Numa rua tranquila do Parque Monte Alegre, bairro de Taboão da Serra, cinco ou seis crianças brincam no pátio da casa, indiferentes ao tom…

Conheça a Casa de Apoio que já ajudou mais de 5 mil crianças com câncer

Conheça a Casa de Apoio que já ajudou mais de 5 mil crianças com câncerNuma rua tranquila do Parque Monte Alegre, bairro de Taboão da Serra, cinco ou seis crianças brincam no pátio da casa, indiferentes ao tom…


Conheça a Casa de Apoio que já ajudou mais de 5 mil crianças com câncer

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Numa rua tranquila do Parque Monte Alegre, bairro de Taboão da Serra, cinco ou seis crianças brincam no pátio da casa, indiferentes ao tom cinzento do céu naquela manhã de sábado, dia 27. Em meio às risadas e estripulias, é possível identificar ao menos três sotaques diferentes. Elas vêm de todo canto do Brasil, buscando em São Paulo o tratamento para sua doença.

Reportagem por Thais Helena Ribeiro e Giovana Meneguim
Fotos por Gustavo Oliveira

A capital paulista é referência no tratamento do câncer, abrigando o maior hospital especializado em tratamentos oncológicos da América Latina, o Instituto do Câncer de São Paulo Octavio Frias de Oliveira. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA) divulgados em novembro do ano passado, a estimativa é que somente em 2016 sejam registrados 596 mil novos casos de câncer no Brasil.

Somente na cidade de São Paulo, há 17 unidades especializadas no tratamento da doença, a maior concentração do país. Fora da região sudeste, são poucos os estados que contam com mais de dois centros especializados. Por conta disso, municípios de todo o país direcionam pacientes para serem atendidos na megalópole. Mas apesar de oferecer o tratamento, a rede saúde pública não é capaz de arcar por completo com as despesas resultantes destas migrações. E é aí que as casas de apoio entram em ação.

Fundada em 1996, a Casa de Apoio José Eduardo Cavichio é um centro de acolhida para crianças e seus familiares que migram para São Paulo na incessante jornada de combate ao câncer. O nome homenageia aquele que inspirou sua fundação: Um jovem de São José do Rio Preto que viveu durante 3 anos na capital para tratar um câncer. Seu sonho era abrir uma organização que prestasse assistência a jovens e famílias que estivessem passando por uma situação semelhante à sua.

A doença, porém, não se compadeceu das vontades do jovem, que acabou falecendo em agosto de 1995. Mas outras mãos assumiram o roteiro dessa história, que acabou sendo escrita por Maria Luíza Caselles. À época voluntária na ala pediátrica do Hospital do Câncer, Luíza acompanhou o tratamento de José Eduardo. Alguns meses após a morte, pediu autorização à família e fundou a Casa de Apoio José Eduardo Cavichio, ou Cajec, como ficou conhecida.

“Nós não tínhamos condições financeiras para ter uma casa específica, então eu abri na minha casa, no centro de Taboão [da Serra]. Com seis meses, já atendia 15 crianças, não dava mais pra ficar lá. Então nós começamos a procurar um local pra mudar”, relembra a fundadora. E foi adentrando Taboão da Serra que a Casa de Apoio encontrou seu novo endereço, na rua cujo nome não poderia ser mais sugestivo: Preciosa.

Fotos: Gustavo Oliveira/Democratize

Durante dois anos, com o apoio financeiro de uma empresa, Maria Luíza alugou a casa de um argentino para acolher as crianças em tratamento. Quando o proprietário decidiu voltar ao seu país, fez uma proposta generosa à instituição: Pagando prestações com o mesmo valor do aluguel, a Cajec poderia enfim conquistar uma casa própria. Foram dez anos para quitar o imóvel, que hoje pertence à Instituição.

A Cajec atende crianças e ­adolescentes de 0 a 18 anos, vindos de várias regiões brasileiras e também de países sul-americanos. Após o diagnóstico de câncer, o estado de origem entra em contato com hospitais de São Paulo e, caso haja vaga, a assistente social do hospital encaminha uma carta à Cajec solicitando uma vaga na instituição, que os acolhe no período de tratamento.

