Dia Internacional das Mulheres RJ. Foto: Bárbara Dias/Democratize

A Greve Internacional das Mulheres no Rio de Janeiro: Não à Reforma da Previdência!

Na última quarta-feira (8), no Rio de Janeiro, a celebração do Dia Internacional da Mulher ganhou uma roupagem diferente nas ruas da cidade. A luta já é antiga, mas as reivindicações e as formas de lutar estão se modificando e visando cada vez mais integração dos diversos movimentos feministas em prol da agregação de mulheres em uma luta que, apesar das diferentes características étnicas, sociais e culturais, pertence as mulheres de todo o mundo: a luta pelo respeito e pelo reconhecimento.

Os movimentos “Ni una menos” na América Latina e a Marcha das Mulheres nos EUA estiveram nos últimos meses protagonizando o palco mundial dos movimentos feministas e colaborando para a propagação dos ideais e dos desejos das mulheres, além de propiciarem a conscientização necessária para que cada vez mais mulheres se sintam livres para brigar por seus direitos e por suas liberdades. A Greve Internacional das Mulheres possuiu como objetivo principal ressaltar a importância da mão de obra feminina no mercado de trabalho. A necessidade em ressaltar tal importância está diretamente ligada as rotinas de exploração, assédio, desrespeito e desigualdade que mulheres vivem diariamente em seus ambientes de trabalho.  Um dia sem as mulheres trabalhando? Tarefas comuns como deixar seu filho na escola ou ir ao dentista poderiam se tornar um choque de realidade em meio a um vácuo, já que as mulheres representam, em escala global, cerca de 84% dos professores (da creche ao ensino médio) e 78% dos profissionais de higiene dental.

Segundo o jornal The New York Times, o número de mulheres protestando na quarta-feira (8) foi bem menor do que o número de mulheres presentes na Marcha das Mulheres, que aconteceu no dia 21 de janeiro. Os dados referentes ao diferente número de mulheres presentes na ruas dos EUA abre facilmente espaço para dúvidas sobre o potencial de movimentos de se manterem em evidência e com força. Em contraste com Nova York, o Rio de Janeiro fez do centro da cidade palco de um dos mais cheios e significativos 8 de março dos últimos anos. Segundo Elisabeth, que aos 67 anos afirma já militar pelas causas feministas há 30 anos, “o 8 de março costumava ser uma chatice, porque a gente fechava a Av. Rio Branco e ninguém gostava. Éramos vistas apenas como um incomodo, mas hoje já temos mais e mais  mulheres aqui aplaudindo e se unindo’’. Mulheres de todo o mundo se reuniram para deixar claro que os Direitos Humanos são Direitos das Mulheres e os Direitos das Mulheres são Direitos Humanos. E as vozes do Rio se fizeram ouvir em alto e bom som numa caminhada que seguido da Candelária até a ALERJ e reuniu cerca de 10 mil pessoas.

Nem uma a menos. Foto: Bárbara Dias/Democratize

O ato, assim como o feminismo, não foi guiado por um único caminho ou apoiava uma única vertente. A questão que inegavelmente se fez sentir por todos os lados foi a que diz respeito às propostas ligadas ao trabalho dos brasileiros, propostas apresentadas pelos governos do atual presidente Michel Temer e do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão. O país enfrenta um período de crise política que se casa com a crise econômica e gera déficits que vão muito além do bolso dos brasileiros. O déficit já alcança marcas recordes em quesitos como planejamento e respeito à vivência do cidadão.

O Rio de Janeiro está em colapso, o governo não consegue pagar salários atrasados, a cada dia mais informações vazam sobre a corrupção envolvendo o ex-governador Sergio Cabral, enquanto o presidente Michel Temer se equilibra entre a pouca popularidade e a fragilidade na organização do seu governo (que vai desde os membros até as suas propostas). A Reforma da Previdência é o assunto que mais assustou os brasileiros nas últimas semanas.

Parecendo viver em uma realidade ideal e paralela à que vivemos, o secretário de Previdência do Ministério da Fazenda, Marcelo Caetano, expõe orgulhosamente a proposta de reforma que visa equalizar os gêneros no momento da aposentadoria. Um dos argumentos a favor da reforma defende que a equiparação de salários entre homens e mulheres está crescendo, o que já torna possível e plausível a proposta de igualar as idades de aposentadoria. A equiparação dos salários, porém, parece ser apenas um dos muitos pontos a serem levados em consideração na hora de se pensar em políticas voltadas ao envolvimento de homens e mulheres no mercado de trabalho. “Se a proposta é machista, o mundo todo é”, afirma Caetano, que acabou se esquecendo que o Brasil ainda tem muito que caminhar para alcançar uma sociedade em que homens e mulheres possam se considerar iguais.  E se esqueceu também que mesmo que o mundo todo fosse machista, ser machista não é um troféu a se manter em uma sociedade que tem como pilares a democracia e o respeito aos direitos individuais de seus cidadãos.

