O Democratize elaborou uma retrospectiva da luta dos secundaristas em São Paulo contra o projeto de reorganização do ensino neste fim de…

A luta dos estudantes de São Paulo em 3 partes

A luta dos estudantes de São Paulo em 3 partesO Democratize elaborou uma retrospectiva da luta dos secundaristas em São Paulo contra o projeto de reorganização do ensino neste fim de…


A luta dos estudantes de São Paulo em 3 partes

Foto: Marcos Fantini/Democratize

O Democratize elaborou uma retrospectiva da luta dos secundaristas em São Paulo contra o projeto de reorganização do ensino neste fim de ano. O começo, com pequenos protestos isolados e outros maiores promovidos pela Apeoesp, passando pelas mais de 200 escolas ocupadas em poucas semanas, terminando com os ‘trancaços’ nas principais avenidas e o recuo provisório do governador Geraldo Alckmin.

Quando o Democratize surgiu no mês de agosto deste ano, ninguém imaginava o que viria pela frente. Em um ano onde a mobilização de rua foi praticamente dominada por movimentos de direita — pelo menos em números e em alcance na grande mídia — pouco se falava sobre um possível levante pela esquerda. E ele veio. Mas de um ator pouco provável: os adolescentes, estudantes do ensino público do estado de São Paulo.

O motivo disso tudo foi o polêmico projeto de “reorganização escolar”, promovido pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB), anunciado pelo então secretário da Educação, Herman Voorwald. No início, o projeto tinha como foco o fechamento de centenas de escolas ao redor do estado. Porém, tudo mudaria aos poucos, e em partes.

O Democratize desde o começo esteve presente, registrando a luta dos secundaristas contra o projeto da administração tucana no estado. Por isso, separamos em três partes a jornada que mudou a forma de tratar o ensino em todo o Brasil, inspirando um movimento de ocupações em outros estados, como em Goiás.


ALUNOS, OCUPAR AS RUAS!

Foto: Vitor Cohen

No dia 6 de outubro, o vão livre do Masp foi ocupado pela primeira vez por estudantes e professores contra o projeto de reorganização escolar. Poucos dias antes, alunos da E.E. Padre Sabóia já haviam ocupado as ruas nas proximidades da escola ao serem informados sobre a possibilidade de fechamento da unidade.

Até então, nada era oficial: apenas rumores que o projeto fecharia até 400 escolas em todo o estado. Alunos reclamavam de que foram avisados no final do ano letivo apenas para que não pudessem ter tempo para articular uma tentativa de diálogo com o governo, ou até mesmo mobilizar protestos contra o projeto. A medida iria reorganizar a distribuição dos alunos em unidades que passarão a atender exclusivamente um dos três ciclos de ensino: o primeiro abrange os alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental; o segundo, dos alunos do 6º ao 9º ano do fundamental, e o terceiro reúne os três anos do ensino médio.

Até então, grandes veículos de comunicação como a Folha de S. Paulo ignoravam a pauta, e até mesmo os protestos convocados pelos alunos. Leia aqui a primeira matéria do Democratize sobre o projeto.

No dia 9 de outubro, estudantes ocuparam novamente a Avenida Paulista contra o projeto. Desta vez, a reação policial foi diferente: o cinegrafista Caio Castor foi detido, e estudantes e mídia agredidos por policiais.

Não por acaso, a repressão policial acabou gerando maior adesão aos protestos convocados pelos estudantes. A Apeoesp, que até então não havia se posicionado firmemente sobre o tema, passou a articular manifestações contra a reorganização escolar.

No dia 15 de outubro, Dia do Professor, estudantes e professores articularam então mais uma manifestação nas ruas da capital. Desta vez o destino escolhido foi o Palácio dos Bandeirantes.

Quando o ato chegou ao local, o clima de tensão acabou se tornando inevitável. A Tropa de Choque estava posicionada do lado de dentro do palácio, após os portões, com os escudos já levantados.

O resultado disso foram pedras e rojões atirados de um lado por manifestantes e bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral do outro por policiais militares.

Foi a primeira vez que os meios de comunicação começaram a articular uma criminalização do movimento, em discurso praticamente igual ao do governador Geraldo Alckmin, que passou a afirmar que a mobilização dos estudantes não passava de um “movimento político” que tinha como objetivo desestabilizar o seu governo.

Ao contrário disso, o Democratize foi pras ruas acompanhar este ato e perguntar aos estudantes o que eles achavam do projeto, e como isso afetaria diretamente as suas vidas.

De qualquer forma, os protestos acabaram causando temor dentro do Palácio dos Bandeirantes, de que caso o projeto continuasse seu modelo original — fechando mais de 400 unidades escolares pelo estado — os atos acabariam se tornando ainda maiores.

Por isso, o governo anunciou oficialmente no começo de novembro que o projeto de reorganização escolar começaria a valer já em 2016, e que fecharia cerca de 94 escolas estaduais ao redor do estado.

