Em entrevista ao Democratize, Alexandre Divua relata a militância em Angola, que atualmente vive uma ditadura mascarada de democracia e…

Ativista angolano enfrenta dura realidade do racismo no Brasil

Ativista angolano enfrenta dura realidade do racismo no BrasilEm entrevista ao Democratize, Alexandre Divua relata a militância em Angola, que atualmente vive uma ditadura mascarada de democracia e…


Ativista angolano enfrenta dura realidade do racismo no Brasil

Gustavo Oliveira/Democratize

Em entrevista ao Democratize, Alexandre Divua relata a militância em Angola, que atualmente vive uma ditadura mascarada de democracia e conta como encara o racismo no Brasil.

Divua chegou ao Brasil em 2013 para fugir do estresse causado pelo regime ditatorial angolano e realizar o sonho de continuar os estudos. “Para quem é ativista na Angola não é fácil, é uma coisa meio dura. Eles começam atingir seus familiares, até as pessoas que você mais gosta para ver se atinge você psicologicamente e até fisicamente”, relatou.

Em 1975, a Angola conquistou sua independência e passou a ser governada por Agostinho Neto, que exerceu o cargo até sua morte em 1979. José Eduardo dos Santos sucedeu seu mandato e está na administração do país até hoje. Os desacordos políticos entre os partidos que lutaram pela independência do território angolano desencadearam diversas guerras civis. Somente em 2002 as batalhas chegaram ao fim, entretanto até hoje a população sofre com os vestígios desses conflitos. Além dos milhares de mortos e refugiados, a economia do país está arruinada.

Os únicos a desfrutar das riquezas de Angola são os membros da família do presidente e a elite, que é blindada pelo Serviço de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE). A maioria da população vive na extrema pobreza e privados de recursos básicos como energia elétrica, água potável e comida. Por esses motivos Alexandre e outros jovens militantes, inspirados pela Primavera Árabe, decidiram ir às ruas.

Os protestos começaram em 2011, quando os estudantes passaram a se mobilizar criando grupos de estudos para debates e organizar manifestações pacíficas. Tinham como base o livro ‘’Da Ditadura à Democracia: Uma Abordagem Conceitual para a Libertação’’ de Gene Sharp — acadêmico pacifista americano — . Por conta desta leitura, governo classificou os jovens como ameaça ao estado e dizimou os protestos através do uso constante da repressão policial .

Os ativistas são perseguidos antes e depois dos atos e, por vezes, o desfecho é ainda mais grave – como foram os casos de Alves Kamulingue e Isaías Cassule, ocorridos em 2012. Conhecido por mobilizar a população para ir aos protestos, Kamulingue foi preso pela Unidade da Guarda Presidencial (UGP) e ficou desaparecido. Isaías Cassule, procurou o amigo incessantemente e acabou sendo vítima de uma armação. Alguém se passou por militante que tinha informações sobre o paradeiro de Kamulingue, telefonou para Cassule e marcou um encontro.

No local combinado, Isaías foi capturado, mas um outro amigo que o acompanhava conseguiu fugir. Alves Kamulingue foi executado com um tiro na cabeça após seções de tortura e seu corpo foi abandonado em uma mata nos arredores de Luanda, a capital do país. Isaías Cassule também foi torturado e seu corpo foi deixado próximo ao rio Dande, na província de Bengo, em uma área onde vivem jacarés. ‘’Eu não os conhecia fisicamente, nunca os tinha visto. Mas o Isaías era um dos que mais falava publicamente, eu o ouvia em um programa de rádio. […] Quando escutei falar sobre ele, já estava morto. Mas ainda assim era um amigo, nós tínhamos uma filosofia de vida. Era uma pessoa da luta’’, comentou Alexandre.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