As mulheres nas ruas do Rio ao serem questionadas sobre a Reforma pareciam um coral organizado para pronunciar a palavra “absurdo’’. Não é pra menos, comparar a realidade brasileira, principalmente na questão de igualdade de gêneros, com a realidade de países como a Alemanha, Islândia e Noruega é simplesmente absurdo. Afirmações desse tipo e propostas que seguem o mesmo caminho são as evidências mais claras que o país pode ter da falta de comprometimento dos atuais governantes em proporcionar qualidade na vivência e melhoramentos nas condições do cidadão brasileiro, não como um grupo uniforme (que nunca foi), mas respeitando a diversidade que sempre deverá ser levada em consideração na produção de propostas elaboradas pelo poder público.

A proposta é machista, sim. Para ajudar o secretário Marcelo Caetano e a comissão especial que debate o assunto a compreender melhor que as relações de gênero no Brasil, assim como em qualquer lugar do mundo, possui particularidades que devem ser  respeitadas e não ignoradas, preparamos um conjunto de depoimentos das mulheres presentes no ato do último Dia da Mulher no Rio de Janeiro. Oferecer voz a população é o primeiro passo para o esclarecimento da questão e caminho para compreensão do ponto de vista de quem vive na pele as consequências de políticas mal planejadas.

ENTREVISTAS AS MULEHRES QUE PARTICIPARAM DO 8M

Adriana. Foto: Bárbara Dias/Democratize

Adriana, 39 anos.

“Eu estou aqui hoje porque eu acredito no empoderamento da mulher. Acho que nós temos que lutar pela igualdade entre homens e mulheres.”

Qual sua opinião sobre a reforma da Previdência?
“Eu acho um absurdo a reforma da Previdência. Não está esclarecido publicamente este déficit na previdência, não há necessidade de falar desse assunto nesse momento, principalmente nessa equivalência entre os gêneros, igualando a idade de aposentadoria de homens e mulheres. Eu sou casada e meu marido me ajuda em casa, mas eu sei que minha realidade é diferente da maioria das mulheres do Brasil, eu não posso tornar a minha realidade igual para todas. A gente precisa resolver muitas outras questões antes de fazer uma reforma como essa de igualdade entre homens e mulheres na idade de aposentadoria.”

O que você diria para às pessoas que consideram os dados relativos ao feminicídio e a violência de gênero formas de vitimismo falso e tendencioso?
“Eu acho que é uma ignorância. As pessoas devem desconhecer os dados, né? Porque você dizer que a mulher é a culpada por tudo que acontece que é provocado pelo homem é, no mínimo, o maior dos absurdos. Mas enfim, se essas pessoas ainda existem, elas precisam parar para pensar que foi a mulher quem sofreu a violência, ela não pode ser culpada por um cara sentir tesão e querer estuprá-la. Ela não é culpada por isso, por ser bonita ou por ser sexy. Ela tem o direito de andar como ela quiser sem que o homem tenha a necessidade de tocá-la. Você não pode avançar, isso é respeito ao ser humano, independente de ser mulher ou homem.”

 

Nelma. Foto: Bárbara Dias/Democratize

Nelma, 42 anos.

“Eu estou aqui hoje porque acredito que a mulher é muito mais importante do que aquilo que a sociedade imagina ou estipula. A gente tem que se valorizar cada vez mais e a gente não pode continuar permitindo tanta violência contra o sexo feminino.”

Qual sua opinião sobre a reforma da Previdência?
“Eu acho um absurdo. Eu não acredito que tenha existido algum estudo sério para o governo chegar nessas medidas e regras. Isso não passa de uma forma de agressão a todos nós, homens e mulheres, porque os homens também serão afetados por essa reforma. Eu acredito que a gente precisa se mobilizar em prol disso. Eu trabalho 8 horas por dia e tenho a minha jornada em casa como dona de casa. Sou casada e meu marido também participa das tarefas domésticas, eu sou uma sortuda!”

Por que você se considera sortuda?
“Porque meu marido participa realmente e torna tudo mais leve, mas essa não é a realidade de todos. Eu acho que essa reforma vai esmagar muitas mulheres que já estão muito oprimidas, mulheres mais pobres, mulheres que vivem em condições de trabalho piores do que a minha… Eu trabalho em um grande centro do país, mas imagino quem trabalha no meio rural, alguém que já foi muito castigado pela sua jornada de trabalho, não poder se aposentar, não conseguir alcançar a sua aposentadoria. Isso é um crime!”

