Ao redor do mundo, as torcidas organizadas de futebol já são conhecidas pelo seu caráter político. No Brasil, depois de décadas de…

A revolução virá das arquibancadas

A revolução virá das arquibancadasAo redor do mundo, as torcidas organizadas de futebol já são conhecidas pelo seu caráter político. No Brasil, depois de décadas de…


A revolução virá das arquibancadas

Foto: Nelso Coelo/Diário SP

Ao redor do mundo, as torcidas organizadas de futebol já são conhecidas pelo seu caráter político. No Brasil, depois de décadas de desmandos da CBF e da Rede Globo, parece que o cenário começa a mudar.

Não é de hoje que a torcida organizada do Corinthians, Gaviões da Fiel, vai muito além da atuação dentro dos estádios. Criada nos anos 60, em plena ditadura militar, o objetivo da Gaviões era criar uma entidade que pudesse não apenas atuar como uma torcida organizada, mas também na área político-administrativo do Corinthians. Seu principal objetivo na época era a derrubada do dirigente Wadih Helu, presidente do clube.

Não por acaso, Helu foi deputado estadual em São Paulo pelo partido ARENA, pró-regime militar, e Secretário Estadual de Administração do governo de Paulo Maluf, entre 1979 e 1982. Sua política interna dentro do clube acabou influenciando outras gerações de dirigentes do clube, como a de Alberto Dualib (1993–2007), notório por diversos casos de corrupção interna e lavagem de dinheiro.

Existem diversos outros casos da influência política da Gaviões: seja no processo da “Democracia Corintiana” dos anos 80, ou até mesmo através do Carnaval, quando em 2002 lançou o tema “Xeque-Mate”, que fazia uma homenagem ao jogo de xadrez e ainda aproveitava para fazer duras críticas políticas e sociais — enredo que acabou rendendo o título daquele ano.

E novamente, a Gaviões volta a protagonizar um novo episódio envolvendo política dentro e fora dos gramados. Os alvos são a Federação Paulista de Futebol, a CBF, a Rede Globo e principalmente Fernando Capez, deputado estadual pelo PSDB e presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a Alesp.

Não por acaso, Capez ficou reconhecido nacionalmente nos anos 90, enquanto tentava combater as torcidas organizadas, conseguindo em 1995 a extinção da torcida Independente (São Paulo) e da Mancha Verde (Palmeiras).

Mas a sua imagem pré-fabricada de “homem da Justiça” não demorou muito para cair aos pedaços. Foi acusado em 2012 de nepotismo, sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo. Capez empregava em seu gabinete, na Alesp, Joel Soares Júnior, irmão de Jackeline Soares, que era companheira de Eduardo Bittencourt Carvalho — também investigado. Já o advogado Rogério Auad Palermo, cunhado de Capez, foi assessor técnico do procurador do TCE, formalmente lotado no gabinete que Bittencourt ocupou durante 20 anos na corte de contas. Outro caso polêmico envolvendo Capez ocorreu em 2007, quando ele processou o jornalista esportivo Juca Kfouri, requerendo uma multa no valor de 50 mil reais para “cada ofensa que viesse a ser praticada contra ele”, mostrando traços preocupantes de autoritarismo por parte de Capez.

Mas o episódio mais alarmante, que levou novamente a Gaviões a protestar nas ruas e nos estádios, acontece agora.

Foto: Roberto Navarro

Neste mês de fevereiro, Capez foi citado pelo lobista Marcel Júlio, que extorquia fornecedores de merendas para escolas públicas de São Paulo. Segundo o lobista, Capez recebia uma parcela do superfaturamento, que englobou, inclusive, um carro emprestado para sua campanha eleitoral de 2014. A Justiça então determinou a quebra de seu sigilo bancário e fiscal. Ironicamente, Capez foi figura carimbada nos protestos pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) em São Paulo no ano passado, sendo um dos “mais empolgados” nos discursos contra a corrupção.

Graças aos protestos da Gaviões da Fiel, o tema é um dos mais debatidos hoje em São Paulo — seja mas mídias sociais ou pelos meios de comunicação. Por diversas vezes neste ano, a Gaviões tentou levar faixas de protesto citando não só Capez como também a CBF, FPF e a Rede Globo, chegando a ser reprimida pela Polícia Militar com o uso de cassetetes. Quando o comandante da operação foi questionado sobre “quem mandou reprimir”, nem ele mesmo sabia informar.

Essa pequena revolução da Gaviões da Fiel neste começo de 2016 se dá dois anos após a ascensão das torcidas “antifascistas” no Brasil. Clubes como o Santos, Palmeiras, São Paulo e o próprio Corinthians já possuem de forma organizada as torcidas antifascistas, atuando não apenas nas redes sociais como também dentro dos estádios.

No jogo deste domingo (21), foi a vez da torcida Independente, do São Paulo, se inspirar na mobilização da Gaviões. Os são paulinos realizaram um protesto, também dentro e fora do estádio (Pacaembu), contra a “máfia” em torno da direção do clube. A própria Mancha Verde, do Palmeiras, também se manifestou durante boa parte do ano de 2015 contra os valores dos ingressos — que para eles é a maior característica do que chamam de “elitização do futebol moderno”. Outra pauta que é levantada por quase todas as torcidas organizadas são os horários dos jogos, seja nos torneios estaduais ou no próprio Campeonato Brasileiro, quando partidas durante o meio da semana acabam acontecendo às 22 horas por conta da programação da Rede Globo. Para os torcedores, o horário é péssimo por diversos aspectos, mas principalmente por conta do transporte público, já que os jogos costumam acabar por volta da meia-noite, horário em que o metrô e grande parte dos ônibus já encerraram as operações.

A politização das organizadas é um fator importantíssimo em um momento delicado da política nacional, indo além das questões diretamente relacionadas ao futebol. As máfias internas dentro das direções dos clubes possuem forte ligação com questões políticas, como a relação do ex-dirigente do Corinthians nos anos 60 com o partido ARENA, citada no início do artigo.

É um passo importante que deve ser dado. Um verdadeiro chute na canela contra as organizações que controlam o futebol, além da classe política no Brasil.

By Democratize on February 22, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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