Tal como a maioria das Casas de Apoio, a Cajec, em suas origens, voltava seus atendimentos apenas às crianças com câncer. Mas há 18 anos esta história também mudou. Em 1998, uma bebê de apenas 6 meses chegou à instituição com graves problemas renais e precisava de um transplante. A frágil saúde da pequena Gabriela não suscitava muitas esperanças, mas a cirurgia foi bem sucedida. Hoje, a menina que segue morando na instituição, brinca com as outras crianças e recebe a todos com um grande sorriso no rosto.

Por conta dela, a Cajec abriu suas portas a outras crianças com a mesma necessidade: conseguir um transplante e ter uma recuperação adequada em um ambiente preparado, que além de oferecer cuidados especiais relacionados à saúde, também proporciona o principal: acolhimento e amor.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Nestes 20 anos de existência, são muitas as histórias que se passaram entre os muros brancos desta casa alegre, recheada de desenhos e risos de criança. E mesmo que ali, tal como em todos os lugares, nem todos os finais sejam dos mais felizes, há sempre algo bom a se recordar. Aos oito anos, Ana Luíza Araújo Nascimento mal se lembra de quando chegou à Cajec. Ainda bebê, foi morar na instituição junto com a mãe e a irmã, que estava em tratamento. Quando a menina tinha cinco anos a família foi viver em outro lugar, mas sua mãe segue trabalhando na casa — e sempre que não tem aula, Ana Luiza não perde a chance de voltar para rever os amigos.

Desde sua fundação, a Cajec se mantém através de voluntários e doadores, que contribuem com a manutenção financeira e também com a arrecadação de alimentos, roupas e calçados — tanto para a venda no bazar quanto para o uso pessoal das crianças e mães que são assistidas. Além da lojinha física, localizada no subsolo da Casa, a instituição também promove bazares periódicos em empresas parceiras. Neste período, estima-se que cerca de 5 mil famílias já tenham sido beneficiadas pela instituição.

Suprir as necessidades de uma instituição que atende até 40 pessoas, entre crianças e acompanhantes, não é tarefa simples. Os gastos de manutenção da casa são altos, pois além de moradia e alimentação, a Cajec também arca com transporte, acompanhamento psicológico, fisioterapia e até mesmo auxílio na compra de medicamentos, cadeiras de rodas e próteses.

Todos estes custos colocaram a Cajec em uma situação delicada no início deste ano, chegando a ficar sem estoque de alimentos. Em meados de fevereiro as condições começaram a melhorar, e a instituição está em processo de recuperação para que possa continuar desempenhando o seu trabalho.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Para fornecer o melhor tratamento possível, a Cajec conta com cerca de 20 voluntários de diversas áreas, incluindo psicólogos, fisioterapeutas e assistentes sociais, além de pessoas que contribuem levando as crianças a passeios, promovendo festas e despertando alegria para aliviar a luta diária contra o câncer. Hoje, a instituição carece de profissionais da odontologia, e pede apoio aos dentistas que possam prestar atendimento às crianças e seus familiares.

Depois de algumas horas, o dia não parece mais tão cinzento. Conversas, cliques e sorrisos fortalecem a atmosfera de gratidão do local, que é muito mais que um centro de tratamento: é um lar. Um lar construído por pessoas que viajaram milhares de quilômetros, deixando em seus berços a saudade e trazendo na mala a esperança de uma nova vida. Um lar diversificado, acolhedor, repleto de sotaques e culturas diferentes, unidos pelo mesmo propósito: proporcionar uma vivência mais saudável e feliz a pessoas que, desde muito cedo, travam uma luta contra o próprio corpo em nome da sobrevivência.

Veja a reportagem em vídeo:


Giovana Meneguim é fotógrafa pela Agência Democratize
Thais Helena Ribeiro é publicitária e colaboradora da Agência Democratize

By Democratize on March 15, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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