A banda punk Ratos de Porão participou de um festival de rock na Venezuela neste ano, promovido pelo governo de Nicolás Maduro. A reação…

A polêmica sobre o show do Ratos de Porão na Venezuela

A polêmica sobre o show do Ratos de Porão na VenezuelaA banda punk Ratos de Porão participou de um festival de rock na Venezuela neste ano, promovido pelo governo de Nicolás Maduro. A reação…


A polêmica sobre o show do Ratos de Porão na Venezuela

Foto: Gabriel Soares/Democratize

A banda punk Ratos de Porão participou de um festival de rock na Venezuela neste ano, promovido pelo governo de Nicolás Maduro. A reação foi diversificada: de um lado, tanto punks anarquistas quanto “fãs coxinhas” criticaram a atitude da banda; de outro, ficou a mensagem sobre as mentiras e distorções dos grandes veículos de mídia no Brasil sobre o país. O Democratize conversou com Juninho, baixista da banda, sobre este assunto e muito mais.

“Você criticar um outro país pela sua posição política assistindo a Rede Globo e lendo a revista Veja, isso é muito bizarro, é a mesma coisa que nada”. Foi assim que começou o nosso papo com Juninho, baixista da banda Ratos de Porão, formada por João Gordo, Jão e Boka. Trata-se de uma das maiores bandas do cenário do rock independente da história do Brasil, carregada por polêmicas e uma forte ideologia por trás de suas canções e postura.

A polêmica mais recente começou quando a banda foi convidada para tocar em um festival na Venezuela. “Já fizemos um show em Caracas, na Venezuela, há uns 4 ou 5 anos atrás. Aí o mesmo cara que havia entrado em contato com a gente daquela vez entrou novamente”, diz Juninho. Segundo ele, antes mesmo da banda topar realizar o concerto, muitos fãs venezuelanos criticaram-na — “Logo que a gente fechou a presença no festival, começaram a rolar umas mensagens de uns caras nos criticando dizendo ‘meu, vocês tão vindo pra cá, com esse show desse cara duvidoso que apoia o governo, sendo que vocês são uma banda punk’. Então assim, já logo de cara que ele entrou em contato com a gente pra fechar, ao mesmo tempo que foi um esquema bem legal de fazer um show de graça que qualquer pessoa pode ir lá assistir, começou a ter um tipo de conflito por essa parada política”.

Mesmo com as críticas, a banda topou fazer o show. E não demorou muito para que isso fosse repercutido no Brasil.

Imagem: Reprodução Ratos de Porão Facebook

Segundo Juninho, muitos comentários de fãs brasileiros surgiram após uma publicação feita por João Gordo na página oficial da banda no Facebook, onde a banda ironizava o senso comum produzido pela mídia tradicional de que “na Venezuela não existe nem papel higiênico sobrando”. Sobre o fato do festival ter sido promovido pelo governo, o baixista do Ratos citou a Lei Rouanet no Brasil, utilizada para promoção e realização de diversos shows ao redor do país, dos quais inclusive o Ratos já participou. E lembrou: “A nossa visão política não vai mudar por isso. Fizemos o nosso show de sempre, com o setlist de sempre, a postura de sempre. Não houve censura nem nada”.

Sobre uma possível incoerência da banda ter canções anarquistas e tocar em um festival promovido por um governo dito “nacionalista”, Juninho disse:

“No Brasil, você tem um nacionalismo muito esquisito. Mas na Venezuela, na Argentina, esses lugares que têm esse patriotismo, é uma onda diferente. Aqui no Brasil quando você vê um cara com a bandeira e camiseta do Brasil dizendo ‘meu país, meu orgulho’, o que esse cara quer? O cara quer o Brasil para os brancos, para os ricos, para a classe média, ele quer que os pobres se fodam. Ele quer que os pobres e pretos vão morar longe, o Brasil dele é esse. Já na Venezuela é completamente o contrário. É uma posição política que não tem aqui no Brasil. É um cara que é patriota, só que o cara tá pelo povo, tá pelas pessoas. Você vê lá uma banda de metal, e o vocalista com um bracelete da bandeira da Venezuela, ele fala ‘povo venezuelano, a força do nosso país, do nosso povo, vamos valorizar as coisas do nosso país’, ele não tá falando da elite, ele tá falando contra o imperialismo americano, ele fala contra o governo americano. Ele é pró-Venezuela porque ele sabe que em certos momentos o imperialismo e o capitalismo estavam comendo a Venezuela. Eles querem que as pessoas pobres tenham educação, tenham saúde, uma coisa que aqui não existe. Você não vai em uma passeata contra a Dilma com uma pessoa com a bandeira do Brasil querendo que os pobres tenham melhor educação e saúde, não existe isso. Aqui no Brasil não existe essa posição, e lá tem. Os patriotas daqui querem ir pra Miami pra fazer compras”.

O nacionalismo promovido nos últimos anos na Venezuela é, de fato, um fenômeno continental, que pode ser considerado um dos traços mais efetivos do bolivarianismo. Países como Equador e Bolívia também se utilizam dele, mas de uma forma completamente diferente daquela produzida pela classe conservadora do Brasil de hoje.

Enquanto lá, o nacionalismo é visto como uma forma de auto-defesa contra a influência de países que tradicionalmente utilizam o continente como máquina de exploração — como Estados Unidos, Portugal e Espanha -, no Brasil, o patriotismo tem sido utilizado pela direita política como um bastião do significado da “família brasileira”, aquela que defende tradições específicas guiadas por dogmas religiosos, mas não entende que a interferência política de um país como os Estados Unidos possa ser negativa para o futuro do desenvolvimento do Brasil como nação de identidade própria.

