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Com a PEC 241, a frase “vocês querem dividir o Brasil” nunca fez tanto sentido

“Vocês querem dividir o Brasil” foi uma das frases mais ditas desde a vitória da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2014. Mas o que é a PEC 241? Recentemente, diante das críticas, Temer tenta passar a imagem de uma reforma “necessária e justa” sobre a PEC do Fim do Mundo. Mas quando só as classes baixas pagam a conta, como fica?

Durante todo o segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a frase “vocês querem dividir o Brasil” se tornou uma espécie de mantra político e ideológico dos grupos conservadores, que hoje assumiram o poder.

É claro, tal divisão retratada pelas suas palavras nunca passou de algo imaginário. De mentira.

Afinal, em seu segundo mandato praticamente todas as ações políticas do governo Dilma foram em benefício dos que estão hoje no poder. Primeiro, o ajuste fiscal. Foi fraco e insuficiente — na cabeça dos empresários. Mas para os trabalhadores não. Direitos como seguro-desemprego passaram por alterações. A terceirização ganhou força no Congresso.

A divisão na qual esse grupo conservador tanto se referiu é a supostamente ideológica.

Dilma e o Partido dos Trabalhadores utilizam da máquina pública para manipular as classes mais pobres. Para os conservadores, programas assistencialistas servem apenas para extender o período de pobreza. Direitos trabalhistas são pedras no meio do caminho da modernização no mercado de trabalho.

Na cabeça deles, era necessário colocar no imaginário da classe média que o Brasil estava se tornando uma espécie de Venezuela. Claro, quem realmente entendesse como funciona a política socio-econômica no Brasil não acabaria caindo nesse discurso. Mas nem toda classe média é politizada a ponto de separar ficção de realidade.

“Querem colocar uns contra os outros”, disseram. Ou seja: os pobres contra os ricos. A velha luta de classes. O marxismo, o comunismo, o bolivarianismo.

E a classe média caiu nesse conto. Abraçaram a ilusão de que o nosso país se encontra nessa crise absurda por causa do esquerdismo petista. Lula é Chavez. Dilma é Maduro. E o próximo passo seria não encontrar mais produtos importados nas lojas. Seria o fim.

Foto: Fernando DK/Democratize

Claro, esse grupo articulado de empresários se esqueceu de mencionar que quem incentivou o mercado de consumo no Brasil foi justamente o nosso Chavez, o ex-presidente Lula. Em seu auge como presidente, o sucesso do petismo era o sucesso dos empresários. Compre um novo fogão nas Casas Bahia. Compre um novo carro com IPI zero. Agora o pobre pode ter uma TV de plasma em casa, independente de não conseguir dar uma educação pública de qualidade para os seus filhos, ou passar por uma fila de longa espera no SUS, ou viver em uma comunidade atormentada pela violência policial e pelo racismo.

Não. A direita conservadora não pode colocar a chave do sucesso da última década no colo do petismo.

Então veio a crise. E com ela conseguiram enterrar o petismo, que mesmo vivo não parece ter previsão para sair do coma ideológico.

E com a crise, veio o impeachment. As manifestações, a lógica da luta de classes. “Vocês querem dividir o Brasil entre pobres e ricos”. Se nas manifestações contra Dilma na Avenida Paulista não havia classes D e E, tanto faz, a revolta é legítima. Só pessoas brancas. Maioria homens com mais de 40 anos. Tanto faz. Quem divide o Brasil não são eles, e sim o petismo.

E foi assim até Dilma cair. Em seu lugar, um homem branco com mais de 40 anos. E claro, rico.

E o que ele decide fazer? Cortar os gastos públicos.

Faz parte do roteiro. Governo populista sai de cena, governo neoliberal assume.

E com o neoliberalismo vem a luta de classes. Mas calma, agora ela vem com uma nova roupagem. Não é a mesma luta de classes a qual os grupos conservadores tanto falaram lá trás. Essa é diferente. É necessária.

A PEC 241 é exatamente isso. Uma tentativa clara de “dividir o Brasil” entre quem pagará pela crise e quem irá se dar bem com ela. No caso, nós pagamos o preço. Já os empresários que tanto lucraram com a sociedade de consumo promovida pelo ex-presidente Lula, eles continuarão lucrando. Mas desta vez, não existe troca.

Economistas e especialistas já questionaram o novo governo: se existe um cenário de crise onde todos iremos arcar com as consequências, por que não então lançar a PEC 241 e ao mesmo tempo taxar as grandes fortunas? E não se trata de apenas um questionamento dos intelectuais. A própria classe trabalhadora se questiona sobre isso todos os dias. Afinal, a maioria pode não ser politizada o suficiente para entender o que significa a PEC 241, mas é o mesmo roteiro novamente: o país quebra, e quem paga por isso? Nós.

O presidente Michel Temer (PMDB) já percebeu os questionamentos. Como todo bom homem branco, velho e rico, fez aquilo que faz de melhor: enrolou.

“Essas críticas (sobre o ajuste fiscal recair sobre os mais pobres), penso eu, não tem procedência, porque na verdade nós vamos caminhar muito ainda, não sabemos o que vamos fazer no futuro”, disse em entrevista para a BBC Brasil.

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Basicamente é aquele mesmo discurso já adotado pelos grupos conservadores em outros temas na sociedade: “Primeiro tiramos a Dilma, depois nos preocupamos com o restante”; ou “Primeiro apoiamos a PEC 241, depois nos preocupamos em discursar contra os gastos dos políticos, afinal agora nós somos parte disso e não precisamos de dor de cabeça no momento” (não é, MBL?)

Os ricos não pagarão pela crise. Não por acaso, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, é um dos idealizadores da PEC 241. Não por acaso, esse projeto recebe um enorme lobby midiático em sua defesa.

No final das contas, eles querem dividir o Brasil. É a luta de classes mais uma vez.

Mas agora, com nomes diferentes: ajuste fiscal, reforma trabalhista, reforma na previdência, corte de gastos públicos, modernização do trabalho, reforma no ensino médio, etc.

O nome mais coerente para todas essas iniciativas seria: “99% paga o pato enquanto 1% se salva da crise”. Mas ai seria muito óbvio, né?

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