Cerca de mil estudantes e professores participaram de mais uma manifestação contra o fechamento de escolas no estado de São Paulo. O local…

A repressão policial contra estudantes e os “mascarados” da mídia

A repressão policial contra estudantes e os “mascarados” da mídiaCerca de mil estudantes e professores participaram de mais uma manifestação contra o fechamento de escolas no estado de São Paulo. O local…


A repressão policial contra estudantes e os “mascarados” da mídia

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

Cerca de mil estudantes e professores participaram de mais uma manifestação contra o fechamento de escolas no estado de São Paulo. O local: em frente ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de Geraldo Alckmin (PSDB). A polícia reprimiu para evitar uma possível invasão dos manifestantes — e a mídia se aproveitou disso. Ressurgem os mascarados e a violência midiática.

O filósofo esloveno, Slavoj Zizek, em seu livro Violência mostra como os grandes veículos de comunicação e governos fazem para deslegitimar ao máximo uma manifestação popular de indignação ou desaprovação. Utilizando uma política do medo, e com o objetivo de minar qualquer mobilização, veículos tradicionais acabam por rotular o bloco mais agressivo de uma manifestação como minoria violenta, em sua maioria formada por jovens mascarados.

Na última manifestação ocorrida na semana passada, estudantes e até mesmo um fotojornalista foram detidos, gerando uma série de agressões contra manifestantes por parte dos policiais, com cassetetes e spray de pimenta. Em artigo sobre a violência de manifestantes em Ferguson (EUA) no ano passado, Zizek escreveu:

“Em uma situação como essa — em que a polícia deixa de ser vista como o agente da lei, representando a ordem legal, mas simplesmente como mais um ator social violento –, os protestos contra a ordem social predominante também tendem a tomar uma guinada diferente: a de uma explosiva “negatividade abstrata” — isto é, num vocabulário mais pedestre: violência crua e desprovida de objetivo.”

Foto: Fernando DK/Democratize

De fato, hoje manifestantes tentaram invadir o Palácio dos Bandeirantes. Com pedras e rojões. Mas qual motivo os levaram a isso? Vale retratar uma outra forma de violência, que Zizek também aponta: a violência invisível. Pelo menos invisível aos olhos da mídia e de setores sociais providos de condição financeira.

O “Estadão” noticiou em sua manchete que os ‘mascarados atacaram o Palácio dos Bandeirantes’ — pobre Palácio, quase foi invadido por estudantes enfurecidos de classe baixa

O G1, portal de notícias na web da Globo, tem se referido ao fechamento de escolas como um simples “plano de reformulação educacional”. Ignoram o fato mais importante — e violento — dessa questão: como a educação no estado mais rico do país é algo descartável. Centenas de escolas correm o risco de fechar as portas, e as salas de aula que já são lotadas o suficiente correm o risco de encher, com cerca de 60 alunos por sala de aula.

Em um momento onde existe um gigante investimento por parte do estado com presídios de segurança máxima — os quais a gestão do PSDB se orgulha — vale lembrar o quão triste é comparar como a gestão pública se importa em prender e não em educar.

Essa forma de violência, invisível aos olhos dos veículos de comunicação, é algo cotidiano e que faz parte da história e vida desses mascarados que atacaram o Palácio dos Bandeirantes — triste manchete para um triste jornal em falência, o Estadão.

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

Trata-se de jovens que já não possuem auxílio do Estado, e muito menos convivem com a sua presença — a não ser na forma da repressão, com as instituições de segurança. O que acontece quando o mínimo auxílio que o Estado passa para esses jovens, que é a sua escola pública — que já sofre com a péssima qualidade e estrutura — simplesmente fecha as portas? E pior: direcionam você, aluno, para uma nova escola em uma sala de aula super-lotada. Parece até que o Estado já prevê o destino dessas crianças: primeiro colocaremos eles em uma sala de aula super-lotada, e depois em uma cela super-lotada.

Essa violência, bárbara e profundamente histórica, não ocupam as manchetes dos grandes portais de notícia. Pelo contrário, são maquiadas a ponto do leitor pensar que se trata de algo positivo: hm, reformulação do ensino? Acho bom, porque a educação não anda bem. Porém, se fosse uma manchete digna do fato real, como por exemplo “Governo de São Paulo planeja fechar centenas de escolas e super-lotar salas de aula”, provavelmente a reação do leitor não seria a mesma.

Trata-se também de uma questão política.

Geraldo Alckmin é um dos nomes mais fortes para o PSDB em 2018, nas eleições presidenciais. Não por acaso, mesmo com suas terríveis falhas durante a gestão em São Paulo, ele acabou se tornando merecedor de prêmios. No começo da semana, ele foi consagrado com uma premiação pela sua gestão hídrica no estado de São Paulo. O prêmio, claro, foi cedido por um deputado federal de seu partido, com direito a cerimônia no Congresso Nacional.

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

No começo do ano, com grande ajuda dos veículos de comunicação, o governador tucano conseguiu criminalizar e derrotar a maior mobilização da classe dos professores estaduais nas últimas décadas. Mesmo com 90 dias de greve, o governo não cedeu, ignorou ao máximo as reivindicações da classe e ainda por cima manipulou informações, distorcendo a quantidade de professores paralisados durante a greve. A mídia ajudou — e muito, com direito a editoriais da Folha de São Paulo e Estadão.

A blindagem com Geraldo Alckmin já é conhecida — e sempre esteve presente.

Mas a criminalização da violência por parte de manifestantes indignados ainda é algo novo — até mesmo porque trata-se de algo recente, originado das revoltas em junho de 2013. Mas fazia um bom tempo que os veículos tradicionais não utilizavam os termos mascarados e violentos na mesma frase. Quando manifestantes enfurecidos, no dia 7 de setembro em Brasília, derrubaram um muro feito com peças de aço para evitar uma possível invasão ao desfile militar — onde estava Dilma Rousseff — nenhum dos termos foi utilizado. Mas quando estudantes, enfurecidos por uma causa específica que pode sim afetar o resto de suas vidas, tacam pedras em um gigante bloco de concreto que é o Palácio dos Bandeirantes, trata-se de uma ação violenta, um ataque, uma possível invasão que pode ferir o Palácio.

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

É preciso rever a noção do que é violência. E principalmente é preciso denunciar cada vez mais a forma como a imprensa tradicional trata de modo seletivo o que é ou não uma ação de indignação popular justa.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on October 15, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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