O maior pecado cometido por Nicolas Maduro foi não ter dado sequência ao projeto político representado na ideia do chavismo: a construção…

A derrota de Maduro não é uma derrota do chavismo

A derrota de Maduro não é uma derrota do chavismoO maior pecado cometido por Nicolas Maduro foi não ter dado sequência ao projeto político representado na ideia do chavismo: a construção…


A derrota de Maduro não é uma derrota do chavismo

O maior pecado cometido por Nicolas Maduro foi não ter dado sequência ao projeto político representado na ideia do chavismo: a construção de comunas na Venezuela. Agora, é preciso repensar o projeto de esquerda no país, admitir os erros e abrir espaço para novas ideias que já começam a surgir na América Latina.

Em meados de 2008, um importante passo foi dado para o futuro do chavismo na Venezuela com o surgimento das Comunas Socialistas. Imagine que, em um continente dominado pela lógica da necessidade de um líder e de um poder centralizador, surgisse um projeto político de auto-gestão e horizontal. Por mais improvável que possa parecer, o máximo que chegamos perto disso foi na Venezuela, com as comunas.

Trata-se de instâncias de auto-gestão política e produtiva sob controle dos trabalhadores associados. Espaços terroritorias que aglutinam ambas as esferas de auto-gestão, ou seja, são experiências que concretizam a aclamada utopia de superação do Estado burguês e do trabalho assalariado.

As Comunas vem sendo criadas de maneira sistemática desde que sua proposta veio à tona. Porém, sua semente foi plantada com a criação de organizações populares locais desde 2002, cujo foco era a implantação de projetos comunitários de maneira coletiva, com decisões tomadas via instâncias de democracia direta.

Porém, após a morte de Chavez, com o surgimento da crise econômica causada pela baixa no preço do petróleo e de uma possível guerra de interesses entre o mercado e o governo venezuelano, as comunas perderam a atenção que mereciam ter. O processo revolucionário na Venezuela sem a existência e crescimento desse tipo de controle dos trabalhadores perante o Estado ficaria destinado ao fracasso — ou ao modelo já existente em países como o Brasil, de conciliação entre o neoliberalismo e políticas assistencialistas, que já se demonstraram um erro que pode dar benefícios a curto prazo, mas a longo prazo fica refém do próprio mercado e de alianças políticas indesejáveis.

O Estado venezuelano se estagnou no tempo diante da crise, permitindo que a massa burocrática composta pelo front de defesa de Nicolas Maduro tivesse uma voz maior que as comunas socialistas e ideias de auto-gestão, que poderiam fazer uma frente eficiente contra o mercado, como já foi constatado por diversos analistas políticos.

Entrega de casas na Comuna Ecoturistica de La Restinga, em maio de 2014 | Foto: Inparques

Neste domingo, o anuncio de uma derrota histórica do PSUV diante de uma direita camuflada pelo discurso centrista e de conciliação é uma prova de que o presidente Nicolas Maduro não soube lidar com a crise de forma adequada. A aliança de oposição Mesa da Unidade Democrática conquistou 99 assentos na Assembleia Nacional, enquanto os socialistas ficaram com 46 das 167 cadeiras, de acordo com a comissão eleitoral.

O sentimento de mudança na Venezuela existe pois, após a morte de Chavez, não houve uma tentativa sólida de continuidade no projeto de construção de um novo sistema político e econômico no país latino-americano.

E tudo isso foi extravasado pela crise econômica enfrentada pelo país. O que não deixa de ser um aspecto positivo: a tendência do preço do petróleo continuar baixo nos próximos anos é grande, o que tornaria difícil para um próximo governo de oposição construir um cenário mais positivo na economia. Caso a oposição vença e Maduro saia do poder, a tendência é que uma série de privatizações e concessões acabem ocorrendo, desmanchando o poder do Estado em segmentos importantes da economia, para tentar agradar ao máximo o mercado. Porém, agradar o mercado não significa necessariamente uma melhoria nas condições de vida do povo venezuelano. Enquanto o acesso aos produtos de bem consumo deve ser facilitado, por exemplo, o ensino público e a saúde pública devem ser diretamente afetados pelo desmanche financeiro do Estado.

Isso tudo deve ocorrer porque a nova direita latino-americana não é popular por seu projeto político, que não existe, e sim pela estagnação da velha esquerda no continente, que não souberam construir um programa que realmente mudasse a cara do sistema político e econômico da América Latina.

E essa direita, sem um projeto político específico — que na realidade é apenas uma cópia com nova embalagem da direita dos anos 80 e 90, privatizante e conservadora — não saberá lidar com toda a máquina que terá em mãos, cometendo novamente os erros dos seus antigos colegas. Já é comprovado que políticas de austeridade são fadadas ao fracasso, pois apenas funcionam em ciclos eternos, não trazendo de volta os benefícios e sim apenas mais cortes. Essa mesma direita não saberá — e tampouco se importará — em apreciar o que as Comunas Socialistas podem significar para o futuro da Venezuela. Abrirão mão do Estado, mas não dando o poder aos trabalhadores e sim aos empregadores, aos empresários e banqueiros. Um clássico erro do liberalismo, que tanto prega o livre mercado e o fim do Estado mas ao mesmo tempo deixa nas mãos de poucos todas as riquezas.

Portanto, mesmo que Maduro perca e que no futuro não seja mais o presidente da Venezuela, isso não significa necessariamente o fim ou até mesmo uma derrota para o chavismo.

A semente da auto-gestão, tão desejada por Hugo Chavez, já foi plantada. E por mais que futuros governantes conservadores tentem encostar nela, será improvável.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on December 7, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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