Semanas após o desastre feito por mãos humanas em Mariana (MG), o vocalista Eddier Vedder da banda Pearl Jam tocou na ferida até então…

A consciência que veio de fora

A consciência que veio de foraSemanas após o desastre feito por mãos humanas em Mariana (MG), o vocalista Eddier Vedder da banda Pearl Jam tocou na ferida até então…


A consciência que veio de fora

Apresentação da banda Pearl Jam em Belo Horizonte | Foto: Camila Cara

Semanas após o desastre feito por mãos humanas em Mariana (MG), o vocalista Eddier Vedder da banda Pearl Jam tocou na ferida até então intocável pela classe artística. Quando precisamos de gente de fora para falar verdades sobre o que acontece aqui dentro, é porque algo está errado.

No livro Vida, de Paulo Leminski, o poeta aborda a Revolução Russa de forma enigmática. “A consciência que vem de fora”, ele escreve por várias vezes até o final do capítulo da biografia do revolucionário Leon Trotsky. Com essa afirmação, ele tratava da necessidade de agentes externos para conscientizar a classe operária russa sobre o que é o certo e o errado na política da época. Por exemplo: quem fez a revolução do proletário nunca havia pisado em uma fábrica. Eram escritores, filósofos, gente da mais fina inteligência, os nobres do pensamento russo.

Nada muito diferente do que acontece aqui. Pelo menos em alguns aspectos.

Claro que não estamos falando de revolução alguma, e sim de uma tragédia causada pelas mãos do homem. O desastre em Mariana (MG), como muitos já sabem, não foi acidente. Ocorreu por conta da falta de fiscalização do Estado, mas principalmente pela ganância de multinacionais e empresas como a Vale, que comanda cerca de 50% da estrutura da Samarco — inclusive na região atingida pela tragédia.

Muitos sabem disso. Não é preciso ter um fino requinte intelectual para saber disso. A diferença acontece quando boa parte dos que sabem disso possuí uma estrutura de alcance de ideias enorme, mas não fazem uso disso — ou fazem muito mal.

Vejam só, a classe artística no Brasil nunca esteve tão envolvida em assuntos políticos nos últimos 20 anos como agora. Vemos cantores “politizados” como os roqueiros Lobão e Roger (da banda Ultraje a Rigor), além de “youtubers” (mais conhecidos como apresentadores de TV geração iPhone) que adoram palpitar sobre polêmicas, como Felipe Neto. Alguns adoram falar sobre o impeachment de Dilma Rousseff, e como isso resolveria como um relâmpago a situação econômica e política do Brasil. Já alguns outros simplesmente adoram falar asneira e espalhar mentiras com o objetivo de render alguns segundos de fama. Mas nenhum se pronunciou diretamente sobre o que aconteceu em Mariana.

E por que será?

Vejam só, bater na esfera pública é a coisa mais fácil do mundo: ela existe exatamente para isso, para se bater. O motivo? Nós somos os patrões, os pagadores de impostos, não temos esse direito de criticar e ficar no pé.

Mas a coisa muda de cenário quando quem comete a cagada vem de outra esfera da nossa sociedade: a iniciativa privada. Pra quê bater na Vale ou na Samarco sendo que, futuramente, pode me surgir uma oportunidade de apresentar um show em uma cidade com patrocínio deles? Ou melhor: bater na Vale ou na Samarco não pode me render tantos likes e shares quanto fingir que isso tudo foi um acidente e criticar a presidenta pelo atraso no interesse a participação pós-tragédia. Afinal de contas, independente do que aconteça de errado, o culpado sempre é o presidente, o partido do presidente, e quem apoia o presidente.

Quem diria: acabamos precisando de alguém de fora para dizer verdades. A consciência veio de fora. E veio com rock.

Em show feito na capital Belo Horizonte na última semana, o vocalista da banda Pearl Jam — conhecido pelo seu ativismo global — mandou seu recado para os verdadeiros culpados da tragédia em Mariana, dando nome aos bois.

“Enquanto essas grandes empresas usam e abusam de terra apenas para lucrar, sem nenhum respeito pelo meio ambiente, acidentes tiram vidas e destroem rios. E ainda assim eles conseguiram lucrar”, disse Eddie Vedder. E continuou: “Esperamos que eles sejam punidos, duramente punidos e cada vez mais punidos para que nunca esqueçam o triste desastre causado por eles”.

Enquanto isso, a classe artística no Brasil prefere participar de gincanas em programas de domingo a tarde, ou até mesmo fazer vídeos criticando o governo Dilma Rousseff, o acusando de irresponsável pela economia, enquanto ignora a irresponsabilidade dos homens de terno e gravata com o meio ambiente e a vida de milhares de pessoas que segue sendo afetada pelo desastre causado pela Vale & Samarco.

É a indignação seletiva, que parece se manter mais forte do que nunca.

Termino citando Leminski e adicionando mais algumas palavras: no Brasil, a consciência precisa vir de fora, não para vencermos a guerra de classes, mas sim vencermos a ignorância das classes — a artística, em especial.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on November 22, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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