Indignação seletiva: quando manifestantes foram reprimidos pela polícia venezuelana em 2014, Maduro os acusava de atos de vandalismo e viol…

A direita que condena a repressão na Venezuela, aplaude em São Paulo

A direita que condena a repressão na Venezuela, aplaude em São PauloIndignação seletiva: quando manifestantes foram reprimidos pela polícia venezuelana em 2014, Maduro os acusava de atos de vandalismo e viol…


A direita que condena a repressão na Venezuela, aplaude em São Paulo

Foto: Fernando DK/Democratize

Indignação seletiva: quando manifestantes foram reprimidos pela polícia venezuelana em 2014, Maduro os acusava de atos de vandalismo e violência. A direita brasileira repudiou as ações do governo da Venezuela, classificando como “ditadura”. Em São Paulo, a Polícia Militar já feriu dezenas de manifestantes só neste ano, reprimindo brutalmente os protestos do Movimento Passe Livre. A direita aplaude.

Não é de hoje que setores mais conservadores costumam apoiar a violência policial contra manifestações populares em São Paulo. Até mesmo em 2013, quando um mar de gente ocupou as ruas contra o aumento da tarifa no transporte público, indivíduos como o colunista Reinaldo Azevedo exigiam mais repressão policial contra o “bando de mascarados”, aquele “grupo de vândalos pago pelo PT e pelo PSOL”.

“Meninos de classe média revoltados”, esbravejava Arnaldo Jabor, no jornal noturno da Rede Globo durante o início dos protestos do MPL em São Paulo no ano de 2013. Era disso pra pior.

Neste ano a novela não parece muito diferente disso. Agora reforçado por nomes como Kim Kataguiri, da “nova direita” do Movimento Brasil Livre, que em sua nova coluna na Folha de S. Paulo fez questão de chamar o MPL e os manifestantes de terroristas. O colunista da Revista Veja não fez diferente: Azevedo não só replicou o que Kataguiri disse, como também exigiu mais violência policial, até “exterminar de vez esse tipo de gente”.

Parece até piada termos que ler algo do tipo, cerca de quase 50 anos de 1968, quando protestos ainda mais violentos tomaram as ruas de Paris e se replicaram ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Hoje, vemos como uma revolta popular digna de respeito e admiração as manifestações da época, que a imprensa, classe empresarial e políticos haviam classificado como “estado de anarquia” na época. A história mostrou que não foi assim. E provavelmente a história deixará claro que as opiniões de pessoas como Kataguiri e Azevedo também não passam de distorções e acusações baseadas em interesses claros, seja político ou econômico.

Mas então, para analisar o ponto de vista dessa direita no Brasil precisaremos voltar para o ano de 2014, mais precisamente no mês de fevereiro, na Venezuela.

O presidente Nicolás Maduro enfrentava sua primeira onda de manifestações. Milhares e milhares de pessoas foram as ruas exigindo mudanças rígidas na política econômica do governo venezuelano, que entrava então em uma crise que até os dias de hoje não pareceram resolver.

As primeiras notícias que partiam dos grandes veículos de comunicação detalhavam como a polícia venezuelana reprimia os manifestantes:

No caso, a manifestação do dia 15 de fevereiro na Venezuela, em Caracas, ocorria enquanto os manifestantes trancavam duas vias importantes da capital venezuelana.

Agora, vejamos como o mesmo veículo tratou a repressão contra o protesto do Movimento Passe Livre, quando tentou trancar a 23 de Maio, no primeiro protesto contra a tarifa neste ano em São Paulo:

Quando o assunto foi a manifestação do MPL em São Paulo, o G1 ignorou completamente o que causou a repressão policial — que foi o trancamento das vias da 23 de Maio, focando na violência dos manifestantes contra os ônibus, deixando bem claro o “vandalismo” por parte do protesto. Sobre os feridos, que no protesto citado em Caracas foi bem especificado no título da matéria, o G1 preferiu ignorar e citar apenas a quantidade de detidos e de policiais que teriam se ferido na manifestação.

Ignoraram, claro, que inclusive um professor sofreu um tiro de bala de borracha no queixo durante a manifestação, um caso grave de abuso policial.

Agora é importante checar como foi a reação de ícones da direita sobre os protestos em Caracas em 2014, e também sobre os protestos do Passe Livre neste ano em São Paulo.

No texto, o blogueiro ignora completamente a existência de manifestantes adeptos da tática Black Bloc nas manifestações de Caracas — tornando algo exclusivo dos protestos no Brasil.

Além das falácias de sempre, como sobre “os black blocs serem financiados pelo PSOL e PT”, Azevedo diz que no Brasil os “manifestantes mascarados” são terroristas por atentar contra a vida de policiais e “cidadãos de bem”, além de praticar vandalismo durante os protestos.

Provavelmente o colunista da Veja não deve ter visto as fotos que circulavam de manifestantes também mascarados em Caracas, que também praticavam aquilo que ele chama de “atos de vandalismo digno de terroristas”. Além de claro, ignorar o fato de que policiais venezuelanos também se feriram e alguns inclusive morreram durante as manifestações — assim como manifestantes.

Manifestante enfrenta policiais em Caracas | Foto: APTOPIX

Queimar ônibus, pular catraca e quebrar vidraças de banco no Brasil parece vandalismo para a imprensa e para os colunistas de direita. Mas na Venezuela não é.

O Telesur, canal estatal, era o único que divulgava possíveis casos de “vandalismo” nas manifestações na Venezuela em 2014 — as outras redes de televisão, privadas, apoiavam as manifestações.
No vídeo abaixo, o jornal do canal estatal mostrava os casos em que manifestantes colocaram fogo e depredaram um caminhão com alimentos, além de uma clínica estatal. O presidente Nicolás Maduro também acusava parte dos manifestantes de colocar fogo em ônibus e depredar prédios públicos na tentativa de invadi-los.

O que diferencia então algumas ações dos manifestantes na Venezuela com os de São Paulo?

Talvez a diferença esteja em quem manda apontar o gatilho.

Isso tudo mostra como boa parte da imprensa e tais “ícones” da direita possuem uma indignação seletiva, além de viver repletos de contradições. No fundo, o sonho de Kim Kataguiri era que a Polícia Militar em São Paulo fosse administrada por um governo petista: assim, talvez, possíveis confrontos com a polícia seriam o suficiente para criticar a “brutalidade policial petista”, e mostrar ao mundo que o “Brasil vive uma ditadura bolivariana”. Mas como São Paulo é administrada por governos tucanos por mais de 20 anos, a micareta na Avenida Paulista é o suficiente. E se outras manifestações forem reprimidas, o problema não é a polícia, e sim os “vândalos”.

Poderíamos apontar aqui diversos outros casos de contradição por parte de pessoas como Kataguiri, que se dizem contra o Estado e a favor de “liberdades individuais plenas”, mas quando manifestantes de esquerda trancam grandes avenidas tudo o que ele faz é torcer para que o braço armado do Estado os reprima, a favor da “ordem”.

É preciso também destacar e se preparar para como tais pessoas e a grande mídia no Brasil apresentarão possíveis protestos contra o recém eleito Macri na Argentina. Se quando no governo passado, dito de “esquerda”, os protestos eram vistos como legítimos, provavelmente os próximos não receberão a mesma atenção e tratamento.

E assim caminha a seletividade.

Manifestante ferido com bala de borracha no queixo durante primeiro protesto do MPL em São Paulo neste ano; não apareceu no G1 | Foto: Francisco Toledo/Democratize


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on January 20, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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