A “caça às bruxas” contra a cultura na Turquia, após a fracassada tentativa de golpe militar, chega com muito mais força que no Brasil, com…

Cantora tem shows cancelados por não apoiar Erdogan na Turquia

Cantora tem shows cancelados por não apoiar Erdogan na TurquiaA “caça às bruxas” contra a cultura na Turquia, após a fracassada tentativa de golpe militar, chega com muito mais força que no Brasil, com…


Cantora tem shows cancelados por não apoiar Erdogan na Turquia

Foto: Umit Bektas/Reuters

A “caça às bruxas” contra a cultura na Turquia, após a fracassada tentativa de golpe militar, chega com muito mais força que no Brasil, com o interino Michel Temer. Apresentações de uma cantora foram canceladas por ela ter criticado o comício de apoio a Erdogan; mais de 6 mil professores universitários perseguidos ou afastados do cargo.


Por Manuel Martorell*

Sila Gencoglu é uma das cantoras pop mais famosas da Turquia, e seus shows atraem milhares de jovens em cada verão. Perguntaram a Sila, quando foi convocado o comício em Istambul contra o golpe de Estado e a favor da democraci,a se tinha intenção de ir. A estrela pop turca disse que, sem dúvida, estava contra o golpe de Estado, mas que preferia “ficar à margem de semelhante show”. Em poucas horas, começou a receber insultos nas redes sociais e quase de forma imediata foram cancelados concertos programados para Ancara, Kayseri, Bursa, Istambul, e outras cidades.

De acordo com o comunicado emitido pela Câmara de Istambul, a simples comparação da concentração popular contra o golpe de Estado com um show já era motivo mais que suficiente para romper o contrato com Sila Gencoglu; em termos muitos semelhantes expressava-se, segunda informa a rede Bianet, a “Fundação para a Cultura, as Artes e o Turismo” de Bursa, dependente deste importante município, com quase 2 milhões de habitantes e situado, tal como Istambul, junto ao mar de Mármara.

Sila, depois do cancelamento dos shows, disse estar em “estado de choque” porque tinha deixado bem clara a sua oposição ao golpe, mas também à manipulação política dos sentimentos populares, convertendo uma concentração de apoio à democracia num ato de adesão à política autoritária de Erdogan.

O caso de Sila é só um exemplo, ainda que o mais marcante, devido à popularidade da cantora, do clima de “caça às bruxas” que se vive na Turquia depois da intentona golpista de 15 de julho. Nenhum setor crítico da política de Erdogan está livre da campanha de neutralização de qualquer forma de oposição, agora com a desculpa de limpar o aparelho do Estado de qualquer vestídio gulenista, movimento islamista moderado dirigido por Fethullah Gulenque, acusado pelo governo de Erdogan de ter instigado a intentona golpista.

Na Educação, por exemplo, a situação é ainda pior.

O Conselho do Ensino Superior acaba de anunciar que o número de professores universitários investigados ou afastados dos seus postos chega a 6.792. Em alguns casos, uma entrevista, uma conversa telegônica com Fethullah ou ter livros seus é motivo suficiente para ser incluído na lista.

Por exemplo, Candan Badem, do Departamento de História da Universidade de Tunceli, é perseguido hoje por ter lido um livro de Gulen para seus estudantes, onde tinha também numerosas obras sobre comunismo, marxismo e anarquismo. Segundo explicou Candan à rede Bianet, esse único livro de Fethullah Gulen havia sido utilizado para fazer trabalhos críticos ao movimento deste antigo aliado de Erdogan, atualmente exilado nos Estados Unidos.

Os Professores pela Paz, centenas dos quais já tinham sido expulsos da universidade antes da intentona golpista, recordam que a escalada autoritária de Erdogan e as depurações na universidade vêm de longe e que agora apenas se deu um salto mais amplo na mesma direção.

Alguns destes professores, que propunham acabar de forma negociada com a guerra no Curdistão, já foram processados por graves delitos, como ocorreu com Mustafa Sener, professor de ciências políticas da Universidade de Mersin, acusado de propaganda terrorista, incitamento ao ódio e manifestação ilegal. Mustafa Sener, como muitos outros professores, não ficou só sem trabalho, vetado indefinidamente em todas as universidades da Turquia, como enfrenta um pedido de acusação pública de 14 anos de prisão. Só na sua universidade há outros 20 professores em situação semelhante.

E o mesmo se repete com a oposição política.

Com um Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata e kemalista) amordaçado e aterrorizado pelas massas que Erdogan lançou na rua, e com um Partido da Ação Nacional (MHP, de extrema-direita) cada vez em maior sintonia com o nacionalismo de Erdogan, agora quem é o alvo das perseguições é o pró-curdo Partido Democrático dos Povos (HDP), o terceiro grupo dentro da Assembleia Nacional Turca, ao qual começou a ser aplicada a nova lei que permite levantar a imunidade parlamentar dos deputados.

Os primeiros da lista foram Selahattin Demirtas, co-presidente e líder indiscutível do HDP, e o conhecido parlamentar por Ancara, Sirri Surreyya Onder, um dos que iniciou o movimento da praça Taksim em 2013. Para ambos são pedidos cinco anos de prisão por “propaganda de organização terrorista”, ainda que contra Demirtas existam outros 93 processos com dois pedidos de prisão perpétua e mais 500 anos de prisão por vários delitos.

Dezenas de sedes do HDP foram assaltadas pela polícia numa clara tentativa de amedrontar o único partido parlamentar que não se dobrou a Erdogan e que denunciou, tanto o golpe de Estado, como o contragolpe do governo. As sedes foram arrasadas sem qualquer ordem judicial, destruindo mesas e cadeiras, instalações e bibliotecas, como ocorreu na sede do distrito de Beyoglu, onde todos os livros, com exceção da grande Enciclopédia da História Otomana, foram atirados para o chão, numa forma de atuar que lembra a “noite dos cristais” do nazismo hitleriano.


Publicado originalmente no site espanhol Cuarto Poder

By Democratize on August 19, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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