O que você diria as pessoas que consideram os dados relativos ao feminicídio e a violência de gênero formas de vitimismo falso e tendencioso?
“Eu acho que essas pessoas devem se esclarecer mais, se atualizar e abrir a mente para o que é a realidade atual. A pessoa não pode mais continuar pensando como se estivesse vivendo 100 anos atrás. Nós estamos tentando caminhar e é isso que eu acho importante, caminhar.”

 

Martina. Foto: Bárbara Dias/Democratize

Martina, 24 anos, Uruguai.

“Eu estou aqui hoje porque eu faço parte dessa luta. Essa luta faz parte de toda a América Latina, faz parte do mundo inteiro.”

Qual sua opinião sobre a reforma da Previdência?

“Eu acho essa proposta ridícula. Eles querem estipular uma idade que parece que ninguém vai se aposentar, uma idade que nem atinge a expectativa de vida de um brasileiro. Além de ser uma lei machista, é bem ridícula mesmo. Parece uma estratégia do Estado de tirar de si a responsabilidade de tomar conta das pessoas, dos contribuintes.”
O que você diria às pessoas que consideram os dados relativos ao feminicídio e a violência de gênero formas de vitimismo falso e tendencioso?
“Eu acho que nós mulheres somos vítimas de verdade. Sair com medo de andar  na rua com medo do estupro já é um problema sério, problema que não é só da pessoa que está estuprando e matando, é um problema da sociedade, um problema que vai muito mais além do que acontece dentro de uma família ou de outra, de um homem que mata a mulher… Isso tem a ver com processos históricos patriarcais, é um problema muito mais profundo. A situação do Brasil e do Uruguai é bem igual, nós estamos na mesma luta. Eu estou dividida, eu queria estar agora no Uruguai com minhas colegas, mas eu também faço parte da luta aqui. Nós mulheres devemos lutar aqui, lá e em todo lugar. E eu também gosto muito de ver as manifestações aqui, vocês brasileiros lutam com muita alegria e criatividade e eu considero isso bem legal.”

 

Ângela. Foto: Bárbara Dias/Democratize

Ângela, 68 anos.

“Eu estou aqui hoje em função de toda a minha vida, em função de toda a minha militância e tudo que nós fizemos juntas e feliz por ver a continuidade. É algo que precisamos, essa luta por nossos direitos que estão tão ameaçados nos dias de hoje.”

Homens e mulheres devem se aposentar na mesma idade?
“Claro que não. Nós possuímos jornada dupla e tripla, se existisse uma divisão das tarefas domésticas, você poderia pensar nisso, mas não existe essa divisão. Culturalmente será muito longo esse processo de divisão das tarefas, por isso é evidente que não faz sentido nenhum essa igualdade agora. Essa reforma da Previdência não faz sentido pra ninguém, os homens também estão sendo prejudicados com essa reforma. Não existe país no mundo que faça reforma na Previdência a partir de um suposto aumento na expectativa de vida da população, se faz reformas a partir dedados do presente.

Eu já fui casada e tenho três filhos, uma moça e dois rapazes. Durante a minha vida eu sempre tive muita atividade profissional e a divisão das tarefas domésticas sempre foi uma coisa muito difícil em todos os aspectos. Uma coisa que mudou minha realidade foi a existência da empregada doméstica. Eu pedia para os homens da casa arrumarem as camas, eu tinha que gritar uma ou três vezes. No fim, eles simplesmente fechavam a porta porque sabiam que pela manhã uma pessoa arrumaria, uma outra mulher que faria aquilo que eles esperavam que eu fizesse. O que é bastante significativo é que todas as empregadas domésticas foram pagas por mim, eu usava o meu dinheiro, o meu salário e eu pagava como aquilo fosse minha obrigação e como eu não fazia eu deveria pagar uma outra mulher para fazer. A divisão de tarefas domésticas sempre foi motivo de muitos problemas e muitas brigas.”

O que você diria às pessoas que consideram os dados relativos ao feminicídio e a violência de gênero formas de vitimismo falso e tendencioso?
“Nós não somos pobres coitadas, não somos vitimistas assim. Nós enfrentamos um patriarcado cruel, enfrentamos um machismo cruel. E é nesse sentido que a gente luta no enfrentamento à esse patriarcado. Quando acusam uma menina de sair com determinada roupa existe toda uma cultura por trás. O meu recado é: Lutem! Todos nós devemos lutar contra essa cultura que coloca o homem branco é o centro da história.”

