Pelos prédios do Crusp, correm os casos de violência contras as estudantes que são obrigadas a conviver com seus agressores nos corredores…

Alunas ocupam SAS da USP e exigem soluções para violência contra as mulheres no Crusp

Alunas ocupam SAS da USP e exigem soluções para violência contra as mulheres no CruspPelos prédios do Crusp, correm os casos de violência contras as estudantes que são obrigadas a conviver com seus agressores nos corredores…


Alunas ocupam SAS da USP e exigem soluções para violência contra as mulheres no Crusp

Foto: Alice V/Democratize

Pelos prédios do Crusp, correm os casos de violência contras as estudantes que são obrigadas a conviver com seus agressores nos corredores e espaços comuns, devido a omissão e morosidade da Superintendência de Assistência Social (SAS) da Universidade de São Paulo.

O caso de agressão contra uma estudante da pós-graduação, que aconteceu na última segunda-feira, 4, no Crusp (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo) foi o estopim para que as alunas da moradia ocupassem a sede da Superintendência de Assistência Social (SAS) da USP para exigir que os dois agressores, também da pós-graduação, sejam expulsos.

Na tarde de ontem (6), os alunos participaram de uma reunião com Waldyr Jorge, surperintendente do SAS. Na ocasião foram apresentadas as propostas de solução para as constantes violências sofridas pelas mulheres no Crusp, como expulsão imediata dos agressores, abertura e reabertura dos processos de ataque às mulheres da moradia com encaminhamento judicial, construção de uma comissão autônoma formada por alunas, funcionárias e professoras para atender e acolher as ações de violência, entre outras.

Durante toda a reunião, as alunas questionaram a negligência do SAS perante os casos. O procedimento burocrático inclui receber a vítima com boletim de ocorrência, fazer o remanejamento da pessoa que foi agredida para outro apartamento e abrir sindicância para ouvir os envolvidos, com duração entre 60 e 90 dias. Posteriormente, a investigação é encaminhada para uma comissão mista votar uma solução e enviar o processo para a reitoria da Universidade, que é responsável pelo desfecho da ação.

Enquanto aguarda o prazo da investigação, as vítimas convivem com seus agressores pelos corredores da moradia e espaços comuns. De acordo com a administração, não existe autonomia para expulsar o agressor imediatamente. “Eles não ficam no mesmo apartamento, que seria um local de agressão contínua, o agressor ou agredido vão para outro ambiente e obviamente eles se articulam com outras pessoas e evitam se contactar”, justificou Waldyr Jorge.

Para a advogada Mariana Fideles, a USP não faz o resguardo adequado da vítima com essa peculiaridade da moradia. “A institucionalização da Universidade colabora com a não formalização das ocorrências, porque mesmo que a vítima procure o SAS ela não terá uma medida protetiva imediata e eficaz. As mulheres estão se organizando com pequenas ações, na tentativa de proteger as demais alunas como informar quem são os rapazes com histórico de violência”, destaca.

Foto: Alice V/Democratize

Segundo Waldyr Jorge não existe omissão no atendimento e resolução dos casos de agressão, mas sim falta de comunicação das ocorrências. “Nenhum caso que chegou ao conhecimento da SAS deixou de ser apurado. Tem alguns processos que ainda estão em evolução de avaliação e oitiva das pessoas para saber quem está envolvido e ter o direito do contraditório e defesa”, explicou.

Apesar da afirmação de não negligenciar os casos, muitos processos permanecem estacionados e as vítimas sofrem com ameaças e perseguições. Este é o caso de Manuela Garanhani, estudante de letras que teve o apartamento invadido e roubado em 2012 por dois alunos que, atualmente, não têm mais vínculo com a Universidade de São Paulo mas permanecem no Crusp. “Nas férias de 2013 fiz o boletim de ocorrência e fui ao SAS, que abriu sindicância, mas até hoje não resolveu nada. Na época os estudantes foram chamados para depor na delegacia e por isso eu fui ameaçada com um canivete. Coloquei esse adendo no processo, o Waldyr disse que ia solucionar e nada”, relata.

Foto: Alice V/Democratize

Ao final da reunião, ficou acordado que até às 12h de hoje (7/4), Waldyr Jorge deve apresentar um documento em resposta as reivindicações dos estudantes. Enquanto isso, a ocupação do SAS deve permanecer.

Violência contra aluna da pós- graduação causa revolta

Por volta das 23h do dia 4/4, no bloco G do Crusp, uma estudante da pós-graduação foi agredida fisicamente pelo marido e cunhado. Após os gritos ecoarem pelos corredores do prédio, a vítima foi socorrida por outros alunos que imediatamente acionaram a guarda universitária e insistentemente ligaram para o 190. Depois de muito tempo, os envolvidos, duas testemunhas e dois advogados foram para o 91° DP da Polícia Civil.

Chegando na delegacia, teve início o tortuoso caminho percorrido pelas centenas de mulheres vítimas de violência doméstica quando decidem denunciar seus agressores. De acordo com Allyne Andrade, advogada que acompanha o caso, o delegado que os recebeu informou que o atendimento demoraria porque tinham outros casos urgentes na frente. Orientou que eles voltassem para a USP e na manhã seguinte fossem a Delegacia da Mulher registrar o boletim de ocorrência, já que a repartição não funciona no período noturno.

Com clima tenso, o delegado segurou os agressores na delegacia para que a vítima pudesse retirar suas coisas do apartamento. No dia seguinte, a estudante realizou todos os procedimentos na Delegacia da Mulher, sem a presença do marido e cunhado, e agendou uma audiência para medida protetiva. “Existe uma omissão institucional e falha no direito de defesa das mulheres, que recebem tratamento inadequado nas delegacias comuns, porque parece que a violência doméstica é algo menor, que pode esperar e isso desestimula o registro dos casos”, destaca.

Foto: Alice V/Democratize

Segundo Allyne, a USP tem se omitido sistematicamente diante desses casos. Um dos agressores já possui quatro boletins de ocorrência por agressão contra pessoas diferentes no Crusp, todos comunicados a Universidade — que não tomou nenhuma providência.

Para Jaqueline Sales, aluna da Poli e membro da Associação de Moradores do Crusp, a Universidade quer que as mulheres se calem. “Eles querem abafar os casos para não manchar o nome da USP e percebemos que a guarda e a PM estão juntas, porque quando ligamos no 190 ninguém apareceu, mas quando começou a ocupação várias viaturas apareceram”, disse.

Veja mais fotos da ocupação abaixo, por Alice V para o Democratize.


Reportagem por Carol Nogueira, jornalista e colaboradora da Agência Democratize

By Democratize on April 7, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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