Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Afinal, em quem confiar no Brasil daqui pra frente?

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o futuro do presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB), só mostrou mais uma vez para a sociedade que as instituições no Brasil sofrem uma grave crise de credibilidade. O nível de insatisfação chegou ao ponto de anti-petistas concordarem com a célebre frase do ex-presidente Lula sobre o STF: “Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada”.

Após ser levado pela Polícia Federal em março deste ano para depor, o ex-presidente Lula teve uma conversa por telefone com a então presidente Dilma Rousseff (PT), amplamente divulgada pela mídia após vazamento.

Na conversa, Lula diz: “Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, nós temos uma Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado, somente nos últimos tempos é que o PT e o PCdoB é que acordaram e começaram a brigar”.

Na época, as palavras do ex-presidente petista causaram um grande impacto negativo na opinião pública, que até então endeusava a imagem do Judiciário como único poder realmente capaz de ditar a política brasileira de forma neutra e justa. Em resposta, o ministro do STF, Celso de Mello, chegou a afirmar que a fala de Lula era “torte e indigna”, além de “típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder”.

De lá pra cá, o Brasil viveu um verdadeiro tsunami de mudanças políticas. A então presidente Dilma foi afastada de seu cargo, e posteriormente foi a vez do seu opositor e presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), perder a presidência e ainda por cima o mandato. Acabou preso. Temer assumiu, mas seu governo de poucos meses continua um verdadeiro desastre: vários ministros acabaram pedindo afastamento por casos de corrupção e abuso de poder, sendo o mais recente o seu braço direito na Secretaria de Governo, Geddel Vieira, cujo caso envolve diretamente o próprio presidente – segundo o seu ex-ministro da Cultura.

Agora, o presidente do Senado Federal se tornou réu na Justiça.

Foi afastado ministro Marco Aurélio. Se negou a sair do cargo, com apoio da mesa diretora do Senado. Desafiou o Supremo Tribunal Federal, que, em seu último suspiro de apoio público, decidiu por manter Renan Calheiros no cargo.

Seu inicial afastamento ocorreu por pedido do partido Rede Sustentabilidade, baseado na decisão do próprio STF que, na semana retrasada, tornou o senador réu em um processo de peculato (desvio de recursos públicos). Posteriormente, os ministros decidiram ir contra o seu próprio histórico de decisões, surpreendendo toda a sociedade brasileira.

Nesta quarta-feira (7), por 6 votos contra 3, o STF decidiu manter Renan na presidência. Votaram a favor da sua permanência os ministros: Celso de Mello (cuja resposta para o ex-presidente Lula foi citada acima), Teori Zavascki, Dias Toffoli, Luiz Fux, Ricardo Lewandowski e a presidente da corte, Cármen Lúcia.

Ironicamente, foi o voto de Celso de Mello que foi considerado decisivo para o andamento da decisão da corte. Segundo a Folha de S. Paulo, o ministro seria o último a votar antes da presidente, mas pediu para antecipar sua posição: “Ele retificou o voto que havia dado no julgamento de novembro, para, desta vez, permitir que réu em ação penal se mantenha no cargo, mas com a condição de que ele não assuma a cadeira do presidente da República. Seu gesto foi decisivo e abriu caminho para outros ministros seguirem o mesmo entendimento, formando a maioria de votos a favor da permanência de Renan no cargo”, apontou o jornal.

Foto: Felipe Malavasi/Democratize
Foto: Felipe Malavasi/Democratize

Tal decisão do STF causou indignação geral na opinião pública. Grupos que organizaram as manifestações de domingo contra Renan Calheiros passaram a questionar a legitimidade do Judiciário, até então endeusada pela figura do juíz Sérgio Moro e pelas decisões do STF contra personagens petistas na política, incluindo a própria ex-presidente Dilma Rousseff.

Chegou a tal ponto em que a célebre frase de Lula, gravada durante conversa com Dilma, voltou a ser assunto nas redes sociais, sendo replicada por várias vezes em comentários nos portais de notícia, e até mesmo em páginas de movimentos anti-petistas: “Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada”.

Agora, com o Judiciário cada vez mais frágil, um Legislativo e Executivo em crise sem data para acabar, em quem o brasileiro deve confiar?

O cenário é lamentável – e deve ser lidado com cautela. Quando os três poderes perdem a confiança da sociedade, isso abre um enorme espaço para aventuras autoritárias, que hoje são representadas por figuras de extrema-direita, como é o caso do deputado federal Jair Bolsonaro, que deve se candidatar para a presidência em 2018.

Por mais que exista uma crise institucional, é preciso refletir e fazer o possível para pressionar o poder público nas ruas, sem qualquer extremismo fascista e militarista. Porque se até 2018 a situação política continuar desta forma no Brasil, é bem provável que em 2019 comece uma fase ainda mais drástica da nossa história.

Posts Relacionados

On Top
error: Para reproduzir o conteúdo do Democratize, entre em contato pelo formulário.
%d blogueiros gostam disto: