Já é fetiche do século XXI demonstrar solidariedade pelas redes sociais quando acontece algo terrível por perto, como ocorreu em Paris…

Alguns motivos para dizer que não somos todos Paris

Alguns motivos para dizer que não somos todos ParisJá é fetiche do século XXI demonstrar solidariedade pelas redes sociais quando acontece algo terrível por perto, como ocorreu em Paris…


Alguns motivos para dizer que não somos todos Paris

Autoridades cercam restaurante que sofreu um dos ataques, na manhã seguinte | Foto: Felipe Paiva/RUA Foto Coletivo

Já é fetiche do século XXI demonstrar solidariedade pelas redes sociais quando acontece algo terrível por perto, como ocorreu em Paris nesta sexta-feira (13). O problema é que apenas a solidariedade não basta. É preciso entender o contexto e todo o drama em torno dele, o que gasta tempo e vai bem além de 140 caracteres. Resumindo: o ataque em Paris é só um episódio de uma novela que parece não ter fim, e deixa rastros em todos os cantos da sociedade.

Primeiramente, não se trata de não repudiar os ataques do Estado Islâmico em Paris na sexta-feira. É algo incompreensível e lastimável assistir centenas de pessoas perderem a vida como ocorreu de forma trágica. São inocentes e civis, crianças, mulheres e idosos, pais de família, que foram vítimas e merecem o mínimo de respeito e dignidade. Mas foram vítimas de que? Por que isso acontece, mesmo depois de 10 anos da Guerra ao Terror promovida pelo governo Bush, com as invasões no Iraque e Afeganistão?

Não somos todos Paris. E vou explicar o motivo disso.

Ao contrário do que muitos pensam, a chamada Guerra ao Terror começou muito antes do 11 de setembro de 2001, quando terroristas da Al Qaeda sequestraram aviões e os jogaram contra as torres gêmeas, tirando milhares de vidas. Ali, foi apenas o começo da Parte 2 dessa novela interminável que já dura três décadas.

Nos anos 80, a União Soviética tentou invadir o país do Afeganistão. Para quem não sabe, em 1978 o Afeganistão se chamava República Democrática do Afeganistão. A revolução surgiu com o objetivo de eliminar os radicais islâmicos, e tornar o país uma república socialista e proclamando um Estado ateísta. Já aplicado, o governo revolucionário determinou a reforma agrária, desagradando as elites rurais do Afeganistão, que tentavam derrubar o governo revolucionário, sendo posteriormente perseguidos e presos pelos comunistas.

A usura (cobrança de remuneração abusiva pelo uso do capital) também foi proibida. Foi uma época em que vários direitos das mulheres foram exercidos, como a igualdade entre os sexos e a introdução do sexo feminino na política. Mas muitos não gostaram disso. E quando digo muitos, me refiro à parte da população afegã, que não tolerava tais avanços relacionados aos direitos humanos, e principalmente a classe política anterior, ligada aos extremistas do Islã, que tinham forte relação com a elite do país. Uma dessas pessoas, era Osama Bin Laden.

Dito isto, em tempos de Guerra Fria, o governo norte-americano visou ali uma oportunidade para enfraquecer a influência soviética ao redor do mundo. Determinados, a partir do governo Carter, os Estados Unidos passaram a financiar e treinar os radicais religiosos contra o governo comunista do Afeganistão, resultando em uma guerra civil que deixou milhares de mortos. No final da década de 80, o governo revolucionário cai, e a União Soviética sofre uma derrota que acaba influenciando diretamente no seu final, em 1991.

Vamos aos números: estima-se que entre 850 mil e 1 milhão e meio de afegãos morreram neste conflito. Houve uma fuga de população do país para o Paquistão e Irã em torno de 5 a 10 milhões de pessoas. Mesmo após a saída dos russos do país, mais uma guerra civil ocorreu, ainda na tentativa de manter um governo socialista e democrático. Mais 400 mil civis afegãos morreram nos anos 90. Enfim, sem força e sem apoio exterior, o governo cede, com a renúncia de Najibullah, assumindo um governo de transição. Porém, importante destacar: os fundamentalistas não queriam apenas a queda do comunismo. A intenção deles era clara, a instalação de um Estado Islâmico, resultando a partir de 1996 quando boa parte do país ficou sob controle do Talibã.