 

Elizabeth e Ângela. Foto: Bárbara Dias/Democratize

Elizabeth, 67 anos

“Eu e a Ângela já estamos há 30 anos nessa luta. O que a gente quer é alertar a população e eu acho que a gente já conseguiu. O 8 de março costumava ser uma chatice, porque a gente fechava a Rio Branco e ninguém gostava. Éramos vistas apenas como um incomodo, mas hoje já temos mais e mais  mulheres aqui aplaudindo e se unindo, as empresas enviam uns e-mails meio ridículos agora, mas enviam, existe a lembrança e as felicitações. O machismo é uma coisa que está muito impregnada e a parcela mais pobre sofre mais. Nós vemos jovens desejando meninas não para namoro, mas para estuprar, a violência parece legal. Até hoje não conseguimos nos livrar disso aqui no Brasil, o machismo sobrevive com mais força nas parcelas mais pobres. Em muitos casos os homens não aguentam frustrações e eles não querem abrir mão das coisas, ‘não me frustra, você é minha’. Eu já vivi casos em que eu tive que intervir por uma mulher na rua, o namorado estava batendo nela e ele só parou quando eu citei a delegacia. Me parece que ele não parou por arrependimento ou respeito a mulher, mas por medo da lei.  Todas as minhas filhas são feministas e os maridos delas ajudam em todas as tarefas de casa. Isso é um avanço! Fico feliz pela minha família, mas sei que não é assim em todas.”

 

Lucilene. Foto: Bárbara Dias/Democratize

Lucilene, 56 anos.

“Eu estou aqui hoje porque é um dia para lembrarmos que nem todos os dias são nossos. Eu estou aqui para lembrar que as mulheres negras enfrentam, além da questão do sexismo, a questão do racismo, que nos atinge desde o momento que a gente nasce. Todos os dias, desde a mortalidade materna, não há políticas para reversão desses casos que nos atingem, quando choramos por nossos jovens mortos todos os dias. A gente está aqui hoje para agregar, estamos em um momento de tanto dissenso dos grupos políticos que conseguimos agregar as pessoas. A gente não tinha um 8 de março cheio assim faz muito tempo, nesse momento os movimentos estão se reunindo.

Eu também estou aqui para integrar a campanha dos 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo, porque muitas pessoas só se lembra que existe racismo em novembro por causa do Dia de Zumbi, mas nós também temos o dias 21 de março para nos lembrarmos do Massacre de Shaperville. O massacre faz lembrar os jovens marcharam contra o apartheid e foi nesse momento, após o massacre, que a ONU se posicional contra a situação do racismo. Nós temos que lembrar disso porque nossos jovens também estão morrendo todos os dias. O governo Temer e o governo Pezão estão destruindo todas as mudanças que mulheres negras conquistaram durante anos. O nosso atual prefeito, Marcelo Crivella, não respeita  e não compreende nem mesmo a história da cultura popular negra, imagina se ele reconhecerá e compreenderá nossa vivência geral.

As mulheres negras morrem por falta de políticas visando seu cuidado. Desde a falta de anestesia no momento do parto até a nossa segurança  diária, não nos enxergam como vítimas. É bom reunir os diversos movimentos para aumentar a visão e a compreensão de que todas estamos sofrendo e todas queremos lutar.”

Qual sua opinião sobre a reforma da Previdência?
“Uma reforma injusta. A questão do trabalho doméstico ainda não está bem resolvida. Várias das atividades cotidianas da família caem sobre nossas costas e cabe a nós as decisões. Fazer uma reforma desse tipo é retroceder os nosso ganhos. Honestamente, possuir tripla jornada de trabalho e ter sua idade de aposentadoria aumentada é um absurdo. O governo está nos tratando como se fossemos eternos e vivêssemos em altos níveis de qualidade de vida. Não é surpresa que ver que foram homens que elaboraram e aprovam propostas desse tipo, as mulheres precisam ter voz no governo. Não pagam nossos salários, cortam nossa assistência e agora retiram o tempo de vida que poderíamos ter.”

Mulheres ativistas do movimento negro. Foto: Bárbara Dias/Democratize

Marisete,  45 anos.

“Eu tenho a minha moradia própria, uma casa que me foi deixada pelos meus pais. Um vizinho meu queria comprar essa casa, porque ele é dono de um comércio e queria expandir a loja. Eu recusei a oferta e ele me disse que o lugar de negro é na favela. Eu já sofri vários tipos de violência. Eu fico com medo, principalmente por ser mulher. É uma coisa que me revolta. O direito da minha casa é do meu filho no futuro e não do meu vizinho. Ele quer forçar a venda me humilhando, deixando bem claro que eu não pertenço aquele lugar por ser negra. Ele sempre ressalta isso: eu sou mulher e eu sou negra. Não sei mais o que dizer, só sei que me machuca todo dia.”

 

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8M: Dia Internacional Das Mulheres

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