Em sua coluna na Folha de São Paulo, o jornalista Elio Gaspari afirma que a “Lava Jato chegou ao PSDB”. E chegou. Tanto o senador Jos…

A Lava Jatou chegou ao PSDB — mas todos conhecem o final dessa história

A Lava Jatou chegou ao PSDB — mas todos conhecem o final dessa históriaEm sua coluna na Folha de São Paulo, o jornalista Elio Gaspari afirma que a “Lava Jato chegou ao PSDB”. E chegou. Tanto o senador Jos…


A Lava Jatou chegou ao PSDB — mas todos conhecem o final dessa história

Foto: Jonas Pereira/Agência Senado

Em sua coluna na Folha de São Paulo, o jornalista Elio Gaspari afirma que a “Lava Jato chegou ao PSDB”. E chegou. Tanto o senador José Serra quanto seu colega Aécio Neves estão cada vez mais na mira das investigações. Mas, diante do histórico envolvendo o partido, todos nós já imaginamos como será o final dessa jornada.


Por Francisco Toledo

Lista de Furnas, escândalo da merenda, cartel no metrô e CPTM, fazenda com aeroporto, helicóptero repleto de cocaína…

São tantas histórias envolvendo nomes importantes do PSDB que já perdemos a conta. Nossa memória falha, talvez, pelo fato de sabermos o final de todas elas.

De forma esperançosa — ou talvez simplesmente ingênua — , o jornalista Elio Gaspari escreveu em sua coluna na Folha de São Paulo desta quarta-feira (10): “A Lava Jato chegou ao PSDB”. Sim, de fato as investigações ficam cada vez mais próximas de figuras importantes do partido, como é o caso dos senadores José Serra e Aécio Neves.

A Lava Jato chegou ao PSDB. Mas antes dela, um homem chamado Gilmar Mendes chegou no Supremo Tribunal Federal. E pelo histórico apresentado em sua carreira, parece que a Lava Jato não vai ganhar passe livre dentro do PSDB.

A esperança de Gaspari acontece por conta das novas revelações, que mostram a Odebrecht colocando mais de R$20 milhões no caixa da campanha presidencial de José Serra em 2010. O jornalista destacou: “Vinte e três milhões não eram um trocado. Equivaliam a dez vezes o que a empreiteira declarou oficialmente e a 20% do custo total da campanha estimado pela tesouraria do PSDB semanas antes do pleito”, escreve em sua coluna.

Mas Gaspari sabe do que fala.

No final de seu texto, cita o caso envolvendo a criação de cartéis nas licitações de trens e metrô em São Paulo: “À primeira vista, esses malfeitos seriam semelhantes, em ponto menor, às petrorroubalheiras petistas. O que diferencia as duas investigações é o resultado. Em menos dois anos, a Operação Lava-Jato já condenou 57 réus a 680 anos de prisão. A investigação paulista completou oito anos, sem maiores resultados”, finaliza Gaspari.

O estado de São Paulo, governado por tanto tempo pelo PSDB, é um exemplo de como seria o Brasil caso os tucanos tivessem o poder em suas mãos desde as eleições de 2002, ainda com José Serra como candidato.

Foto: Alice V/Democratize

Por exemplo, a Máfia da Merenda. Um assunto que apesar de existir desde o começo deste ano, só virou de fato assunto quando estudantes das escolas técnicas resolveram ocupar mais de 20 prédios públicos ao redor do estado — incluindo dois fronts principais: o Centro Paula Souza e a própria Assembleia Legislativa, a Alesp.

Antes disso, boa parte da população paulista nem imaginava quem era Fernando Capez.

O próprio eleitorado de Geraldo Alckmin imaginava muito menos de quem se tratava aquele suposto ladrão de merenda de crianças e adolescentes, um ex-promotor público e figura “moral” dentro do PSDB de São Paulo, chegando ao ponto de se tornar presidente da Assembleia Legislativa, comandada facilmente pelos tucanos desde os anos 90.

Depois de tudo isso, a CPI foi aberta.

Mas, não é bem assim.

Pra quem tá acostumado com a agilidade das investigações em Brasília quando o alvo é algum político petista, a história é completamente diferente em São Paulo, principalmente quando envolve algum tucano.

Fica a pergunta para você, caro leitor: quando foi a última vez que você ouviu alguma notícia nos grandes meios de comunicação sobre a CPI da Merenda na Alesp?

Não estou falando de rodapés em sites de notícias, e sim de manchetes. Daquelas que acontecem diariamente nos jornais da Globonews, com analistas e especialistas engrossando críticas e deboche contra os políticos envolvidos. Ou até mesmo algo que tenha saido da boca do William Bonner no Jornal Nacional.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Pois é. Nada.

Primeiro porque a CPI da Merenda só foi aprovada por causa da pressão dos estudantes, e depois também porque ela foi completamente manipulada pela base tucana, com o objetivo de incluir não apenas os supostos desvios praticados por figuras do estado, como também prefeituras — tendo como alvo específico a da capital, comandada pelo petista Fernando Haddad.

Mas, para aqueles que não sabem: nesta segunda-feira (9), mais uma sessão da CPI da Merenda foi esvaziada por deputados governistas, sendo encerrada por falta de quórum posteriormente. O assunto se torna cada vez mais inacreditável quando você descobre que o presidente da CPI é do mesmo partido de Fernando Capez, principal suspeito do esquema — e pior, o mesmo partido do governador. Sim, o PSDB.

Durante o pouco tempo de pauta em torno da CPI na Assembleia nesta segunda-feira, três delegados de Bebedouro, onde começaram as investigações, foram ouvidos. Um deles afirmou que “toda a parte da investigação relativa ao governo do estado foi encaminhada para a Procuradoria-Geral porque, na investigação, surgiram nomes de pessoas com foro privilegiado [Fernando Capez]”. Pronto. Foi o suficiente para começar o caos no plenário. O tucano Barros Munhoz começou a gritar, chamando o processo de “uma farsa” para “sujar a imagem do estado”.

E foi isso. De tanta gritaria, os delegados ameaçaram se retirar por conta das ofensas — mas não precisou. Os próprios deputados resolveram cair fora.

Portanto, não é difícil imaginar o final da CPI da Merenda, correto?

Talvez seja o mesmo final que as investigações de cartel envolvendo multinacionais no governo Serra tiveram. Ou até mesmo a Lista de Furnas, que afetaria diretamente Aécio Neves. Ou quem sabem a compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, além da privatização massiva com preço de banana em seu governo nos anos 90.

Agora, a Lava Jato, tão endeusada pela sociedade brasileira, ela sim, seria capaz de derrubar os tucanos.

Ou não, já que Gilmar Mendes continua no Supremo Tribunal Federal, e ele já tem se demonstrado um ótimo amigo para grande parte da elite tucana em Brasília.

Portanto, caro Gaspari, sinto dizer: a Lava Jato chegou ao PSDB, passou direto, e resolveu cortar o caminho com destino incerto.


Francisco Toledo é co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize em São Paulo

By Democratize on August 11, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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