Terça-feira, começo de tarde em São Paulo. A alguns quarteirões do viaduto Jacareí, no centro, beats de música eletrônica disputavam decib…

Câmara condena LGBTs a outra década de invisibilidade

Câmara condena LGBTs a outra década de invisibilidadeTerça-feira, começo de tarde em São Paulo. A alguns quarteirões do viaduto Jacareí, no centro, beats de música eletrônica disputavam decib…


Manifestação do lado de fora da Câmara Municipal em São Paulo — Foto: Reinaldo Meneguim | Democratize

Câmara condena LGBTs a outra década de invisibilidade

Terça-feira, começo de tarde em São Paulo. A alguns quarteirões do viaduto Jacareí, no centro, beats de música eletrônica disputavam decibéis com orações, despendidas a plenos pulmões do alto de um carro de som. Era o dia da votação do texto final do Plano Municipal da Educação na Câmara dos Vereadores, projeto que define as diretrizes a serem adotadas pela educação no município durante um período de dez anos.

Os embates entre setores cristãos conservadores e movimentos LGBT nascem de uma discordância semântica. O texto defendido por militantes pró-equidade inclui entre as metas da educação a promoção da “igualdade de gênero e de orientação sexual”. Segundo manifesto da rede Respeito se aprende na escola, lido em partes durante a manifestação, a presença da questão de gênero no PNE é essencial para evitar que “alunos afeminados sejam espancados pelos colegas, que uma criança transgênera saia da escola por ser humilhada pelos professores ou uma aluna masculinizada seja abusada por seus colegas, homens”. Para isso, os educadores deveriam ser orientados a não ensinarem valores misóginos, machistas ou LGBTfóbicos para os alunos.

Por outro lado, representantes de comunidades cristãs reivindicam a retirada da “ideologia de gênero” do texto. Para estes grupos, a introdução dos debates sobre gênero e orientação sexual na escola atenta contra a moral e tem por objetivo a destruição do modelo tradicional de família. “O Brasil é o país com mais católicos do mundo. Nós somos maioria. E não podemos permitir que essas minorias roubem nossos direitos. Nós também pagamos impostos!”, bradava um homem no carro de som, para o delírio de um público composto em sua maioria por mulheres, jovens e seminaristas, louvando a um Deus que criou “Adão e Eva, não Adão e Ivo”.

Separados por bem mais que um gradil, os grupos ocuparam a frente da Câmara desde muitas horas antes do pleito. Ativistas pelos direitos de minorias, siglas sindicalistas e movimentos estudantis coloriam a rua com bexigas roxas e laranja, bandeiras de arco-íris e flâmulas vermelhas, que se agitavam ao som de discursos pró-equidade de gênero e funks de Anitta e Valesca Popozuda. Enquanto isso, uma massa coreografada trajando camisetas com os inscritos “Sou Família” e “Não ao Gênero” se agitava ao som de música gospel e discursos em defesa da ‘família tradicional brasileira’ — leia-se pai, mãe e filhos, todos cisgêneros e heterossexuais.

Foto: Reinaldo Meneguim | Democratize

Também em defesa da família estavam as Mães pela Diversidade, que marcaram presença para lembrar que em diversas casas, a organização diverge do tradicional — mães ou pais solteiros, filhos criados por avós, casais homoafetivos — e nem por isso deixam de ser famílias. Alertando para o preconceito praticado dentro das instituições de ensino, uma estudante de 15 anos questionou a abordagem de funcionários de sua escola. “Um dia eu estava beijando uma garota e os seguranças nos separaram, alegando que havia crianças por perto. Ao mesmo tempo, vários casais hétero namoravam e nada foi feito com eles. Qual é o problema de eu expressar meu amor?”.

Se do lado de fora da Câmara a disputa sonora parecia equiparada, dentro, as discrepâncias eram mais evidentes. No início da sessão, durante a fala de um vereador contrário às questões de gênero, militantes pró-equidade se manifestaram, sendo silenciados sob ameaça de expulsão. Porém, quando representantes cristãos interromperam a fala de Toninho Vespoli, um dos únicos políticos presentes favorável à manutenção da questão de gênero no texto, nenhuma atitude foi tomada.

Foto: Reinaldo Meneguim | Democratize

A disparidade das ações correspondeu ao resultado da sessão: apenas quatro vereadores votaram em defesa da equidade. Na semana do Dia Nacional da Visibilidade Lésbica (29/08), aqueles que deveriam prezar por melhorias na sociedade reforçam a exclusão da comunidade LGBT dos espaços públicos. Negando o respeito à diversidade, negam também o direito de lésbicas, homossexuais, bissexuais e pessoas transgêneras à educação, saúde e serviços essenciais. Reforçam a marginalização desta população, condenada por 44 votos a mais dez anos de invisibilidade.


Reportagem por Giovana Meneguim. Revisão: Nathan Rodrigues

By Democratize on August 27, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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