Foto: Francisco Toledo

A prisão de Boulos não é apenas sobre Boulos

Quando a Polícia Militar resolveu prender o coordenador nacional do MTST nesta terça-feira (17), ela deu mais um passo rumo ao autoritarismo e perseguição política no estado de São Paulo, onde até mesmo figuras com proteção de seu “status político” sofrem com a mesma perseguição já vivenciada pela população comum que se manifesta nas ruas. Para elas, qual será o próximo passo então?

Conhecido como intermediador, uma figura pública que conta com uma blindagem por seu status, Guilherme Boulos foi preso ao tentar negociar uma saída diplomática durante a reintegração de posse na Ocupação Colonial, localizada no Jardim São Mateus, zona leste de São Paulo. Lá, cerca de 700 famílias viviam suas vidas e foram brutalmente despejadas.

Agora imaginem: Boulos é conhecido por ser do alto escalão da esquerda brasileira nos dias de hoje. É amigo pessoal de figuras como o ex-presidente Lula (PT), além de ser peça chave para o diálogo entre poder público e movimentos sociais. O movimento que faz parte é um dos principais e mais ativos do Brasil, amplamente conhecido por sua forma alegre mas ao mesmo tempo combativa de fazer manifestações.

Quando o MTST é reprimido tão brutalmente quanto outro grupo mais autônomo e sem o mesmo espaço de diálogo – o Passe Livre por exemplo – é porque algo deve estar mudando no cenário atual.

Quando Guilherme Boulos é levado preso de forma autoritária por policiais fardados após tentar negociar uma forma pacífica de retirar aquelas famílias do local, é porque algo muito perigoso segue traçando a política brasileira. Trata-se de um homem protegido por seu status de negociador, uma pessoa que divide salas em reuniões com o poder público – seja lá de qual partido for, sempre visando o benefício da militância sem-teto que simplesmente precisa de uma casa pra viver.

Fizeram com Boulos aquilo que costumam fazer nas manifestações contra o aumento da tarifa contra manifestantes comuns. Fizeram com o MTST aquilo que eles já praticam contra secundaristas, jovens em sua maioria menores de idade que não possuem a mesma bagagem política que o coordenador sem-teto – e muito menos a sua força de diálogo ou de influência.

Agora, o que farão com esses que já sofrem de forma cotidiana a dura repressão do Estado?

A tendência é que o processo de radicalização repressiva do aparato do Estado deva aumentar neste próximo ano – e a prisão de Boulos foi o recado dado pelo poder público, principalmente pelo governador tucano Geraldo Alckmin.

Por isso o título: a prisão de Boulos não é apenas sobre Boulos. É sobre o manifestante comum que já sofre a repressão da Polícia Militar e, se tal tendência se confirmar, deve sofrer ainda mais na pele essa perseguição política brutal do Estado. E isso é extremamente perigoso e alarmante para uma jovem democracia que já sofreu pancadas e golpes nos últimos anos, onde um dos principais nomes para a presidência no próximo ano é um deputado federal conhecido por seu posicionamento militarista e armamentista, além de ultra-conservador.

Tocar na prisão de Boulos e prestar solidariedade ao coordenador do MTST não é esquecer as 700 famílias que perderam suas casas hoje em São Paulo. É justamente o contrário: se prenderam e humilharam uma figura politicamente conhecida no cenário nacional, imaginem o que farão com eles daqui pra frente?

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