Na noite desta sexta-feira, três dos sete policiais militares envolvidos na chacina de Osasco do ano passado foram soltos. A série de…

Chacina de Osasco: bandido bom é bandido preso, menos se for policial

Chacina de Osasco: bandido bom é bandido preso, menos se for policialNa noite desta sexta-feira, três dos sete policiais militares envolvidos na chacina de Osasco do ano passado foram soltos. A série de…


Chacina de Osasco: bandido bom é bandido preso, menos se for policial

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

Na noite desta sexta-feira, três dos sete policiais militares envolvidos na chacina de Osasco do ano passado foram soltos. A série de assassinatos levou medo e temor para as comunidades atingidas, e parece não ter fim.

Bandido bom é bandido morto. Esse é o “dito popular” da velha classe média, em decadência moral e política. O ideal, no caso, seria “bandido bom é bandido preso”. Mas para o Estado e para essa própria velha classe média, esse não é o caso se o bandido e o assassino for policial militar.

O Democratize acompanhou incansavelmente durante o ano passado sobre a jornada em busca da justiça, de ativistas e familiares daqueles que foram brutalmente assassinados entre os dias 8 e 13 de agosto. Cerca de 25 vidas foram perdidas, por conta de uma “vingança” feita por policiais militares após a morte de um guarda civil e outro PM. O alvo não foram ladrões, como diz de forma desinformada essa velha classe média, e sim pessoas de família. Pais de crianças que ficaram órfãs, irmãos, filhos, avôs. Segundo pesquisa feita no ano passado, menos da metade dos assassinados não tinham nem ficha policial.

Fomos para a comunidade do Jardim Munhoz, na periferia de Osasco, onde a chacina teve mais foco. A reação da população no bairro era de medo e temor, até mesmo de falar sobre o assunto. Tentávamos conversar com vizinhos e trabalhadores que estavam passando pelo local — sem sucesso. A dona de um comércio na região conversou conosco, mas sem a possibilidade de gravarmos a entrevista ou até mesmo divulgarmos seu nome. O motivo: medo. Ela nos disse que conhecia dois rapazes que haviam sido mortos em um bar durante a chacina, poucos metros de distância de sua loja.

Segundo ela, eram jovens que não haviam qualquer interesse pelo crime. Acordavam cedo, trabalhavam, e só os via passar no fim da tarde, quando desciam do ônibus — o terminal é logo em frente.

Poucos meses atrás, sete policiais militares haviam sido presos após uma longa investigação da Polícia Civil sobre a chacina. Investigação que sofreu total interferência da própria Polícia Militar e da Secretaria de Segurança Pública, tentando ao máximo atrapalhar o trabalho da Polícia Civil.

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

Desde então, parece que enfim a comunidade no Jardim Munhoz poderia ter paz. Poderiam enfim ter encontrado algum sinal de justiça, em uma sociedade que os enxerga como invisíveis.

Mas tudo isso mudou nesta semana.

Três policiais que haviam sido presos por suspeita na participação da chacina foram soltos do Presídio Militar Romão Gomes, na noite desta sexta (12). A revogação foi feita pelo juiz José Alvaro Machado Marques, da Quarta Auditoria Militar do TJM (Tribunal de Justiça Militar) de São Paulo. Segundo informações, o motivo da libertação foi o fato de a Corregedoria da PM ainda não ter concluído a investigação contra os policiais suspeitos, tendo então solicitado ainda mais prazo na Justiça Militar para seguir com a apuração.

Mais uma prova da ineficiência de termos em pleno século XXI uma polícia que atende sob jurisdição militar.

Policiais envolvidos em crimes devem ser investigados sob justiça comum, afirmaram diversos especialistas em segurança pública ao redor do mundo. A própria Organização das Nações Unidas já destacou que a desmilitarização da Polícia Militar no Brasil é um dos passos mais importantes para que tenhamos uma condição de segurança mais elevada, levando progresso até mesmo na condição de trabalho e treinamento dado aos policiais militares.

Enquanto a velha classe média, rancorosa e alienada em uma versão de “American Dream” que simplesmente não existe — e nunca existiu, continua defendendo cegamente criminosos dentro de uma instituição que deveria proteger toda a população, a maioria da população que mora na periferia continuará sofrendo com o temor de velhas chacinas se replicarem em novas ondas de assassinato, em um revanchismo digno de máfias e clãs terroristas.

Apenas uma prova de que a chamada “guerra ao tráfico”, defendida por diversas gestões estaduais em São Paulo — de Quércia até Geraldo Alckmin — é pura ficção, onde quem morre são os jovens negros da periferia, e até mesmo seus soldados, que são venerados pela velha classe média e pelo Estado até a página dois, quando depois perdem sua utilidade e se tornam empecilhos políticos.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on February 14, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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