A diminuição das unidades que seriam fechadas não adiantou absolutamente nada: a luta agora tinha como objetivo barrar por completo o projeto de reorganização. E a segunda parte teve uma contribuição histórica para essa vitória.


ALUNOS, OCUPAR AS ESCOLAS!

Foto: Francisco Toledo/Democratize

De forma espontânea e independente, secundaristas começaram a ocupar os prédios das escolas que seriam fechadas pelo governo através do projeto de reorganização do ensino. A primeira escola foi em Diadema, no começo de novembro, porém a que mais chamou atenção da mídia foi a Fernão Dias Paes, na região de Pinheiros.

Por ser um bairro nobre e próximo do Centro, a reação do governo estadual foi de perplexidade. Não sabiam como lidar com a ocupação, e temiam que uma possível invasão pela Polícia Militar pudesse colocar a população e a opinião pública contra o projeto. Então, a decisão foi de fazer um verdadeiro cordão humano formado por policiais ao redor da escola.

Cerca de 50 estudantes ocupavam o prédio no começo da mobilização, atraindo olhares de fora. Do outro lado do portão, nas ruas, ativistas e apoiadores montavam barracas para impedir que a Polícia Militar fizesse alguma coisa contra os alunos.

No final das contas, a ocupação do Fernão Dias acabou por inspirando diversas outras, seguindo o mesmo modelo: ocupar o lado de dentro e contar com apoio externo para impedir uma possível reintegração pelo Estado.

Foto: Francisco Toledo/Democratize

Logo no terceiro dia, a ocupação chamou a atenção de personalidades como o ator Pascoal da Conceição, do Castelo Rá Tim Bum, e de pessoas como o líder do Sindicato dos Metroviários, Altino Prazeres, e o deputado estadual do PSOL, Carlos Gianazi. Ambos estiveram presentes para demonstrar solidariedade aos secundaristas que ocupavam o lado de dentro da escola em Pinheiros.

Em poucos dias, já eram cerca de 11 escolas ocupadas em todo o estado. Na sexta-feira (14), o juiz Luis Felipe Ferrari, da 5ª Vara de Fazenda Pública impediu o pedido do governo estadual por reintegração de posse nas escolas ocupadas — a primeira grande vitória do movimento. egundo ele, a questão “não é a proteção da posse, mas uma questão de política pública, funcionando as ordens de reintegração como a proteção jurisdicional de uma decisão estatal que, em tese, haveria de melhor ser discutida com a população”.

Foto: Wesley Passos/Democratize

A partir dai, uma série de ocupações começou a ocorrer em várias cidades de todo o estado. No ABC, em Osasco, Guarulhos, Sorocaba, Campinas, interior e litoral. Em pouco tempo, já eram mais de 90 escolas ocupadas, tudo em questão de semanas.

Movimentos composto por apoiadores, como a Rede Emancipa, lançaram um manual onde ensinava como ocupar uma escola, inspirado pela mobilização estudantil chilena. Em poucos dias, já contava com mais de 900 compartilhamentos no Facebook.

As ocupações cresciam a tal ponto que, no seu auge — alcançando mais de 200 unidades — o governo do estado passou a articular uma contra-mobilização. Militantes e funcionários do governo criaram uma página chamada “Devolvam minha Escola”, conforme denunciado pelo Democratize. Filiados ao PSDB, Roney Glauber e João Guilherme Ribas conseguiram convencer poucos pais e alguns funcionários das escolas ocupadas a tentar desarticular o movimento secundarista, com apoio explícito dos veículos de comunicação, que divulgavam o fato como verídico — sem ao menos investigar.

Ao mesmo tempo, um áudio acabou sendo vazado dentro de uma reunião convocada pela Secretaria da Educação. Na conversa, funcionários do governo passavam a construir um plano de desmobilização das ocupações, colocando como possível “grande aliado” o secretário de Segurança Pública do Estado, Alexandre de Moraes. Reveja o áudio, publicado pelo Jornalistas Livres:

A clara tentativa do governo tucano de intervir na mobilização com apoio midiático fez com que a resposta dos secundaristas fosse uma verdadeira surpresa.

Ao contrário do se que imaginava, os estudantes não se renderam e partiram para a última fase de mobilização, que tornou ainda mais óbvio o despreparo do governo e a falta de diálogo com a população, além da brutalidade da Polícia Militar com estudantes adolescentes.


ALUNOS, TRANCAR AS RUAS!

Foto: Francisco Toledo/Democratize

Os secundaristas resolveram voltar a ocupar também as ruas — mas de forma diferente. Tendo em vista que protestos e marchas já não conseguiam chamar tanta atenção dos veículos de comunicação e da opinião pública, os estudantes resolveram trancar importantes vias da cidade de forma consecutiva, todos os dias. O padrão era o mesmo: dezenas de estudantes com carteiras escolares, fechando cruzamentos de avenidas de grande tráfego na capital, e simplesmente não saindo de lá.

