismo, expõe o extermínio da população negra e a violência contra as mulheres negras. Em 2016, a data ficou marcada por mais uma chacina na Cidade de Deus no Rio de Janeiro, onde sete corpos negros foram encontrados.

Para os familiares, os mortos foram executados em retaliação ao falecimento de quatro policiais que morreram após queda de helicóptero na comunidade. A chacina está sendo investigada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro.

A morte dos moradores da Cidade de Deus destaca a violência continuada do Estado, que  vitimou Amarildo de Souza, Claudia Silva Ferreira também no Rio de Janeiro, Luana Barbosa dos Reis no interior de São Paulo, os cinco jovens que foram encontrados mortos no início deste mês em área de mata em Mogi das Cruzes, entre tantos outros casos.

Em março a CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens admitiu que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no país. A constatação ocorre com base no Mapa da Violência, realizado desde 1998 pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz a partir de dados do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. O último levantamento divulgado em 2014, contabiliza os homicídios de 2012, em que 77% dos jovens assassinados são negros.

Apesar dos dados escancarados, o Estado mantém os olhos fechados. Por toda a reviravolta no cenário político, o país está passando por uma reestruturação. A PEC 241 aprovada na Câmara dos Deputados e em tramitação no Senado como PEC 55 que congela os gastos com saúde e educação nos próximos 20 anos, vai atingir ainda mais a população negra que mais utiliza os serviços públicos.

O tratamento marginalizado dado à população negra com o respaldo do Estado, só faz crescer a desigualdade e quebrar o mito da democracia racial. Em sua conta no twitter, o presidente Michel Temer lamentou a morte dos policiais no Rio de Janeiro e ressaltou o trabalho realizado pelos soldados. Já o governador Luiz Fernando Pezão, decretou luto oficial de três dias. Em nenhum momento houve solidariedade às famílias da comunidade que tiveram seus entes assassinados.

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Todos os dias é 20 de novembro

No calendário brasileiro, a Consciência Negra é celebrada uma vez por ano, mas a luta do movimento negro é diária. É a luta para manter-se vivo, escapar da brutalidade do Estado e combater a exploração da burguesia brasileira. Em São Paulo, aconteceu a XII Marcha da Consciência Negra que reuniu diversos movimentos negros na Avenida Paulista.

Consciência Negra
Foto: Fernando DK / Democratize

A concentração do ato aconteceu em meio a pocket shows, roda de capoeira e performances. Do outro lado, no sentido Paraíso, começou a concentração da manifestação convocada pelo Vem pra Rua em apoio à operação Lava Jato.

Um pouco antes da marcha sair, houve um princípio de confusão, quando alguns manifestantes do Vem Pra Rua iniciaram provocações aos membros dos movimentos negros. Para Wesley Rosa, o Vem Pra Rua estava frustrando a manifestação do movimento negro. “A polícia se posicionou para o nosso lado, ou seja, a ameaça é aparentemente negra. A PM não está posicionada para eles, que são um monte de gente branca e burguesa, mas para o lado periférico e pobre. Esse é o grande problema, isso é um racismo institucional”, disse.Após muita insistência dos militantes negros, a Polícia Militar conteve os manifestantes a favor da Lava Jato.

Com aproximadamente duas mil pessoas, a marcha da Consciência Negra seguiu pela Avenida Paulista, Rua da Consolação e terminou em frente ao Theatro Municipal. Nos carros de som, diversos militantes fizeram falas sobre a luta do movimento negro, os cortes do Governo Federal, genocídio, violência contra as mulheres negras, entre outros assuntos. No chão o grupo Afoxé Omo Odé fazia a ala de frente do ato, com um ritual de candomblé, além das baterias que davam o tom da manifestação.

Marcha Da Consciência Negra Em São Paulo

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Para a militante feminista Luka Franca, o combate ao racismo começa com a organização da população negra. “Aquele setor que se diz da esquerda, mas é branco, também precisa entender quais são os seus locais de privilégio e por onde passa efetivamente a emancipação da classe no Brasil pelo menos, passando pela negritude e os indígenas. A direita se convenceu e toca um projeto de classe, que tem recorte de gênero e raça. Entendeu que para conseguir desmobilizar é preciso reafirmar a democracia racial e a lógica meritocrática. O Fernando Holiday é o produto de um projeto que a elite brasileira branca, homem e heterossexual tem para o país”, destacou.

Já o militante do movimento negro Douglas Belchior considera a Consciência Negra uma construção histórica para contrapor o 13 de maio, marcada pelos brancos que deram a liberdade aos negros. “O 20 de novembro é por natureza uma data que remonta resistência, a resistência do que a luta de classes tem de mais radical, que é a luta negra. Num contexto conservador como o nosso, tem uma importância muito maior para reafirmar que nós somos o povo que construiu esse país e não vamos deixar retroceder nenhum direito”, ressaltou. 

 

 

 

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