Na esquerda a modelo brasileira Gisele Bundchen, ao lado da modelo plus size Marquita Pring

Agência investe em modelos de redes sociais para contrapor indústria

Com a ideia de quebrar os padrões da moda, a agência Squad, que iniciou as atividades no Brasil este ano, ganhou espaço na mídia por reunir modelos ditos fora do estereótipo. O casting foi construído a partir de perfis nas redes sociais com pessoas que além de tatuagens e cabelo colorido, são engajadas, autoconfiantes e capazes de influenciar outras pessoas com suas ideias e estilo.

As agências de moda no Brasil e no mundo seguem o padrão estabelecido e reconhecido como belo. São corpos altos e magros, às vezes em excesso, que vestem manequim entre 34 e 38, pele clara e cabelos lisos. Mesmo com a ascensão da moda plus size, que tem a proposta de representar um público que veste acima do número 44 e antes não tinha opções, ainda são as modelos muito magras predominam nas passarelas e anúncios de grifes.

Para a feminista negra Stephanie Ribeiro, a Squad e outras agências do meio não estão quebrando padrão e sim assumindo nova roupagem. “Ter tatuagens não é ser uma minoria, usar tamanho 40 não é ser gorda e ter negros apenas de pele clara e traços tidos como “finos” não é nenhuma novidade. Sai aquele tradicional e entra um “descolado”, mesmo assim não é acessível e não representa a maioria da população”, ressalta.

Thais Mendes, que é stylist e dona da Squad esclarece que as interpretações sobre fora do padrão variam e que a proposta é ser uma agência em que as pessoas possam ser elas mesmas, independente da forma. “Eu escuto histórias tenebrosas de meninos e meninas que tem crise de pânico porque precisam emagrecer, não podem mudar a cor do cabelo, ou perdem trabalho por causa da tatuagem. Na Squad nunca vão escutar de mim uma crítica em relação a imagem delas. Elas são donas absolutas da própria imagem”, explica.

Modelo Myla Dalbesio

A discussão sobre quebra de padrões no mundo da moda vem crescendo ultimamente. Em 2014, a revista Elle Magazine causou uma grande polêmica ao categorizar como plus size a modelo Myla Dalbesio, que usa manequim 40, entre outras publicações que já fizeram a mesma classificação para o tamanho 38. Isso gerou questionamentos como “se a medida 38 e 40 são plus size, o qual seria o formato ideal das modelos magras?”

É sabido que o mercado aponta o que está errado, impõe e vende um ideal de beleza inexistente, criados por meio de retoques no photoshop e procedimentos estéticos que muitas vezes são prejudiciais a saúde. “Quando vejo o que é considerado “plus size” sempre fico chocada, não são mulheres gordas para o mundo real, são mulheres vistas como gordas para um mundo onde ter um IMC abaixo do normal e anorexia é bem vindo”, comenta Stephanie.

A personalidade e o engajamento como forma de quebrar padrões

Thais destaca que a Squad surgiu como alternativa à indústria conservadora por dar visibilidade às pessoas engajadas: “eu sempre soube que eles existiam, as redes sociais facilitaram o contato e visibilidade. O que eu não conseguia era convencer ou provar para os clientes que valia a pena investir em pessoas que não eram “modelos oficiais”. Não significa que o mercado mudou, mas temos uma abertura.”

Mas será que os fatores “engajamento” e “personalidade” podem ser considerados uma quebra de padrão? Para Stephanie Ribeiro, isso ainda não é suficiente: “eu queria que não usassem essa desculpa de “personalidade”. Hoje é mais fácil mudar a cor do cabelo e fazer uma tatuagem, porém assumir uma postura anti machismo, racismo e lgbtfobia não são todos que assumem, muito menos de forma profunda. Precisamos ser radicais na quebra da estrutura do padrão estético”, defende.

Se traçarmos uma linha do tempo, podemos ver que em cada época da história tivemos mulheres que foram consideradas ícones da moda e da cultura pop. Nos anos 1940 tínhamos Verônica Lake, Audrey Hepburn na década de 50, Twiggy nos anos 60. Mais tarde, em meados dos anos 90 foi a vez de Cindy Crawford, Kate Moss e Gisele Bundchen. O que todas essas mulheres tem em comum? Apesar de serem grandes personalidades com estilos diferentes, são todas brancas e magras.

Apesar de tantas referências parecidas, não podemos esquecer de Naomi Campbell, que também foi um ícone no anos 90 e rompeu muitas barreiras ao ser a primeira negra a estampar capas de revistas influentes no mundo da moda. No próximo mês, a modelo britânica lançará um livro biográfico, em que relembra momentos marcantes de sua vida e carreira e fala sobre o enfrentamento contra o racismo na indústria da moda.

Naomi Campbell | Foto: Make Road Safe

Engajada nas causas do feminismo negro, a modelo Beatriz Andrade, que é agenciada pela Squad, conversou com o Democratize sobre a desigualdade no mercado da moda: “com certeza existe uma quantidade muito grande de modelos brancos, bem mais que modelos negros. E na maioria das vezes são negros de pele clara. É claro que as oportunidades para modelos negros e brancos não são iguais. Por diversas questões, inclusive o racismo, que infelizmente ainda existe”, aponta.


Reportagem por Mariana Lacerda e Carol Nogueira, para o Democratize

By Democratize on April 1, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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