Destaque de chão. Foto Bárbara Dias/Democratize

Carnaval de resistência na passarela popular do samba carioca

Quando chega o carnaval no Rio de Janeiro, a maior parte dos holofotes, câmeras e atenção voltam-se para a Marquês de Sapucaí, palco principal onde acontecem os desfiles das escolas de samba da cidade. O que poucos sabem é que no subúrbio do Rio de Janeiro, existe outra passarela do samba, onde o que se vê é um carnaval de resistência e verdadeiramente popular.

Na Estrada Intendente Magalhães, perto de bairros consagrados pela presença de grandes escolas de samba como as campeãs do carnaval de  (2017) Portela e Império Serrano. Ali próximo a Madureira e Oswaldo Cruz, existe uma passarela, popular, onde desfilam blocos de enredo e escolas do grupo de acesso, das séries (B, C, D e E).

Na chamada “passarela do povão”, não se cobram ingressos para que se assistam a esses desfiles, as pessoas se aglomeram em arquibancadas mambembes, onde escolas de baixo orçamento, põe um carnaval visceral na rua, de resistência, e longe de toda riqueza e pompa que se tornou o “maior espetáculo da terra”, na Marquês de Sapucaí.

Comissão de frente da escola. Leão de Nova Iguaçu. Foto: Wagner Maia/Democratize

Este ano em específico, onde se viu no Sambódromo, vários acidentes com carros alegóricos das escolas Paraíso do Tuiuti e Unidos da Tijuca, dentre eles profissionais da imprensa no primeiro e destaques no segundo, deixando dezenas de feridos, alguns em estado grave. Viu-se que a espetacularização do carnaval chegou a um grau máximo, sobrepondo-se inclusive a vida, pois, apesar da gravidade dos acidentes, a ordem era de que após o socorro das vítimas o presidente da Unidos da Tijuca mencionou que, os desfiles não fossem interrompidos, e assim aconteceu.

Há alguns anos acompanhamos e registramos esses desfiles na Estrada Intendente Magalhães, e consideramos esse desfile verdadeiramente popular, pois, subverte a ordem atual, dos desfiles das escolas do grupo especial, que em muitos casos deixam de brincar, em detrimento de um desfile técnico, onde não mais se brinca, mas busca-se a obrigatoriedade de cumprir os quesitos para se vencer o carnaval…  

Pessoas tomam a passarela do povão. Foto: Bárbara Dias/Democratize

No carnaval de resistência da estrada Intendente Magalhães, da baiana ao passista, do mestre sala ao ritmista, da porta bandeira a velha guarda, todos ali desfilando por amor a escola e ao samba, sob a atenção de pessoas que lotam as arquibancadas.

E mesmo nos desfiles das escolas mais humildes como, por exemplo, as do grupo E, que não recebem qualquer tipo de subvenção (verba) para desfilarem a presença do público é sempre marcante.

Mesmo com a pouca estrutura, os integrantes das escolas se arrumam numa quadra e ao esquenta da bateria, pasmem, acontece em frente e uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), e os carros alegóricos, após os desfiles ficam nas ruas do entorno de onde ocorre o desfile. Após os desfiles a rua é tomada por crianças brincando de  confetes, serpentinas e espuma e as pessoas transitam livremente.

Mestre Sala e Porta Bandeira. Bloco Unidos de Laureano. Foto: Wagner Maia/Democatize

Essa reportagem é um convite a essa reflexão, de o quão distante da origem do carnaval está o grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro, e o quanto os desfiles de resistência do carnaval dos grupos de acesso, podem nos ensinar o retorno, antes que seja tarde demais.

A resistência a um carnaval de raiz, que leva em consideração a comunidade e a periferia, bate de frente ao carnaval “nutela”, expressão utilizada para mangar pessoas que não são comprometidos com a história da escola e lugar. A história se faz de resistência e a Intendente Magalhães é a prova viva desse emaranhado social chamado carnaval.

— Colaborou com a reportagem: Wagner Maia

Veja mais fotos dos desfiles em nossa galeria:

Carnaval De Resistência Na Passarela Popular Do Samba Carioca

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