Além disso, Juninho — que por diversas vezes afirmou não se considerar um especialista em política —ressaltou o problema da desigualdade social nas sociedades latino-americanas e como isso é visto por patriotas venezuelanos e brasileiros: “Quem é mais humilde apoia o governo venezuelano, nos bairros mais pobres, etc. Quem Chavez e Maduro incomodaram? Quem tem dinheiro, a classe média, esse pessoal que não gosta que o governo invista nos mais pobres”.

Foto: Patricia Laroca

Sobre a situação política do Brasil

E como um papo leva automaticamente para outro, o assunto acabou virando as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff e a situação política no Brasil nos dias de hoje.

O baixista do Ratos considera que a crise não está apenas no Brasil, e leva em conta os shows feitos pela banda fora do país nos últimos anos: “Como o Brasil se abriu para o neoliberalismo, ele tá no ciclo mundial, a crise não é só no Brasil. Fizemos muitos shows fora do país, inclusive na Europa e países da América Latina. E lá, vi muita coisa que não via antes, por exemplo um cara chegar no show e pedir desconto pra comprar uma camiseta. Faço turnê na Europa desde 2000, e nunca havia visto um cara na Espanha ou na Itália pedir desconto pra comprar a camiseta”.

Juninho cita as variadas vezes em que presenciou em países como Itália e Espanha o fechamento de lojas de discos por conta da crise imobiliária, que tem varrido a economia de ambos os países nos últimos sete anos.

Apesar de não ter votado em Dilma — Juninho afirma ter votado nulo nas últimas eleições para presidente — o baixista acredita que boa parte desse tipo de pensamento tem como culpado os grandes veículos de comunicação. “Infelizmente, temos uma mídia que leva a cabeça das pessoas para formações políticas que são completamente alienadas”.

Sobre os atos pelo impeachment de Dilma Rousseff, a crítica partiu para a classe média: “Nesse ato aí dos impeachment, esses caras pararam ali numa ocupação na Consolação e mandando os caras irem trabalhar. Qual o sentido disso?”. Segundo ele, existe um medo muito grande nas classes mais baixas de que caso partidos como o PSDB ganhem as eleições, os programas sociais promovidos pelo PT acabem, e esse medo só aumenta com a ocorrência de situações como a citada na manifestação anti-Dilma.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Crise afeta a cena independente no Brasil

Mesmo longe dos holofotes, a crise econômica parece também afetar a cena de rock independente no Brasil: “Dos primeiros 15 shows que a gente fez (em 2015), quase 10 deram errado. A gente percebeu que quando virou o ano já tava ruim a situação. Começa a dar merda no bolso do pessoal, qual a primeira coisa que você corta? Show, restaurante, etc” — lamentou o baixista.

Mas a banda já parece ter encontrado uma solução para fugir da crise. Diante do déficit de público nos shows e poucas oportunidades de lotar casas pelo Brasil, o Ratos resolveu tocar mais fora do país neste ano, e a iniciativa tem dado resultados positivos, com shows em vários países da América Latina, como Argentina e a própria Venezuela.

Juninho ainda lembrou que não se trata de algo que afeta apenas o Ratos de Porão: “Bandas como Dead Fish também estão sofrendo com toda essa situação, não é só a gente”.

A politização da música no Brasil — ou a falta dela

O Brasil, que já foi palco de grandes canções politizadas nos anos 80 — como ‘Até Quando Esperar’ da Plebe Rude — já não parece ter o mesmo fôlego. E essa mudança não afeta apenas a música propriamente dita, como também festivais, eventos e o cotidiano das bandas, inclusive da cena independente.

Quando questionado sobre a cena do punk e hardcore no Brasil de anos atrás, o baixista do Ratos usou como exemplo as verduradas, e a cena vegan dentro do hardcore: “Naquela época falávamos muito de veganismo, e hoje em dia parece não existir tanta necessidade de falar sobre isso”, citando uma espécie de gourmetização do veganismo, assim como de outras bandeiras levantadas politicamente pela cena punk hardcore.

Sobre as verduradas e a cena política, houve ainda a tentativa de trazer de volta o espírito mais politizado na cena hardcore em São Paulo, com a realização do evento Hardcore Nas Ruas, também idealizado por Juninho — “A gente montou o hardcore nas ruas pensando exatamente na politização da música. Fizemos tentando voltar com essa cena, meio que passar a mensagem ‘isso é importante, a gente veio dessa forma, vamos continuar com isso’”.

Mesmo contando com palestras, shows, debates, exposição e diversas outras atividades, o evento parece ainda não ter trazido o mesmo público do verdurada. Juninho lamenta que a adesão ao Hardcore Nas Ruas não tem sido como o esperado: “As verduradas de tempos atrás contavam com mais de mil pessoas que pagavam pra colar, e o Hardcore nas Ruas hoje não consegue alcançar esse número, mesmo sendo de graça”.

Mas isso parece não se tornar um grande problema, tanto para o baixista quanto para o Ratos. Juninho se diz esperançoso sobre a cena atual, mesmo com a crise econômica afetando o mercado de shows independentes.


Saca só o vídeo do festival que o Ratos de Porão participou na Venezuela:


Entrevista feita por Gabriel Soares e Francisco Toledo, do Democratize.

By Democratize on September 28, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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