Vencedor das primárias desta terça (09) no estado de New Hampshire pelo Partido Democrata, o socialista Bernie Sanders não teria a menor…

Bernie Sanders não teria a menor chance se fosse candidato no Brasil

Bernie Sanders não teria a menor chance se fosse candidato no BrasilVencedor das primárias desta terça (09) no estado de New Hampshire pelo Partido Democrata, o socialista Bernie Sanders não teria a menor…


Bernie Sanders não teria a menor chance se fosse candidato no Brasil

Foto: Reprodução/Tumblr

Vencedor das primárias desta terça (09) no estado de New Hampshire pelo Partido Democrata, o socialista Bernie Sanders não teria a menor chance no Brasil. Apesar de estar longe do ideal, a democracia interna dos partidos políticos nos EUA possibilita tal cenário. Enquanto no Brasil, fica meio difícil de imaginar um candidato com o discurso de Sanders no PT, PSDB ou PMDB.

Imagine só um candidato que se recuse a receber financiamento privado de campanha, apoiando um discurso direto sobre a taxação de grandes fortunas e maior quantidade de impostos para a classe mais rica do Brasil, além de defender reformas sociais que fortaleceriam o Estado de Bem Estar Social, batendo de frente com interesses privados. Também seria a favor de “pautas tabus”, como aborto, a questão LGBT e da maconha, e contra a violência policial. Agora imagine esse candidato no Partido dos Trabalhadores.

Conseguiu?

Nós não. E por um motivo bem claro: a “democracia interna” dos grandes partidos políticos no Brasil não existe. O filiado não tem poder de decisão para escolher qual deve ser seu candidato para a presidência, da mesma forma que verdadeiros “clãs políticos” já historicamente formalizados impedem esse tipo de ação da base.

Não por acaso, estamos falando da possibilidade do ex-presidente Lula voltar pra cena em 2018 — ao invés de procurarmos novas alternativas políticas que saibam lidar com a atualidade e aplicar uma ideologia específica, sem necessitar de alianças esdrúxulas que impedem o progresso e desenvolvimento do programa apresentado durante as eleições.

O senador norte-americano Bernie Sanders, agora pré-candidato para a presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, parece ser uma verdadeira lição viva sobre isso.

Sanders lançou sua pré-campanha no final do primeiro semestre de 2015. Desacreditado pela grande mídia e pela gigante maioria do seu próprio partido, o senador propôs uma “revolução política”, baseada na participação da base mais jovem e ativa do Partido Democrata. Do outro lado, a grande favorita Hillary Clinton, segue o padrão dos geralmente escolhidos candidatos no Brasil: super financiamento de corporações e empresas, propostas baseadas nos interesses do establishment, contando com o apoio de boa parte dos “clãs internos” de seu partido no Congresso e na real politik.

Mas a visibilidade da pré-campanha em um partido como o de Sanders acabou possibilitando uma grande articulação política, muito mais interessante e complexa que a de Barack Obama em 2008. O senador de Vermont é auto-declarado socialista, com um discurso muito mais “radical” que o atual presidente teve em sua primeira eleição, quase 8 anos atrás.

O resultado disso tem sido uma verdadeira virada de mesa. Na semana passada, nas primárias de Iowa, o socialista conquistou um empate técnico com Hillary Clinton, quando a maioria das pesquisas decretavam uma vitória consideravelmente larga para a ex-primeira dama. Ontem, em New Hampshire, Sanders venceu Clinton com facilidade: com 92% dos votos apurados, o socialista tinha 60% enquanto Clinton contava com apenas 38%.

O empate técnico e a vitória esmagadora desta terça-feira podem influenciar diretamente nos próximos estados. E isso é uma grande vitória para a democracia interna dos partidos políticos nos Estados Unidos.

É difícil imaginar, por exemplo, que o Partido dos Trabalhadores permita algo parecido com isso no Brasil. E isso é lamentável.

O PSDB, por incrível que pareça, conta com primárias para a presidência da república. Claro, primárias que são completamente controladas por facções internas do partido, e pouquíssimo divulgadas, dificultando a possibilidade de um outsider aparecer e ganhar destaque.

Candidatos com o discurso de Sanders já apareceram no Brasil, e geralmente se encontram nas pequenas siglas de esquerda como o PSOL. Quem não se lembra do saudoso Plinio de Arruda em 2010? A própria Luciana Genro, apesar de ser ainda mais moderada que Sanders, contava com um discurso muito similar quando o assunto era economia e desigualdade social. A diferença de Sanders para Genro é que o PSOL não conta com a mesma visibilidade que o Partido Democrata nos Estados Unidos.

Isso não significa, de forma alguma, que o sistema democrático nos Estados Unidos é perfeito.

Essa própria “democracia interna” dos partidos políticos é variável. Vale lembrar que esse mesmo sistema que trouxe Sanders para os holofotes, também permitiu a ascensão política de conservadores e reacionários como Donald Trump e Ted Cruz, pelo Partido Republicano. Ou seja, tanto um socialista com um discurso contra Wall Street pode ganhar visibilidade quanto um conservador anti-imigração. É um risco.

Além disso, o sistema de dois partidos nos EUA já vem se mostrando desgastado nas últimas décadas, principalmente pelo fato de não contar com pré-candidatos que combatessem o establishment. Vale lembrar que Sanders, apesar de ser do Partido Democrata, sempre se considerou “independente” — ou seja, pertencendo a nenhuma facção interna do partido.

Muitos críticos de esquerda no Brasil provavelmente não defendem o formato de primárias em partidos políticos. Faz parte do “verticalismo” enraizado nas esquerdas latino-americanas. Mas a base disso tem mudado, pelo menos nas ruas. O crescimento de movimentos como o dos secundaristas e o próprio Passe Livre fortalece a ideia de promover a participação política e apostar em decisões coletivas, de forma horizontal.

O que nos resta agora é esperar o destino das primárias nos Estados Unidos, e se preparar novamente para mais uma novela no Brasil em 2018.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on February 10, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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