Mais uma vez, o governo não soube responder de forma adequada. Mostrando despreparo e falta de diálogo, a resposta para o governador Geraldo Alckmin foi a de reprimir mais uma vez os estudantes. Mas desta vez, foi ainda pior.

Foi uma semana intensa, marcada por ‘trancaços’ em locais como a Radial Leste, Marginal Tietê e Av. Faria Lima/Rebouças.

Em todas as manifestações, não faltou repressão: dezenas de secundaristas e apoiadores foram detidos. Uma professora chegou a denunciar que, após detida pela polícia, teria sofrido assédio sexual por parte dos policiais. Outro aluno foi levado por policiais como se estivesse em um ‘pau de arara’. Cenas e imagens de homens fardados dando cacetadas no rosto de adolescentes percorreram todo o país e chegou a chamar atenção internacionalmente.

Por diversas vezes o governador Geraldo Alckmin defendeu a atitude dos policiais, afirmando que ‘trancar as principais vias da cidade era inadmissível’. Curiosamente, os protestos pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) na Avenida Paulista e arredores sempre foi considerado um ‘ato cívico democrático’ pelo tucano.

Foto: Felipe Malavasi/Democratize

Quando menos imaginava, a opinião pública — enfim — se voltava contra o governo do PSDB.

O Datafolha divulgou durante a semana dos ‘trancaços’ uma pesquisa feita pelo instituto, onde mostrava um grande apoio da população com as ocupações e a mobilização dos secundaristas. Do outro lado, a pesquisa também mostrava uma queda significativa da popularidade de Geraldo Alckmin, chegando ao seu pior número, ultrapassando a negativa durante os protestos de Junho de 2013.

Diante de tal cenário, não havia mais escolha: numa sexta-feira, o governador anunciou seu recuo, suspendendo até 2017 o projeto de reorganização escolar. No mesmo dia, o secretário da Educação, Herman Voorwald, entregava sua carta de demissão.

Mas o recuo do governo não fez com que a mobilização acabasse.

Os secundaristas deixaram claro que, apesar do governo suspender o projeto, existe uma forte tendência de que a reorganização volte a ser aplicada em 2017 — conforme o próprio governador Alckmin declarou para a imprensa — com ainda mais força.

De lá pra cá, protestos e apoio público marcaram a mobilização dos secundaristas, como a Virada Ocupa, evento promovido por entidades sociais e movimentos estudantis, promovendo shows e apresentações nas escolas ocupadas de São Paulo, reunindo ícones da música nacional que demonstravam total apoio ao movimento estudantil, como a cantora Pitty e o cantor e ator Paulo Miklos, do Titãs.

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

Os protestos também continuavam, mas desta vez com mais unidade, através do Comando das Escolas em Luta. O primeiro ato, contou com mais de 10 mil pessoas, com concentração na Avenida Paulista — mesmo local onde uma das primeiras manifestações de outubro foi reprimida por policiais militares e pouco divulgada pela mídia.

E mais uma vez, o governo do estado demonstrou total despreparo no diálogo com estudantes e manifestantes. Quando o ato chegou ao prédio da Secretaria da Educação, um confronto entre manifestantes e policiais militares que faziam um cordão em frente à Secretaria começou.

Conforme denunciado pelo Democratize, um policial militar chegou a disparar dois tiros de arma letal em direção aos manifestantes. Apesar do nível de gravidade de sua ação, os veículos de comunicação não divulgaram o fato — preferindo focar em ‘atos de vandalismo’ causado pelos manifestantes.

Até agora, mais dois atos foram convocados pelos secundaristas e apoiadores, ambos registrando mais casos de agressão policial — o mais recente ocorrendo dentro de uma estação de metrô no Centro, onde alunos foram agredidos por seguranças e um fotógrafo teve seu equipamento danificado por um dos guardas da estação. Para o ano de 2016, provavelmente mais protestos virão, enquanto as ocupações começam a se desarticular.

Para muitos dos secundaristas e intelectuais, é natural o processo de desocupação das escolas. Porém, ao mesmo tempo, é importante que os alunos mantenham a mobilização viva para que o governo do estado não volte com o projeto com mais força e apoio da opinião pública.

Cerca de 20 escolas continuam ocupadas em São Paulo — mobilização que inspirou a luta dos secundaristas no estado de Goiás, que também já ocupam mais de 20 escolas até o momento contra o plano de terceirização das unidades, promovido também por um governo estadual do PSDB.


O Democratize continuará acompanhando a mobilização dos secundaristas. Atualmente, estamos produzindo o documentário ‘Ocupar e Resistir’, onde mostraremos a rotina dentro das ocupações em mais de 10 escolas ao redor do estado, além dos protestos e ‘trancaços’, e o futuro de toda essa mobilização.

Para ajudar a financiar esse projeto é fácil: basta clicar aqui e fazer seu investimento, podendo escolher o valor e a recompensa que você ganhará em troca.

Mas o mais importante: trata-se de um documento histórico, que será exibido em 2016 para que lembremos de manter todo esse movimento, impedindo uma possível volta do governo com o projeto.

By Democratize on December 30, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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