A frase do título é de ninguém menos que Donald Trump. E faz sentido. A esquerda norte-americana ficou de frente para uma questão que…

“Bernie apoiar Clinton é a mesma coisa que o Occupy Wall Street apoiar bancos”

“Bernie apoiar Clinton é a mesma coisa que o Occupy Wall Street apoiar bancos”A frase do título é de ninguém menos que Donald Trump. E faz sentido. A esquerda norte-americana ficou de frente para uma questão que…


“Bernie apoiar Clinton é a mesma coisa que o Occupy Wall Street apoiar bancos”

Foto: Justin Saglio/AFP

A frase do título é de ninguém menos que Donald Trump. E faz sentido. A esquerda norte-americana ficou de frente para uma questão que existe na política brasileira desde 2002: vale a pena apoiar um candidato de centro, que utiliza como plataforma os interesses dos mais ricos, para derrotar a direita?


Por Francisco Toledo

A campanha de Bernie Sanders durante as primárias do Partido Democrata nos Estados Unidos foi histórica.

Mobilizou milhões de pessoas, mostrando que é possível realizar uma campanha forte e com ótima estrutura, sem o apoio financeiro de bancos e grandes empresas, através de doações individuais, de cidadãos comuns.

Desde o começo, Sanders foi colocado como um candidato “radical” pelas suas ideias, e por isso, provavelmente a ex-senadora Hillary Clinton teria vida fácil. Erraram.

O senador de Vermont deu muito trabalho. Em determinado momento, chegou a ser cotado como o favorito do partido para vencer as primárias, se não fosse pelos votos dos “superdelegados”.

Bateu de frente com o preconceito e medo irracional em torno do termo “socialista”. Nunca negou sua crença política, sempre afirmando ser um “socialista democrata”, acreditando que é possível unir o combate contra a desigualdade com uma sociedade com forte presença do Estado e as liberdades civis e individuais.

Do seu lado, milhões de jovens, que estavam longe da política por acreditarem que aquilo não os representava. Mostrou que é possível, sim, tentar mudar o jogo dentro da própria instituição. Infelizmente não conseguiu.

Não foi possível derrotar a máquina partidária por trás de Clinton.

E agora, Sanders tinha em suas mãos continuar sua campanha de forma independente, buscando a participação de organizações civis e de movimentos sociais, para concorrer ao cargo mais importante dos Estados Unidos.

Mas não foi isso que aconteceu.

Sanders esteve de frente com um velho dilema da esquerda brasileira: sem chances eleitorais, vale a pena apoiar um candidato de centro, mesmo que ele coloque em prática políticas econômicas que favorecem justamente aquilo que tanto criticamos? Em vários momentos da nossa história a resposta foi “sim”. E talvez pelo mesmo motivo que o senador socialista norte-americano também resolveu pela mesma decisão.

Do outro lado, ninguém menos que Donald Trump. Boicotado pelo próprio Partido Republicano, que o considera um radical de extrema-direita, incapaz de fazer política, o mega-empresário deve concorrer contra Clinton nas eleições do segundo semestre.

Xenófobo, Trump teve ideias consideradas surreais até mesmo para uma velha direita que ainda acredita que Reagan é uma espécie de “deus intocável”. Entre elas, construir um muro separando os Estados Unidos do México, para evitar a entrada de imigrantes ilegais no país. Claro, quem pagaria pela construção desse enorme muro seria o próprio governo mexicano.

O que fazer diante disso? Como combater essa extrema-direita, que tem grande possibilidade de ainda contar com maioria no Congresso?

Imaginem o seguinte cenário: temos Lula (PT), Bolsonaro (PSC) e Luciana Genro (PSOL), com pré-campanhas para a presidência da República em 2018.

A pré-campanha de Bolsonaro começa a crescer em adesão. A de Lula fica encurralada. Genro, que consegue atrair a atenção dos mais jovens, acaba “pegando votos” do candidato petista, tornando possível uma vitória do candidato de extrema-direita. O que deveria ser feito?

É bom deixar claro. Não estamos falando de Aécio Neves, nem de José Serra, que apesar de seguirem uma lógica econômica de direita, a favor do livre mercado, ainda não chegaram ao extremo em políticas sociais. E sim de Bolsonaro, um candidato capaz de colocar em prática sua irracionalidade política, contando ainda com o apoio de um Congresso tão conservador e anti-democrático quanto ele próprio.

Não podemos julgar a decisão de Bernie.

Apesar da frase de Trump fazer sentido (Bernie apoiar Clinton é a mesma coisa que o Occupy Wall Street apoiar bancos), tudo isso só acontece justamente por causa dele.

Sem Trump, o debate seria diferente.

Mas sem Trump, como sobreviveria figuras como Clinton, que dependem de extremistas para manter sua plataforma de centro, em prol do mercado e dos mais beneficiados pelo sistema?


Texto por Francisco Toledo, co-fundador da Agência Democratize e fotojornalista

By Democratize on July 13, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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