Foi ai que nasceu todo o contexto que vemos nos dias de hoje. A forma de atuação de organizações como o ISIS partiram, em partes, do modo que a Al Qaeda operava. E a forma como a Al Qaeda agia, tinha forte influência dos treinamentos realizados pelo governo norte-americano com os próprios, durante a guerra no Afeganistão nos anos 80. Boa parte das armas e poder de fogo em geral da Al Qaeda foram herança do investimento norte-americano para eliminar a influência soviética no país nos anos 80. E todo esse investimento gerou retorno, eliminando o governo comunista do país, e posteriormente eliminando milhares de vidas nos ataques terroristas do 11 de setembro, realizados pela própria Al Qaeda.

Dentro de um bar nas proximidades do Stade de France, pessoas assistem ao noticiário sobre o ataque | Foto: Felipe Paiva/RUA Foto Coletivo

Já agora, nos anos 2000, após o ataque terrorista da Al Qaeda contra os Estados Unidos, mais vidas seriam tiradas em uma década de horror. A invasão norte-americana no Afeganistão (entre 2001 e 2002, porém considerada interminável por conta da instabilidade da região)gerou o número drástico de quase 35 mil mortes. O objetivo era eliminar a Al Qaeda — o que não aconteceu — e matar Osama Bin Laden. Apesar do grupo fundamentalista ainda existir, o terrorista mais procurado do mundo só foi morto quase uma década depois, já pela administração Obama nos Estados Unidos. Investimento e vidas jogadas fora. O criador não conseguiu destruir a cria. Na realidade, já era tarde demais pra isso.

Mesmo com a invasão contra o Afeganistão, os Estados Unidos ainda acreditavam que o Iraque também tinha envolvimento direto no ataque terrorista de 2001. O regime de Saddam era acusado pela gestão Bush de administrar armas químicas, e que tal coisa não poderia ser tolerada. Mais uma invasão então ocorre, já entre 2003 e 2004, e começa a Guerra do Iraque, gerando mais de 600 mil mortos até o momento. Saddam cai, seu regime também. Mas as tal armas químicas não foram encontradas. E a partir dai, o conflito se torna uma grave dor de cabeça para os norte-americanos, e principalmente para o então presidente Bush, que vê sua popularidade se tornar pó em poucos anos.

Mais uma vez os norte-americanos se encontram em uma guerra interminável. Apesar de conseguirem derrubar o regime, uma então resistência contra a permanência dos Estados Unidos no país acaba gerando conflitos dignos de guerra civil, com pequenos ataques terroristas ao redor do Iraque durante anos. O então governo dito “democrático” instalado sob influência direta norte-americana, não consegue manter a estabilidade anterior. Com o tempo, a resistência diminui, e parece que a clamada paz chega ao país. Mas só parece.

Policia procura por suspeitos na noite dos ataques | Foto: Felipe Paiva/RUA Foto Coletivo

Surge o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, a partir de 2006. O objetivo era tomar o poder das áreas centrais e ocidentais do Iraque e transformá-las em um Estado Islâmico sunita. Resultado de instabilidade do país, que abriu espaço para a atuação de grupos radicais religiosos. O enfraquecimento da Al Qaeda não era o bastante. Os Estados Unidos precisavam eliminar outra cria, desta vez resultado de uma péssima ação militar sem justificativas claras e comprovadas.

