Foto: Reprodução/Beside Colors

A volta da ”guerra do spray”: O fim da pichação se torna mais uma vez uma promessa da prefeitura

Nas últimas semanas, as medidas tomadas pelo prefeito João Dória (PSDB) reacenderam os debates acerca da arte de rua, grafite e picho. O que acabou rendendo uma onda de constatações subjetivas sobre o que pode ser considerado arte ou não. 

Durante sua campanha eleitoral, Dória já havia prometido travar uma luta contra a pichação, que é um dos focos do programa Cidade Linda.
Uma das primeiras ações, que chamou a atenção de todos na grande São Paulo, foi o próprio prefeito ir às ruas e começar a cobrir muros grafitados ou pichados. A polêmica em torno do assunto ficou ainda maior quando a prefeitura pintou de cinza parte dos murais da Avenida 23 de Maio. Lá estava localizado o maior corredor de arte urbana a céu aberto da América Latina, trabalho que foi realizado por mais de 200 artistas que receberam autorização na gestão anterior, de Fernando Haddad (PT).

Dória alega que sua luta é somente contra pichadores, e que apagou alguns grafites porque estavam sujos e envelhecidos. Além disso, ele sugere aos que picham que ”mudem de profissão” e se tornem artistas, assim podem fazer sua arte somente no grafitódromo que ele prometeu criar, uma área determinada pela prefeitura onde será permitido pintar.
”Conheço muito pichador que virou grafiteiro, mas é o seguinte, se a pichação fosse que nem o grafite, a gente ia fazer de dia, com patrocínio. Por isso que é da hora, se fosse liberado não ia ter graça.” disse o pichador, que preferiu manter sua identidade em sigilo, ao Democratize.
A proposta de Dória mostra o quanto o prefeito não conhece o que está tentando combater. A pichação surgiu como um ato de contestação e insurgência, sem a menor preocupação de agradar o gosto dos apreciadores de arte de grandes galerias.
Embora alguns acreditem que a pichação é somente uma degradação gratuita, o significado pode ser outro para quem é adepto da pratica e para quem a compreende.
”A gente não faz porque acha que nois é o melhor, nois faz contra o sistema mesmo. Olha quanto problema mais sério tem nessa cidade, na saúde, sem hospital… e os caras querendo apagar pichação?” – conta o pichador em resposta ao Democratize, quando perguntamos o que os motivam a continuar deixando suas marcas nas ruas.
Na maioria das vezes, os pichadores são pessoas residentes das periferias que querem ocupar os muros com seus nomes, códigos e signos, a fim de serem vistos por uma sociedade higienista.

#DI, DINO E MCD são considerados lendas do picho. Foto: Reprodução/Beside Colors

O jovem que assina SABOT  pelas ruas de São Paulo, acha que a criação desse grafitódromo estimula ainda mais a prática do picho porque ”a pixação sempre foi esse confronto, essa audácia. Hoje em dia [o picho] tá meio que na moda entre a molecada, e por um lado isso é bom porque só vai ficar quem realmente é”.
Recentemente, Dória anunciou mais um de seus programas de combate a pichação, o City Cameras. O prefeito promete instalar 2.500 câmeras na cidade e cobrar uma multa que pode variar entre R$5 mil a R$50 mil reais.
Além disso, outra medida que está sendo tomada pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) é o monitoramento de pessoas através da internet para identificar possíveis grupos de pichadores. A pichação já é enquadrada como crime ambiental, porém, a finalidade dessa ação da SSP é poder enquadrar arbitrariamente a pichação como crime de formação de quadrilha e poder prolongar a pena para até 8 anos.
”Pichadores são milhares no mundo, não vai ter mais criminoso na cadeia, vai ser só pichador. Eu trabalho, ele [o outro pichador ao lado] trabalha, tem família para sustentar, nós vamos ficar na cadeia pra deixar criminoso pra fora?” o pichador comenta sobre as novas medidas da SSP ao Democratize.

Não é a primeira vez que a prefeitura trava essa ”luta”. Em 2008 na gestão de Kassab (DEM), a prefeitura também mandou equipes de funcionários cobrirem diversos grafites e pichações. Os trabalhos de artistas como Os Gêmeos, Nunca, Nina e entre outros foram apagados do grande mural da Av. 23 de Maio.

Boletim da Subprefeitura em 2009

O artista Mundano que teve alguns de seus grafites apagados pela prefeitura de Dória já tinha passado pelo mesmo problema na gestão de Haddad, em 2014.
Desde os anos 70 existem registro de pichos na cidade de São Paulo, nos anos 90 ganhou ainda mais força. Mesmo não tendo patrocínio, nem permissões e sendo reprimido em todas as gestões, o picho existe até hoje.
Grafites, pichações e expressões urbanas em geral sempre são removidas, porém o que muda em cada gestão é a frequência com que isso é feito, as medidas que são tomadas e o alarde gerado em cima disso.

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