O MBL, Movimento Brasil Livre, realizou um protesto em apoio à Operação Lava Jato, na sexta-feira (04). No mesmo dia, o ex-presidente Lula…

A sexta em que o MBL fechou a Paulista e a PM não fez nada

A sexta em que o MBL fechou a Paulista e a PM não fez nadaO MBL, Movimento Brasil Livre, realizou um protesto em apoio à Operação Lava Jato, na sexta-feira (04). No mesmo dia, o ex-presidente Lula…


A sexta em que o MBL fechou a Paulista e a PM não fez nada

Foto: Felipe Malavasi/Democratize

O MBL, Movimento Brasil Livre, realizou um protesto em apoio à Operação Lava Jato, na sexta-feira (04). No mesmo dia, o ex-presidente Lula foi levado para prestar depoimento na Polícia Federal, em nova fase da operação. Mesmo fechando o trânsito na avenida, a Polícia Militar “protegeu” a manifestação. Até onde vai a seletividade?

“Não pode deixar subir a Paulista”. Essa frase foi dita diversas vezes por órgãos de segurança do Estado de São Paulo, durante manifestações populares, como a do Movimento Passe Livre. E por diversas vezes, enquanto milhares de manifestantes tentavam chegar na Paulista, acabaram sendo alvo da Polícia Militar, agindo com truculência e repressão. Não foi apenas o Passe Livre: estudantes secundaristas, protestos contra a Copa, e tantas outras mobilizações não puderam percorrer ou trancar o trânsito na avenida mais importante da cidade em dias de semana.

Porém, nesta sexta-feira (04) após o início da nova fase da Operação Lava Jato atingir em cheio o ex-presidente Lula (PT), que foi levado para depor na Polícia Federal em Congonhas, o Movimento Brasil Livre (MBL) anunciou uma manifestação em frente ao Masp, para poucas horas depois.

A manifestação era em defesa da Operação Lava Jato, e posteriormente acabou se tornando um “panfletaço”, segundo os organizadores. Com início às 19 horas, um dos horários mais movimentados da avenida em dias de semana, cerca de 150 manifestantes acabaram ocupando o cruzamento em frente ao museu do Masp por cerca de uma hora, travando o trânsito na região.

A Polícia Militar foi acionada.

Para proteger a manifestação.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

O cordão policial se formou. Mas ficou de costas para os manifestantes.

Geralmente, nas manifestações convocadas por estudantes secundaristas e militantes do Passe Livre, a chamada Tropa do Braço se posiciona de frente dos manifestantes. A forma como é feita a cobertura policial nessas manifestações deixa bem clara a sua intenção: não proteger o livre direito ao protesto, e sim proteger o restante da população contra os manifestantes. Mas, nesta sexta-feira, foi o contrário.

No dia 12 de janeiro deste ano, no segundo protesto convocado pelo Passe Livre contra o aumento das passagens de ônibus, a intenção do movimento era realizar sua concentração na Praça do Ciclista, que fica de esquina com o cruzamento da Paulista e Consolação. A Polícia Militar cercou a concentração do protesto, que foi avisado cerca de 4 dias antes pelo movimento, que decidiu descer em direção à Marginal Pinheiros. A Tropa de Choque não permitiu, realizando um verdadeiro massacre contra mais de 5 mil pessoas que estavam presentes. Mais de 50 pessoas ficaram feridas, incluindo jornalistas e um membro da equipe do Democratize.

Parece que, para a Secretaria de Segurança Pública do governo tucano paulista, existe uma certa seletividade na forma como é tratada manifestações públicas na cidade. O MBL, grupo que organiza manifestações pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) desde 2015, notificou sobre a manifestação desta sexta-feira poucas horas antes. Um grupo de 5 mil pessoas protestando contra o aumento da tarifa não pode fechar a Avenida Paulista. Mas um grupo de 150 pessoas protestando contra o ex-presidente Lula, pode fechar por uma hora a avenida mais importante e movimentada da cidade, em plena sexta-feira.

Com os escudos levantados contra os manifestantes em ato do Passe Livre, o cordão policial em comparação com a foto acima | Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

Outro fator importante que foi tema de muita discussão e polêmicas neste ano em São Paulo: o chamado “aviso prévio” sobre manifestações públicas na cidade.

Um exemplo: em 2011, um sindicato teve de pagar multa por não ter avisado com cinco dias de antecedência sobre manifestação na cidade. A multa, decidida pela 7ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, foi no valor de R$108,6 mil. Agora, fica o questionamento: será que o Movimento Brasil Livre terá de pagar multa para a Justiça, pode ter travado a Avenida Paulista por mais de uma hora na sexta-feira, em pleno horário de pico, tendo avisado sobre o protesto apenas horas antes?

No final de 2015, estudantes secundaristas que protestavam contra o projeto de reorganização escolar também foram alvo da Polícia Militar. Os estudantes realizavam os chamados “trancaços” em importantes cruzamentos da cidade, como foi o caso da própria esquina da Avenida Paulista com a Consolação. Durante esse trancaço, o comandante da Polícia Militar teria dito que “não poderia permitir que poucas pessoas fechassem o trânsito da cidade, necessitando liberar a via”. Não foi feito diálogo. Cerca de 40 minutos após trancarem o cruzamento, de forma pacífica, os secundaristas foram respondidos com bombas e gás lacrimogêneo, conforme mostra o vídeo abaixo:

O argumento da polícia para a repressão foi:

  • Não houve qualquer aviso prévio sobre a manifestação;
  • A necessidade de liberação de vias para o trânsito fluir na cidade;
  • O fato de se tratar de um dia de semana em horário de pico, com grande fluxo de carros;
  • Os secundaristas não caminhavam, apenas trancando cruzamentos, tornando o trânsito na via em questão ainda mais difícil.

Cada argumento dado pela PM para reprimir os secundaristas foi ignorado pela mesma instituição em relação ao protesto do Movimento Brasil Livre nesta sexta-feira.

Lamentavelmente, o estado de São Paulo assiste no interior de suas instituições uma espécie de seletividade que tem como simples objetivo dar prioriedade aos interesses partidários de seus governantes.

Da mesma forma que em um dos protestos pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no ano passado, as catracas foram abertas pelo metrô para a passagem de manifestantes, e nos atos do Passe Livre foi o completo oposto: manifestantes sendo reprimidos por tentarem pular catracas.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Os direitos deveriam ser iguais para ambos os grupos e ambos os interesses. Porém, com o governador Geraldo Alckmin (PSDB) ditando o que é legal ou não no estado de São Paulo, começamos a assistir o declínio da democracia e da liberdade de manifestação, justamente em um dos momentos mais delicados da política nacional nas últimas décadas.

By Democratize on March 6, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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