Para piorar a situação, em 2011 uma série de protestos ocorre na Síria. O objetivo era derrubar o governo de Bashar al-Assad, acusado de autoritário. As manifestações surgiram após a explosão da Primavera Árabe, que foi uma série de protestos contra regimes antigos no Oriente Médio e África, como no Egito e Líbia. O problema é que al-Assad preferiu resistir, e os manifestantes passaram a utilizar de armas para derrubar o regime. O resultado foi uma guerra civil que dura até os dias de hoje na Síria. Os números: 220 mil pessoas, sendo mais da metade civis, foram mortos até hoje. Já os refugiados é dramático, com cerca de 4 milhões de sírios fugindo do país. Muitos culpam a influência direta dos Estados Unidos na série de manifestações e posteriormente no financiamento a grupos rebeldes contra o regime de al-Assad — acontecimento já comprovado e admitido pelo próprio governo norte-americano. Um dos problemas centrais aqui é que, apesar de se tratar de fato de uma ditadura, al-Assad não era um extremista. Não se sabe exatamente qual o direcionamento político dos rebeldes sírios financiados pelo governo norte-americano, com armas e equipamento. O que se sabe é que, além dessas duas forças, existem também os curdos e posteriormente os extremistas do Estado Islâmico.

Os radicais do ISIS viram na guerra civil da Síria uma oportunidade para dominar mais territórios. Poucos meses após as manifestações, o líder do ISIS, al-Baghdadi, começou a enviar membros sírios e iraquianos do seu grupo para a Síria, com a intenção de estabelecer uma organização no interior do país. Hoje, com vários territórios ocupados, existem mais de 50 mil combatentes do Estado Islâmico só na Síria. No Iraque, o número passa de 30 mil.

E novamente, países do Ocidente tentam “limpar” os erros cometidos, com séries de bombardeios contra os radicais na Síria e Iraque. Porém, enquanto isso, são coniventes com regimes autoritários que seguem apoiando por trás das cortinas os radicais, como a quase ditadura estabelecida na Turquia por Erdogan, que é acusado por boa parte dos curdos e da população turca de apoiar e até financiar ações do ISIS em seu próprio país e na Síria.

Policiais controlam o trânsito próximo dos locais de ataque | Foto: Felipe Paiva/RUA Foto Coletivo

Os recentes ataques do ISIS na França e em outros países é apenas resultado desta série de acontecimentos que ocorreram desde os anos 80. Se formos fazer as contas, não se tratam de apenas 150 mortos. Já são milhões os mortos, resultado de uma guerra ao terror fracassada, e que não irá se resolver com uma solidariedade cega e seletiva nas redes sociais.

Vejam só: poucas horas após o ataque terrorista em Paris, o maior campo de refugiados na França em Calais, foi alvo de um possível ataque de extrema-direita. Fogo se alastrou pelas barracas, gerando algumas mortes.

O crescimento desses grupos é resultado da atual situação entre o Ocidente e os países do Oriente Médio. Com a quantidade de imigrantes partindo para a Europa, isso só tende a aumentar. O fato de que um dos terroristas do recente ataque em Paris veio como refugiado, fará com que o governo francês e boa parte dos governos europeus tomem algum tipo de ação contra a população que foge de um conflito gerado pelos próprios ocidentais em seu país. Mais ataques ocorreram na Síria contra o ISIS, e isso acabará resultando em outros ataques no Ocidente.

É uma guerra interminável que não tem vencedor. Apenas culpados.

Por isso, de forma até fria, é preciso analisar todo o contexto. Não se trata de não tomar solidariedade com os franceses. Mas só isso não é o bastante. Já somos Charlie, já fomos imigrantes, e agora somos Paris. Na próxima, seremos quem? Isso mudará algo?

É preciso tomar atitudes. O próximo passo do governo francês será escutar esses grupos de extrema-direita, e tomar atitudes drásticas contra os imigrantes e agindo com mais interferência ainda na Síria e Iraque. Isso pode se alastrar pela Europa, e pior: influenciar nas próximos eleições nestes países. Enquanto isso, não haverá campanhas no Facebook para nos lembrarmos de quantas vidas são perdidas todos os dias por causa da Guerra ao Terror.

Não somos todos Paris porque não é apenas Paris. Se queremos ser solidários, o certo é dizer: Somos todos Paris, Iraque, Afeganistão, Rússia, Síria, e seja lá qual for o próximo da lista. Até quando?


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize
Fotos por Felipe Paiva, direto de Paris, do R.U.A. Foto Coletivo

By Democratize on November 15, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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