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Calma! Bolsonaro não é Donald Trump – ainda

Após a vitória do conservador e republicano Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, não poderia faltar o temor de alguns brasileiros sobre a possibilidade do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) ganhar ainda mais força diante do avanço da extrema-direita no nosso vizinho do norte. Mas calma. Bolsonaro não é Donald Trump – ainda.

Afinal qual a diferença entre Bolsonaro e Trump?

São muitas.

O republicano e futuro presidente dos Estados Unidos, por exemplo, contou com uma verdadeira máquina de fazer dinheiro por trás de sua campanha. E o dinheiro veio… dele mesmo. Para contrapor a versão da grande mídia norte-americana, Trump não precisou descartar propostas e visões polêmicas, afinal, ele não precisou se preocupar com o visionismo de banqueiros e mega-empresários sobre pautas específicas.

Já com o deputado brasileiro de extrema-direita a situação é bem diferente. Bolsonaro, apesar de ter a sua saudável vida financeira nas custas do Estado por cerca de 20 anos, nunca foi sequer um homem de negócios. Ex-militar, demorou décadas para Bolsonaro se adaptar ao discurso de livre mercado – algo que, aliás, decepcionou parte dos seus seguidores, principalmente ao votar a favor da PEC 241 na Câmara. No Brasil, o radicalismo de Bolsonaro afasta investidores porque é uma rota de saída da política tradicional e principalmente de negócios. A imagem do nacionalista com ideias xenófobas, homofóbicas e extremamente conservadores afasta os bilionários de Bolsonaro.

Mas, você pode se perguntar: o tucano João Doria não foi eleito com facilidade e apoio do empresariado? É diferente. Doria, além de se apresentar como um empresário bem-sucedido (o que ninguém sabe de fato se é verdade ou não), nunca abraçou ideias propriamente ditas como de extrema-direita. Ele se posiciona em defesa do livre mercado, e com isso utiliza argumentos contra movimentos sociais e minorias mais pobres – mas ao mesmo tempo nunca sequer mencionou a questão LGBT, ou sobre racismo, máquina de repressão do Estado, etc. É o completo oposto da direita representada por Bolsonaro.

Em 2002, Lula precisou abrir mão de várias antigas ideias para contar com a solidariedade e apoio do mercado, para então se eleger presidente pelo Partido dos Trabalhadores. Existe sim, a possibilidade de Bolsonaro repetir a mesma estratégia, mas do outro lado ideológico da moeda. Ao mesmo tempo, isso prejudicaria sua imagem de “outsider” que tanto insiste se auto-proclamar (apesar de fazer parte da política por 20 anos e ter sido um militar por menos da metade disso, sem mencionar seus filhos que também entraram na vida política). É um risco.

Foto: Fotos Públicas
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Por outro lado, uma das plataformas de Trump foi justamente a questão do trabalho nos Estados Unidos. Especialistas e liberais o consideram muito “protecionista” ao defender a ideia de trazer os empregos das multinacionais norte-americanas de volta para os Estados Unidos, tirando empregos de países subdesenvolvidos como China, Índia e América Latina no geral. Apesar de ser um empresário bilionário, Trump se demonstrou contra o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, o TTIP, tão defendido pelos liberais e por empresários do Ocidente. A sua opositora democrata, Hillary Clinton, por exemplo, defendia o acordo.

Vale lembrar: os chamados liberais brasileiros da mídia, como o colunista da Revista Veja, Reinaldo Azevedo, e os “jornalistas” e “especialistas” do programa da Globonews, Manhattan Connection, se colocaram contra a campanha de Trump nos Estados Unidos por achar o republicano “intervencionista demais na economia”.

Apesar de ter abraçado recentemente a ideia de livre mercado, Bolsonaro perde apoio popular de seus seguidores mais antigos ao se ver abraçado com um banqueiro do Itaú em 2018. Poderia, em tese, ganhar um pouco menos de desconfiança de liberais como Azevedo e da mídia brasileira em geral, mas seria uma aposta arriscada, que tiraria sua imagem de “nacionalista” que defende primeiramente os interesses do seu país.

Por mais que Bolsonaro tenha se animado com a vitória de Trump, e achado que isso cabe como uma porta para sua campanha em 2018 no Brasil, ele ainda precisa definir muito bem quem será “o Bolsonaro de 2018”.

Porque Bolsonaro não é Trump. Ainda. Mas em tempos de crescimento da extrema-direita, de perda da confiança em partidos de esquerda, e principalmente na inexistência de fé nas instituições democráticas e no sistema político em geral, tudo é possível.

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