No último dia 8, o ativista Nito Alves, foi condenado a 6 meses de prisão por injúria ao tribunal. O jovem é um dos 17 ativistas que no ano passado foram acusados de tramar atos preparatórios de rebelião e atentado contra o presidente José Eduardo dos Santos. Durante o depoimento de seu pai, Fernando Baptista (que se negou a dar informações sobre o filho), o jovem afirmou não temer por sua morte e acusou o julgamento de ser “uma palhaçada”. Até o momento, Nito é o único réu que foi condenado pelo caso. Para Alexandre, a audiência não passa de uma farsa. “Começaram a apresentar provas falsas contra os ativistas. O juiz quer fazer papel de ministério publico, a procuradora se recusa a mostrar o rosto nas seções fazendo-se presente na sala com uma peruca que cobre todo o rosto. Nem todos os familiares dos presos podem assistir os julgamentos. A imprensa e os representantes da União Europeia estão sendo impedidos de entrar pra assistir aos julgamentos”, denuncia.

“Ser negro no Brasil é uma questão de muita resistência”

Apesar da recepção calorosa dos amigos brasileiros e de ter ingressado no curso superior de pedagogia, Divua sentiu na pele os reflexos do racismo, que os negros brasileiros sofrem diariamente, somado ao agravante da xenofobia. Para ele, o Brasil vende uma imagem de um país acolhedor, com oportunidades de trabalho e estudo, porém o cenário encontrado é bem diferente. “Somos surpreendidos quando chegamos aqui, porque estrangeiro é bem-vindo quando é branco. Se é preto e africano as pessoas dizem que queremos tomar o lugar delas nas universidades e nos beneficiar das cotas. Usam palavras pejorativas, carregadas de racismo e xenofobia, porque nos veem como ameaça”, relatou.

Divua passou por uma situação constrangedora no condomínio onde vive, ao voltar da universidade com um grupo de amigos brancos. Todos entraram no local, exceto Alexandre que foi barrado pelo segurança alegando que ele não residiria no prédio. “Depois de explicar a situação eu consegui entrar e no dia seguinte procurei a síndica. Ela tentou me convencer que não era racismo, mas isso é um problema, não podemos minimizar e devemos combater. O povo negro é marginalizado e vive uma realidade muito dura”.

Dando continuidade a sua militância na Angola, Divua aderiu ao movimento negro da Educafro logo que chegou ao Brasil. Entretanto, ele acredita que as organizações devem ser mais unidas e atuantes, traçar estratégias para pautar a questão racial nas universidades e demais espaços, que na maioria dos casos são ocupados por brancos. “Eu, como alguém que luta por liberdade e justiça, preciso lutar para melhorar esse cenário. Negro é resistência e tem que falar, porque se um negro é ofendido, todos são. Matou um negro, matou um pedaço de mim”, reforça.

Os casos de racismo, violações contra a juventude, mulheres e população negra no geral são denunciados pelo Disque 100, um serviço coordenado pelo Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, por meio da Secretaria de Direitos Humanos. Em 2015, foram registradas 137.516 acusações de desrespeito aos direitos humanos, sendo 1.054 por discriminação racial. De acordo com informações da pasta, as queixas são analisadas e encaminhadas para os órgãos competentes para adoção de medidas cabíveis.

Ainda segundo o relatório da Anistia Internacional, o Brasil é o país onde mais ocorrem assassinatos, entre os quais 77% são jovens negros de 15 a 29 anos. Segundo Alexandre, quando um órgão importante divulga um dado alarmante como este, precisa haver uma preocupação e os governantes tem de perceber que algo está mal. “Os administradores colocam uma peneira no sol para tampar esse racismo, dizendo que no Brasil todos são iguais, mas não somos, os brancos tem privilégios. Ser negro no Brasil é uma questão de muita resistência”, aponta.


Assista ao vídeo produzido pelo Democratize, em entrevista com o ativista angolano Alexandre Divua:


Texto e reportagem por Mariana Lacerda e Carol Nogueira, para o Democratize
Produção do vídeo por Giovana Meneguim, Gustavo Oliveira e apoio de Reinaldo Meneguim

By Democratize on February 15, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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